Quarta-feira, Setembro 01, 2010

Yosemite by Winter

Afastado 250 km da costa,o parque nacional de Yosemite é uma catedral de culto à Natureza, com trancas à cobiça exploratória desde 1890, ano em que foi decretado como Parque nacional. Os púlpitos são graníticos e elevam-se a uns quantos milhares de metros de altitude. Na métrica materna seriam pés (feet), evade-se a realidade e imagino um desgraçado a escalar em direcção ao céu para mensurar na unidade real o orgulho dos reis que queriam ver a sua pegada na história. Fosse hoje e bastava irem à aldeia cigana de Hollywood, ao passeio das estrelas.

A geometria da Natureza conhece fórmulas que o Homem não domina. No centro do parque, o Half Dome, portento arquitectónico, ilumina a ceia do sol poente no vale. Estilo vanguardista, a cúpula granítica foi cortada a meio a bisel, quem sabe pelos glaciares em trânsito, exibindo em vez de janelas centrais um paredão vertical megalómano que se veste em tons dourados nos fins de tarde para se despedir do astro rei.

Época baixa e ainda a gozar das ameaças de novo nevão, o silêncio desconcertante é quebrado apenas pelos corvos e pelas orações. Não dos padres missionários, mas de outros em missão própria de conquista do limite humano. São alpinistas profissionais que vêm em peregrinação. Aninhados em casulos balouçam o sono pregados às imponentes paredes, esquecendo talvez que a gravidade de Newton é bem comum. Menos temerários os comuns turistas de postal (eu incluído) regem-se pelas trilhas rasteiras e percursos sinalizados, num vale de árvores ancestrais rodeado pelos guardiões altivos, ornados das manchas de neve invernosas. Receosos do esquecimento humano, os lagos do vale duplicam a paisagem em actuações miméticas dignas de Óscar.

Quem chega de Sudoeste entra no vale de Yosemite pelas entranhas da montanha. A luz ao fundo do túnel acende as expectativas para o cenário que se avizinha. Não é o caminho celeste mas certamente faz-nos acreditar na divindade da Natureza. Mal se acostumam à claridade solar, os olhos, meus, seus, de todos que não estejam cegos para a vida, enxergam uma das paisagens mais bonitas e (talvez por isso) mais fotografadas do mundo.

Releio o que acabo de escrever e temo a minha americanização. Best Burger in the world, Best Lewis in the world and even in America, Best fuel change in the world. Best, best, best, de tanto repetir a palavra a etimologia torna-se Parca e o que sai da minha boca são apenas sons guturais sem sentido. Será só comigo? Os limites do mundo deformado em torno de um umbigo que pouco extravasa as fronteiras do mundinho Americano ajudam na “criterização”.

Voltando à minha realidade mundana, de Mundo real, a verdade é que esta é de facto uma paisagem soberba. Esquecendo o miradouro artificial e os carros, estacionados no parapeito do vale, diria estar na meta final da epopeia dos dinossauros em busca do Vale Encantado. Os glaciares rasgaram as mesetas e levaram consigo o miolo da rocha, mas desprezaram o sémen das árvores. Exuberantes e soberbos, os gigantes verdes ocuparam o lugar central. Visto de cima é como uma metrópole altamente densificada de árvores que buscam o céu, alimentadas pelos véus de noiva que jorram em fúria dos paredões circundantes.

Em sintonia com a crise do casamento no mundo ocidental, Yosemite exibe com orgulho as suas noivas eternas. Aqui e ali, cortinas brancas irrompem do céu em saltos impensáveis para as congéneres humanas, a menos que no limite do desespero humano. As mais pequenas ficam-se pelos 100 metros, a maior arrisca a marca olímpica dos 740 metros.

Dizem que o parque exibe quatro faces, uma em cada estação, cada qual com os seus encantos. Riscado o Inverno faltam outras três. O Verão é a próxima…


2 comentários:

ZORBAS disse...

O que eu gosto mesmo é dos botões do boneco de neve... quais lagos, quais véus de noiva, quais paredes rochosas. Bom, e já nem falo do cachecol. Aquele contraste com o branco do roupão põe-me doido.

Liliana Pereira disse...

Lindo Texto!
Adorei ler! :p
Obrigado pela partilha! ;o)