As viagens de sorriso rasgado não se repetem, refazem-se com outros rostos, outros ambientes, outros estados de espírito, para voltar a sorrir dessa feita com as novas circunstâncias. Procurar a felicidade passada alavancado apenas pelas lembranças nostálgicas é senda certa de decepção. Já as viagens pungentes, ou se esquecem e nesse caso não são sequer lembranças mas apenas buracos temporais, ou são lembranças vincadas, formas dilacerantes, autênticos monstros do armário, que só desaparecem depois de iluminado o quarto e vistos de novo à luz da clareza obnubilada em luas passadas. Sozinho, se o drama foi viúvo, lado a lado se o martírio foi prego que rasgou mais do que uma pele, ou sozinho e depois lado a lado se o drama viúvo açulou o martírio conjunto, assim deve ser refeita a viagem pungente, sem bengalas castradoras do ego já de si ferido.
Nó na garganta, aperto no estômago, frio na espinha, todas aquelas imagens de pânico interno, ainda que contidas do olhar público, seriam descrição fidedigna do regresso a Santa Barbara, cidade soalheira e boa onda, mas cárcere de papões passados. Com alguns amigos já feitos, leito numa casa que conhece o meu odor e intermitências de mimo terminadas, o sol de inverno brilhou na rua e extravasou animicamente para a alegria do ser. Dizem que o optimismo atrai a bonança, mas desconhecia a força desta entidade nem sempre omnipresente. A verdade é que trouxe até amigos improváveis da terra do samba para o cenário holliodesco da Califórnia. Afoito o drama pessoal, faltava esconjurar o martírio conjunto.
Malas no porão e despedidas adiadas para o reencontro no regresso, embarquei na caravela aérea com rumo aos Estados Unidos pela segunda vez num espaço de sete meses. Ao meu lado, olhar cansado do ano lectivo que findava e ansioso pelo New World, para ela ainda no real sentido do adjectivo, Alice encostou a cabeça no meu ombro e acariciou-me a mão. Na bagagem um monte de dúvidas e o desejo de viver histórias partilhadas em sussurros telefónicos, mensagens de acordar e fotografias distantes.
Apesar da dimensão dos sonhos e dos apetrechos das histórias valeu-nos a brilhante mente humana para acomodar aquilo que as companhias aéreas não deixam transportar. Uma só mala por passageiro! Engordam os passageiros (americanos e não só) têm as transportadoras de cortar na bagagem…
“O mais difícil está feito”, pensei num laivo de ingenuidade precipitada. À chegada a Filadélfia a constatação da precipitação do raciocínio. Apesar de ter eliminado as pilosidades arabescas faciais, a minha tez trigueira, de latino confesso, empurrou-me para a secção criminal da alfândega. O sentimento inicial de se tratar de procedimento rotineiro, que por arbítrios alheios me tocam sempre, cedo se dissipou. “Conte-me a sua vida” pode ser pergunta de circunstância em muitas conversas, mas não quando se está diante da autoridade alfandegária do país mais democrático e justo do mundo. Uma hora de questionário e revista dos pertences. Cuecas (bem bonitas por sinal), peúgas, calças, t-shirts tudo foi examinado em pormenor. Seguiu-se a literatura de viagem (felizmente não escolhi nenhuma autobiografia de vítimas de apedrejamento na Nigéria ou um foto-livro das maravilhas naturais do Médio Oriente), depois os aparelhos electrónicos, e com eles os emails e documentos guardados no disco. Mais difícil foi explicar a alguém já de si embrutecido pelo nascimento em lugar que não escolheu, cego pela hegemonia patriótica e desconfiado pelo clima de suspeição e terror temerário ampliado nas rotinas diárias de um país que a cada dia se torna mais paranóico, o porquê de viajar com folhas de papel repletas de fórmulas matemáticas. Rabiscos endiabrados, sem forma de letra e potencialmente portadores de inteligência suficiente para pôr em causa o erário público.
Para completar o cenário de filme americano falta a mudança para uma sala mais cozy e isolada. Os pupilos do Tio Sam não me desiludiram; ao fim de uma hora fui pedido gentilmente que me deslocasse para uma sala anexa. Talvez fosse a rush-hour de chegada de criminosos e o meu primeiro espaço fosse requerido para outras triagens.Com as horas contadas para o segundo avião do meu itinerário de viagem para santa Barbara, pensava já não no meu destino de eleição, mas em como ia regressar à pátria mãe. Num acesso de compaixão tocante o meu polícia tranquilizou-me. “Não se preocupe, se perder o seu avião nós metemo-lo no próximo, qualquer que seja o “destino destinado”. Duas ou três idas à sala contígua para me observarem do espelho falso (ainda bem que vejo a série policial da Daniela Ruah, pelo menos não me comem por parvo), conversas com o superintendente (desconheço a patente das hierarquias alfandegárias) e o jovem polícia lá se apresentou de novo. Com um sorriso enigmático nos lábios que não deixava antever se de sarcasmo ou beneficência se tratava, tocou-me no ombro e disse: “You’re lucky. God is shinning on you today. I’ll let you go but it’s the last time…”.
Bem dizem que Deus a todos toca. Não sei qual deles me valeu e na altura não me pareceu apropriado perguntar depois de ter dito que Portugal era um país católico, mas agradeço à Ordem das Divindades em nome de todos eles.
Entro no país das oportunidades ainda mais sedento de viver os sonhos e histórias da minha bagagem pessoal pelo facto de saber que esta pode bem ser a última vez que cruzo a fronteira…
6 comentários:
Olá Bom dia! =)
Fico feliz por ver que voltámos às rotinas de escrever, bom sinal, imagino eu =)
Algumas fotos foram censuradas ou é o meu pc que é trengo e não dá para as ver?!
E mesmo com uma quase deportação soube muito bem essa tua descrição...um mundo tão grande teu e da Alice que não conheço.
Parabéns,escrita sublime
Maria de buenos aires
Esse país está cada vez pior.
Saúdo o regresso à escrita de viagens. Isso sim, é k era crime não partilhares, e verifico que estamos em grande estilo. Parabéns aos américas pelos efeitos colaterais.
Quanto aos temores e aos fantasmas dir-te-ei que as viagens se repetem e os lugares também mas o que os distingue é o momento. É o momento em que acontecem que os torna únicos. Portanto bons e novos momentos nessa "derradeira (?)" estadia nas terras do Tio Sam (k família...).
Atenção... os fãs exigem aplicação no blogoesfera...
Pois é... Uns fazem e outros sofrem. Quem manda teres essa cara de "terrorista"? :)
Gostei de te "ver" de volta à escrita mesmo que com um apisódio bizarro com este.
Bjinho
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