Domingo, Agosto 21, 2011

Fetiches da alma

Vivemos a vida em busca de sonhos, de fantasias, de caprichos, incessantemente à procura de imagens e sensações que nos preencham. Em cada viagem anseio por beliscões na alma que me despertem da modorra do conforto rotineiro. Uma espécie de cofre inviolável de vivências que me confortam nos outros dias em que existo apenas por obrigação ou necessidade. É isso que procuro quando viajo, coleccionar fetiches da alma.
Saio para o mundo com uma mochila cheia de trapos e alguma maquinaria de estampagem de memórias, na esperança de regressar com a minha colecção de fetiches ampliada. Não passam disso mesmo, objectos, imagens e experiências animados ou inanimados, naturais ou artificiais, realizáveis ou irrealizáveis, mas acima de tudo baseados em sonhos e expectativas que nos elevam a existência e açulam os sentidos.
Por vezes sinto-me um adulto adiado, ainda ingénuo a ponto de forçar a realidade daquilo que sonho, desprezando a probabilidade fatalista da realidade. Nessas alturas sinto-me crente. Piedoso de uma religião sem símbolos fixos, sem rituais impostos, sem heranças rubras, mas com fé em encontros naturais, também eles de realização pouco crível. No fundo é tudo uma questão de fé. Tal como na apostólica, não há espaço para a razoabilidade, apenas o desejo e esperança de despertar sensações. É ainda assim uma fé mais terráquea, ao procurar atingir na Terra aquilo que outros adiam para o firmamento incerto. Cumpro a minha fé na envolvência do mundo vivo, sem necessidade de romarias de terço rezado.

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