Onze horas depois de os meus pais terem visto a Universidade de Coimbra engolir o sol, vejo o naufrágio do mesmo astro no oceano circundante do Hawaii. Funcionário incansável de uma empresa de sonhos e bons presságios à escala planetar, o astro-rei acasala promiscuamente com múltiplos horizontes dia após dia sob o olhar enternecido de amantes. Filmes e postais eternizaram o momento pictórico, mas, tal como a arte realista, não caçaram na plenitude a religiosidade do momento, o fim de ciclo diário em que os Hawaianos renovam o vínculo com a Natureza e fazem as pazes com o Mundo.

Contrario a calmaria circundante e desço a Highway 550 a uns estonteantes 60km hora, deixando no retrovisor apenas uma miragem do Koke’e State Park. Na ânsia de tudo querer ver atropelei os ponteiros do relógio e vejo agora cada vez mais distante a possibilidade de assistir do alto da montanha ao pôr-do-sol no mar. No entanto, a ilha facilita, e sem o tropel de outros viajantes ou autoridades fiscalizadoras dos bons costumes automobilísticos chego ao miradouro por que me embeicei no primeiro dia; uma curva de relevo sobre as fraldas da montanha sobranceira a uma pequena localidade e com vista para a praia dos cães danados. Chego com o mar a morder os perímetros rubros do sol mas a tempo de assistir ao espectáculo de cores do céu. Muita gente agarra-se ao sentido estrito do nome; ocaso, momento em que o sol desaparece no horizonte. Abandonam o local nessa altura cumprindo um ritual castrado. Vivo antes o conceito lato; pôr-do-sol, bailado colorido segundo o qual o sol se deita nas cores quentes e se cobre com um manto de cores misteriosas.
Amarelo, laranja, vermelho, rosa, violeta, roxo, as tonalidades sucedem-se com bailarinas brumosas a coreografarem a cena. É precisamente no momento que a maioria vira costas que o céu se enche de brio e se inunda de cores correndo todas as frequências de luz visível da palete. Possivelmente não descuida as frequências não visíveis e talvez por isso muitos animais escolham também esta altura do dia para porem a cabeça em ordem, para descansaram os olhos no horizonte longínquo em busca das cores que não cansam, da sequência que não sai de moda. Lembro-me da Amazónia onde o acontecimento era diariamente acompanhado por uma sinfonia de ulos animais.
Companheiro de espectáculos vespertinos, um havaiano relaxa os olhos perdidos no céu tal como eu. O sorriso na face verte a ledice do momento enquanto o corpo cansado do dia de trabalho se alonga na traseira de uma Strakar. Como a maioria nesta ilha, cedo vem ao cimo o carácter hospitaleiro e mete conversa connosco. Partilha a paz que o traz todos os dias àquele local. “O amanhã não conheço, mas hoje despeço-me deste dia com pompa e circunstância, e amanhã se existir cá estarei de novo.” Mais dois dedos de conversa e revelam-se as coincidências. Não conheceu os avós naturais dos Açores, gente corajosa que trouxe os genes para o Pacífico, mas guarda com carinho as origens. De Portugal lamenta não guardar mais do que memórias que apenas viveu em segunda mão. Pergunto o nome. “Wapupu Miguel”. O primeiro nome, inventei-o com leveza escriturária (sem chance de reprodução fidedigna), mas o segundo ficou gravado. “Miguel”. Afinal, para além de memórias também ficou marcado à nascença com rótulo português. Desata a rir quando confesso que partilho o segundo nome com ele e que é português. Tão longe e tão perto, afinal somos todos família.

Durante uma semana percorri a ilha de lés-a-lés, algumas vezes sem a dedicação que as paisagens mereciam, mas todos os dias ao fim do dia detinha-me e mergulhava com o sol na quietude. Invariavelmente em praias estranhamente desertas para a época e magnificência da vista, os pés mergulhados no pacífico, a alma pacificada pelo céu. Para além de mim e da Alice poucos, muitas vezes nenhuns, eram os turistas à hora da aguarela; quem ficava a molengar eram autóctones anónimos como o Miguel. Sozinhos, em pares românticos ou no regaço familiar.

Sou um ser estranho; colecciono pacotes de açúcar e bilhetes de cinema onde o filme já não se lê e apenas quem me acompanhou ficou, mas colecciono também momentos de comprazer puro, da comunhão da Terra com o fiel escudeiro a anunciar-me nas cores quentes sobranceiras ao horizonte novos dias que afinal sempre existiram.
1 comentários:
Estranho? Claro, confundes pacotes sem açúcar com bilhetes sem filmes. Transformas o ocaso num caso (sério, de luz, e de cor) e depois inventas uma tela onde desenhas o dia que vem quando te despedes do que foi… É difícil mesmo
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