A música pode ser universal mas o comportamento humano nos espectáculos de difusão dessa universalidade não.
Noite amena de verão, sob céu estrelado, vejo a lua cheia a despontar no horizonte. A medo, salta para fora do mar, entreolha-me por detrás de uma árvore, até aparecer nua a meia haste. Habituadas a estar no foco do estrelato e perante a ameaça de perda de notoriedade, as estrelas vão apagando as luzes submissas ao astro da noite. Santa Barbara Bowl é a última montra musical da minha lista must go in Santa Barbara. Inculcado num vale apertado das montanhas que cercam o downtown, o Bowl parece um anfiteatro cénico grego, espelho da meia-lua das noites crescentes. Alheia ao palco da natureza, Norah Jones impregna a noite de acordes doces, completando o cenário encantado. Santa Barbara é uma cidade pequena mas com montra cultural de metrópole. Em digressão entre São Francisco e Los Angeles todas as grandes estrelas fazem o desvio.

As origens Texanas não fizeram mossa e apesar de se mostrar a princípio transfigurada no estilo do último CD, a cantora entrega-se finalmente ao público. A criança tímida esvaece-se e raia uma artista internacional. Ritmos variados remetendo para o rústico country, a alma do soul num fundo de jazz e o imaginário de infância em músicas ao estilo Jardim da Celeste, a Norita encheu a noite de fantasias americanas com glamour.
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Tanta fantasia instiga ao sonho, e o sonho está invariavelmente ligado ao cochilo. 10 da noite é altura do retiro. Assim o ditam as leis do ruído e o relógio biológico dos autómatos. Talvez por isso perto das 10 as bancadas do anfiteatro metamorfoseiam-se em carreiros de formigas. A princípio tímidos, os carreiros vão engrossando. Sentado nos últimos degraus do anfiteatro assisto incrédulo à falta de respeito pela artista. À cabeça vêm-me os adeptos do Benfica a abandonar os Estádios neste início de temporada. Neste caso, porém, sem motivo, pois não só o concerto estava a ser uma delícia como muitas das formigas agora de pé e encarreiradas haviam minutos antes estado de pé a bater palmas e a cantar (essas mudanças de humor também ocorrem nos jogos). Nesta terra os excessos vivenciais são menus regrados. Esquecida fica a falta de limites que a semântica da palavra acarreta. Os excessos mais não são do que desvios padrões devidamente contextualizados (podiam adoptar essa postura também nas intervenções armadas).

A cigarra em cima de palco, absorta das formigas, continua o espectáculo. A plateia cada vez mais reduzida vai-se aglomerando, encurtando a distância para a origem dos acordes. Então, eis que, saído da penumbra do palco à procura de protagonismo não devido, um assistente de palco prostra-se à frente da Norah. Aponta para o relógio e ergue dois dedos no ar. O sinal universal foi traduzido pela artista. “They are sending me away. The two minutes have expired. To continue we will have to pay!”

Em palco assistente e artista disputam o microfone como se de um rebuçado no jardim-escola se tratasse. Ganha a cantora e ganhamos nós. Os músicos entreolham-se, encolhem os ombros e soltam risos genuínos. Ouvidos moucos para as directrizes, os músicos cerram fileiras numa amálgama de corpos e instrumentos e tocam mais duas músicas. Despido da pirotecnia luminosa o palco assemelha-se agora a um beco sombrio onde meia dúzia de delinquentes musicais se juntara. Pena não haver por aqui mais becos atulhados de espontaneidade…
2 comentários:
Bem aventurados os europeus nados e criados neste jardim à beira mar plantado. Não tiveram de pagar bilhete para assistir ao espectáculo da Norah Jones mas tiveram direito a uma reportagem de luxo. Já agora qual é o próximo? Quero reservar cadeira em frente ao computador. Ah Ah
O próximo é a Sheryl Crow ensemble com a Brandi Carlile, ao vivo no The Joint Hard Rock Las Vegas
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