Descobri há poucos anos que Hawaii e Puerto Rico pertenciam à super potência americana. O primeiro é desfraldado junto com os 49 estados nas estrelas da bandeira, o segundo mantém-se como estado livre associado. Uma espécie de sócio honorário sem estrela no pendão gozando de menos condicionalismos. Desatenção geopolítica ou ignorância de quem vive do outro lado do mundo, não me ocorreu até então essa ligação com o colosso capitalista. As vozes de Israel Kamakawiwo’ole e Vaya com Dios, em Over the rainbow e Ai ai ai ai ai ai Puerto Rico levam o meu imaginário em peregrinação para lugares e sabores longe dos princípios musculados da América.
Descontextualizado em questões de soberania territorial estou ciente da posição desses pedaços de terra solta, aclamados de paraíso por muitos excursionistas, no globo terrestre. Fora o teleporte fantasioso, sei bem que as únicas formas de lá chegar são os aviões e os cargueiros (já os Japoneses estavam cientes disso quando escolheram caças para atacar Pearl Harbour).
Desconexas do relato, as orações deste parágrafo são fruto do desfiar de memórias que surgiram na minha cabeça. Duas caras com fundo temporal distinto inquirem-me “How do you travel back to Portugal, car or bus?” Acrescentam, “Is it a long trip?” Respingo, “I ride my bike, it’s more refreshing and less polluting”. Almas ingénuas (eufemismo forçado) para quem o globo encolheu e amarrotou à volta da fronteira caseira. Apesar das recentes disputas pelo Árctico e da utopia de engenharia de ligar os dois continentes atravessando as plataformas instáveis do norte, desconhecia que tal auto-estrada já estivesse em funcionamento. Vai-se a ver e se calhar até utiliza Via Verde (com a força dos ventos árcticos, o melhor mesmo é não parar).
O panorama não é geral, e gente letrada que sabe apontar Portugal no mapa também a há. Ainda assim, a maioria dessa minoria fica com um nó na cabeça ao tentar perceber a falsa coincidência de se falar a mesma língua em lugares tão distantes como o são Portugal e Brasil. Desconhecem que é graças à nossa pequena nação que meio globo se tornou visível para a outra metade. Pormenores históricos na era da globalidade imediata. Paradoxalmente encontro essa elite no campo mais improvável. Uso a palavra campo pois é mesmo no campo, no campo de soccer. Talvez pela conotação com a feminilidade do soccer, quando comparado com a bestialidade do football, o soccer é praticado principalmente por mexicanos, estrangeiros amantes do desporto rei e por americanos ligados às classes instruídas das universidades.
Antagonismo assinalável, se comparado com o carácter popular do futebol em Portugal. À conversa com Phil fico com o ego mimado. Conhece as rotas aéreas, sabe do passado histórico dos navegadores portugueses e sabe inclusivamente que apesar de já termos sido condado espanhol somos há muito nação independente. O pano cai cedo e logo se entende tanta sabedoria e curiosidade. Phil pertence à casta selecta de novos navegadores do mundo, aqueles que se perdem fora de portas nas culturas que não são o seu berço. São um grupo selecto com uma amplitude de pensamento europeu, conservando o pragmatismo americano. Envolvidos no dia-a-dia pelo American Way of Life procuram nestes contactos com ETs estrangeiros abrir a janela para lufadas de ar fresco e também perceber a imagem que passa para fora dos EUA.
Apesar das origens náuticas vou para o Hawaii de avião. A invasão armada do final do século XIX, deu-me a liberdade de viajar até à última estrela da bandeira Norte-Americana. Estivessem ainda no trono os descendentes de Lili‘uokalani, última monarca do Hawaii pré-burger, e as minhas restrições alfandegárias impedir-me-iam de me deslumbrar naquelas paisagens soberbas.
2 comentários:
Isto é qualquer coisa de extraordinário. A doçura da voz é inversamente proporcional à aparência deste, diria, "tocador de sumo" em ritmo de balada. Como é k aqueles "dedinhos" conseguem tocar uma corda de cada vez...
É uma reflexão que deixo pq esta é demasiado pesada para mim!...
Following your advice on the soundtrack... lovely=)) beijos pros dois
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