Sexta-feira, Fevereiro 24, 2012

Mergulho Verde

Cartão de unicidade, todo lugar tem um símbolo, uma marca de originalidade, seja como destino apetecível ou malogrado de afastamento. São murmurejos inaudíveis de arrebatamento irrefreável que reclamam o viajante, como aos marinheiros as sereias. Na ânsia de beliscar a alma, fui engodado pelos cicios de dois símbolos hawaianos: crepúsculos orlados de palmeiras, engalanadas de preto na contraluz, e surfistas de cabeça-dura mas espírito ligeiro. Foi no Finding Nemo que me foram apresentados pela primeira vez com o epíteto de desportistas náuticos. Delícia de animação gráfica, transpõe para os gigantes amistosos toda a humanidade hawaiana. Nos folhetins de viagens são peças de merchandising, para os hawaianos símbolos de uma paz rotineira incompreensível aos ocidentais, para mim um abraço desprendido de ingresso no planeta virgem.
Os ocasos não são acaso e galanteiam-nos diariamente na imensidão do oceano. Já as tartarugas, pensei a certa altura serem mitos inacessíveis para quem despende uma só semana da vida para os presenciar. Mais um cromo da colecção de expectativas de viagem que vai esmorecendo até passar a bailar na mente como utopia pueril, gerada pela ânsia do desconhecido e dilatada pelo marketing enganoso (dói-me a barriga cada vez que me lembro dos turistas ingleses que fazem safaris no interior algarvio para ver zebras). Porém a fé tem dessas matemáticas estranhas. Custa até vermos o primeiro milagre mas depois sucedem-se em catadupa. Vi a primeira ao fim de seis dias. Deliciei-me com mais de uma dezena de gigantes verdes pachorrentos no sétimo e oitavo dia.
Revivo hoje a sensação inexprimível de me envolver nos mantos azulados lado a lado com estrelas da National Geographic. Dezanove meses atrás, no calor da refrega decerto os meus urros submersos de realização genuína aturdiram toda a comunidade piscícola local. Por entre carícias na carapaça, meneios de cintura como que a testar os limites da interacção e as permissividades na intimidade, damejei-as como adolescente apaixonado.
Abençoado pela generosidade do encontro fortuito vivi mais um sonho de criança e trouxe no cofre das lembranças uma página estampada de seres extraordinários a bailarem a meu lado nas águas azul-turquesa do Pacífico.