Domingo, Julho 17, 2011

Escritor à beira-mar

Amanheci hoje ao som do mar. Não um mar ficcionado, desses difundidos em gaiolas radiofónicas de sons da natureza para simular um bucolismo inexistente na selva urbana. Aliás, não deixa de ser curioso o paradoxo. O país onde nasceu a prática dos rituais Zen, ditos de meditação contemplativa através da experiência directa da realidade, vende agora caixas forjadas de experiências indirectas de irrealidade. Não, eu acordei mesmo ao som do mar.
As ilusões nocturnas foram interrompidas pelo respingar dos acordes marítimos através da janela do quarto. Lá fora na baía da Prainha, um Oceano inteiro reveza o galo. As pedras roladas crepitam a cada vaivém das ondas e o sol tímido salpica-me o corpo de raios. As andorinhas do mar completam a orquestra. Uma sinfonia natural sem vozearia humana nem rugidos de maquinaria. Acordo no viridário.

Faz hoje duas semanas que me mudei temporariamente para a Ilha do Pico. Apesar de passageira, a estadia vai ser suficientemente longa para empregar o termo “mudar”. Dois meses de reclusão do grão que impregna a moldura rotineira e obsta a divagação sem amarras. Dir-se-ia reclusão, até agora assemelha-se a um hiato libertador. Ao acordar, a mente ainda pejada de modorra, sorri perante a lembrança do anúncio da Caixa Geral de Depósitos.

“Pensei que a prenda de formatura era apenas uma gravata, mas afinal veio também uma conta. Abri um negócio à beira-mar, faço o que gosto e não abdiquei do meu vício do surf…”

Confesso a deformação de palavreado do slogan original. A lucidez diária tenta ainda emancipar-se das agruras e devaneios da noite e atropela a memória. Mas as ideias beira-mar, emprego de sonho e surf fazem parte do quinhão fiel da mensagem. Cada uma isolada veicula uma sensação de felicidade e realização. Todas juntas transportam-nos para um lugar-comum, um arquétipo de vida ideal. Trabalhar num escritório à beira-mar, longe do bulício urbano e com tempo, esse bem escasso, para dedicar aos prazeres da vida. Como se a maresia transpirasse inspiração e a vastidão azul evadisse os empecilhos criativos e alongasse o tempo.
Desta vez caí no senso comum e as minhas pretensões a curto prazo são banais. Cumprir nem que seja por um curto espaço de tempo o desejo de trabalhar à beira-mar. Dois meses a trabalhar como escritor. Escritor de uma tese, felizmente com data de término saída da neblina e, esperançosamente, dos relatos bloguistas das viagens esquecidas dos últimos dois anos. Cada qual no seu arquivo, sem hierarquia de importância. Quanto ao vício, esse foi arrebatado pelo bom senso. O bom senso de não praticar surf numa baía de pedra aguçada. Fica a minha reinvenção do anúncio…

Pensei não ver o dia de trabalhar com o oceano como pano de fundo. Felizmente juntei dinheiro antes da crise e dos cortes para viajar até ao Pico. Refastelado à beira-mar, escrevo o que tem de ser, mas também o que gosto, dou mergulhos para tirar fotografias aos peixes e traio alguns com o arpão para ter jantar. Ao fim do dia dedico-me às artes da harmónica sem vizinhos para azoar …”

1 comentários:

O Improviso disse...

O k eu acho mesmo é k a tua vida é uma verdadeira ficção. Apesar disso nota-se k a idade começa a pesar. Traíste a pandeireta e trocaste-a por uma harmónica. A exuberância do movimento e o voluntarismo do gesto queda-se agora pela tranquilidade da pose e o controle da harmonia. Outros tempos..."How many roads must a men walk down..." Long life for both of you.