
“Vou para o Hawaii.” A convicção da afirmação plena de excitação não deixa transparecer as dúvidas que a decisão exsuda. Fora a magia cinematográfica, o exotismo do pôr-de-sol de postal e o encanto, propriedade gratuita do senso-comum, o meu conhecimento das ilhas é nulo. Como escolher para qual ilha viajar? 7, número pequeno incapaz de completar a caderneta de cromos das duas mãos, é o número de ilhas (o resto são apêndices de terra, parentes terrosos separados por quezílias menores) escrito nos papéis das rifas. A mão digital do Google maps roda o globo com arrebatamento, tornando visível em segundos o que os meus olhos não conseguirão enxergar ao vivo em menos de 24 horas. Longe no imaginário é também local longínquo no globo. Sem muita falta de rigor poderia mesmo dizer do outro lado do mundo. O fuso horário deixa as 0 horas de Greenwitch e cavalga 11 faixas de tempo tabelado até chegar ao Hawaii. Na corrida não atravessamos o Trópico de Capricórnio, nem ficamos de pernas para o ar como os povos da Austrália e por isso o Hawaii é como uma espécie de antípoda, mas no mesmo hemisfério. A câmara colada ao ponteiro do rato entra em queda vertiginosa, uma espécie de salto tandem, o rato controlando a escala, eu no descontrolo das minhas fantasias. Truque de magia moderna, o arquipélago ocupa agora todo o ecrã do computador, todo o ecrã dos meus projectos a curto prazo. Fico toldado pelo facilitismo tecnológico e neste rodar, rodopiar, aproximar e afastar do globo digital perco a noção de escala. Próximas no espaço, ajuntadas na nomenclatura, cada ilha é uma entidade de paraíso para alguém. Já dizia Mia Couto “O paraíso não é um lugar, é um breve momento que conquistamos dentro de nós.” É esse momento que eu procuro, esse pedaço de bem-estar que nos faz voar, mas antes preciso de o contextualizar, de lhe arranjar um lugar para germinar, para eu o poder viver.
Fecho o explorador sem resposta para a minha pergunta. Qual ilha escolher? Ohahu, meca dos surfistas e do Kahuna Eddie Aikau, mas transfigurada pelo crescimento da metrópole Honululu. Carrega a ferida do Pearl Harbour.
Maui, ilha com extensões de praias e corais a perder de vista e do mesmo jeito turistas em multidão. Palavras da minha senhoria ecoam ainda “In Maui you will feel like cattle living in a predestinated path of paradise”.
Hawaii a ilha, não o arquipélago, é o pedaço de terra mais a Sul e aquele que mais tempo levou para irromper do ventre terrestre. Partilha com o povo a obesidade prematura na idade adolescente, em engorda contínua graças aos rios de lava que invadem o mar todos os dias e alimentam as bordas da ilha. Em área é o dobro do Algarve e por isso se compreende a alcunha de Big Island. Grande em área, a Big Island é gigante no imaginário vulcanólogo. Por momentos perco-me nas memórias juvenis das aulas de CTV, leccionada por uma professora que tal como os vulcões incendiava paixões. Vulcões Explosivos, Estrombolianos e Hawaianos em memória dos presentes. Apesar da cor vermelha de raiva ou paixão violenta, os vulcões do Hawaii são pachorrentos. Fora os gases sulfurosos que por vezes interditam as visitas, o Kilauea espreguiça-se encosta abaixo num indelével soerguer manso com medo de acordar a vizinhança.
A delonga na descrição da Big Island evidencia parcialidade na discussão e, não fosse faltar a jóia da coroa, a decisão estava tomada. Kauai, o nome exótico assenta como uma luva à ilha também apelidada de Jardim. Florestas oceânicas, cascatas cinematográficas, recantos de terra trabalhados pela mais experiente das escultoras, praias de areia branca esquecidas, e bicharada aquática com fartura. A genuinidade da natureza encontra também paralelo na presença humana. Harmonioso no trato, colorido nos sorrisos, feliz nas vivências, o Kauai é a mais velha das ilhas do Hawaii.
A lotaria final é fácil de adivinhar, Big Island e Kauai. A primeira pela oportunidade singular de assistir ao nascimento da terra, a segunda pelo romance pintado em telas bucólicas de letargia jucunda. Pelo tamanho que implicaria uma roadtrip equivalente a percorrer meio Portugal e pelo desgosto de poder ficar de fora do parque de partos da ilha, acabei por ceder aos encantos da ilha matriarca.
Sei hoje que foi a escolha certa pois encontrei por uma semana mais uns momentos para juntar ao meu cronómetro de paraísos. Desconfio que a areia na ampulheta da vida não se duplica, nem o gargalo se estreita, mas vivo na ilusão de cada momento de paraíso conquistado ser mais um grão de areia gordo a entupir o gargalo da ampulheta interna.
3 comentários:
Continua a encantar-nos com as tuas palavras e em busca de novos paraísos. O tempo pára...
Beijos grande
Confesso que me fascina a forma como te aventuras a ir pelo mundo à descoberta de cada pedacinho maravilhoso de terra que muitos de nós se limitam a ver pelas revistas, fotografias, internet... Fantásticas fotografias e histórias que deves ter para contar de mais uma viagem que, acredito, deve ter sido inesquecível! Vi no sábado o filme "O lado selvagem" (Into the wild) e lembrei-me de ti... Porque se calhar, tal como o Cris (ou Alexander Supertramp) procuras incessantemente a essência do ser humano, a descoberta de novas paisagens, culturas e pessoas :), por oposição à hipocrisia da sociedade actual. Admiro-te por isso! Tudo de bom e continua a presentear-nos com as tuas viagens/descobertas a cada instante! beijinhos
Faço votos para k o grão seja suficientemente gordo k te permita saborear os paraísos que soubeste transformar em realidade vivida, e suficientemente elástico, para atravessar esse gargalo imaginário e permitir a vinda de novos grãos, carregados de novas vivências e descrições fantásticas, como estas k tens partilhado com este voyeur de ocasião.
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