Terça-feira, Novembro 09, 2010

Padrão Insular

Arquitectura divina, coincidência fortuita, ou lei natural dotada de inteligência que nos transcende, aparentemente a geo-morfologia das ilhas vulcânicas foi desenhada em série como nas fábricas do Taylor. Primeiro dia de estadia na ilha tropical e o passeio pelo lado sudoeste da ilha mostra-a mais árida do que supunha.

Sem a opulência dos arranjos florais que deram o epíteto à ilha, a ponta sudoeste é opção secundária para os migrantes continentais que procuram casa no paraíso. Desarranjadas mas vividas, singelas mas acolhedoras, nos beirais das casas vêem-se maioritariamente hawaianos autóctones; opulentos de corpo, samoanos nos traços faciais, afáveis no trato, aparentemente felizes e realizados.

De carro em direcção ao sol poente, a terra vermelha dos óxidos, apaixonante do ambiente escaldante do clima tropical transfigura a imagem verdejante e colorida dos postais hawaianos. Um ilhéu ocre contido na insularidade, à partida expectável em África, mas não no meio do Pacífico.


Na cuca ressurgem memórias da praia de Cofete numa viagem às Canárias. Tenerife, Lanzarote, Fuerteventura, e agora o Kauai, todas elas áridas e quentes na ponta sul. Decidida a forma, delineadas as fronteiras com o mar, alçadas as montanhas, talvez a decoração seja o último item da lista de tarefas do criador. Traça as emoções verdejantes pinceladas de flores da esquerda para a direita de cima para baixo. No final do dia, já com as tintas extintas ou criatividade esgotada deixa as pontas sudoeste das ilhas desprovidas de luxúria. Um retrato minimalista da terra na sua origem de beleza pura. O Homem segue as pisadas e as estradas asfaltadas são nestes pontos destronadas pela aventura das estradas poeirentas de terra batida e areia.

No Kauai, os últimos quilómetros no beco sudoeste são uma jornada de solavancos sem fim à vista. Para os mais persistentes um doce no fim do caminho. Uma praia extensa de areia fina e orlada por castelos rochosos cobertos de seres verdejantes oportunistas. A praia deserta, coberta do tom dourado de fim de tarde à nossa chegada, recebeu em boa hora o nome de Barking Sands.


Desenganem-se se pensam ser povoada de matilhas selvagens. Um só animal, azul, enorme, de temperamento inconstante, arremessa do infinito no horizonte ondas tubulares que mastigam a areia com edacidade. Os poucos observadores que se aventuram até ao fim do mundo maravilham-se com o marulhar contínuo do mar a lapidar à boca cheia as conchas milenares. Uma toada cíclica que apazigua almas e franqueia paz à existência.

0 comentários: