Título pomposo de etiquetas estampado parece remeter para mais um desabafo das contendas diárias de um europeu em terras americanas. Assim não é, e se induzo na falácia é apenas por saber que a génese da nossa história foi possível apenas e só por vivermos numa sociedade que preserva certos rituais sociais sem símile deste lado do mundo. Use saia ou calça, ou ambos, que nesta confusão de modas e tendências vê-se de tudo, um aperto de mão a distância salubre sela a apresentação ou a despedida. Para não ser tão seco acrescenta-se um Nice to meet you, ao qual o interlocutor ignorante do outro ser, replica. Em vernáculo português dir-se-ia o mesmo, mas pelo menos cientes do deleite (ou desprazer) do toque dos lábios no rosto ou do abraço breve de intimidade, por vezes denunciadores de magnetismos ocultos. A penúria de intimismo na mesura é revelador da indigência da entrega da alma nas relações quotidianas. E pensar que foi assim que começou…

Há três anos atrás, mais mês e troca o passo, imbuídos dessa jovialidade universitária, marca de insensatez e abastança vivencial, deambulo pela pista de dança do Baile de Gala da Queima à hora dos boléus. A etiqueta esvanece-se depois do flash de recepção e àquela hora o bailar é antes um menear de corpos sacudidos pelos aditivos etílicos. Deslembro o número de danças, mas tatuei na memória com trincha de pintor impressionista as formas contidas do vestido prata, o sorriso puro de menina e os dois beijos de despedida, um dos quais roubado de soslaio no canto da boca. Despeço-me, mas estava estranhamente em casa, sei-o hoje.

Reporto-me ao presente de um passado mais recente e vejo-me em cima do palco, cabeça à roda das piruetas acrobáticas e de um ou dois copos de aquecimento. A plateia, estranhamente repleta de caras conhecidas sorri com cumplicidade para o momento que se apropinqua e do qual estou a leste. Toca A Meia-Noite Ao Luar e quem brilha em cima de palco é uma Menina e não a lua (algo pouco normal numa formação masculina). Cartola amarela a esconder a falta de à vontade na exposição pública, cartaz amarelo na mão com uma mão cheia de sonhos, e aquele sorriso cândido de felicidade pressentida. “Um dia peço-te em casamento. Hoje é o dia!” Coração em taquicardia, cabeça à roda desta feita pela velocidade de ideias que me trespassam, releio o cartaz ainda incrédulo quanto à seriedade do pedido. A pergunta sussurrada exauriu as dúvidas e SIM era a resposta adivinhada e desde há muito revalidada todos os dias.
Perante a estupefacção estampada nos rostos anónimos apercebo-me do quão vivo estão ainda as convenções sociais nos deveres homem/mulher. Ultrapassado nos meus deveres, ganhei a originalidade da dádiva e a intensidade da surpresa de todo pressentida. Esplanada natural e remota com vista para a Lagoa do Fogo, ao despontar do dia no cimo da Montanha do Pico com os primeiros raios a iluminarem os olhos esverdeados ou numa ilha da barragem da Aguieira, abandonada de seres mas povoada de memórias de outros tempos, eram esses os locais ambicionados para o Pedido, ansiado há algum tempo. De parte, um concerto da Estudantina, pela exposição excessiva, nem sempre desejável, e por ser escolha óbvia. Invertidas as convenções, o óbvio torna-se impensável. O mesmo local encerra com genial criatividade a origem e fim do esquisso do círculo de uma fase.

Vozes reaccionárias de mentes um pouco mais obtusas inquirem o papel da saia e da calça num acordo nupcial desde início deformado. Fico expugnado do epíteto másculo até resolver o problema de um outro círculo. Mais pequeno, dourado ou argênteo, com mais ou menos brilhantes, mas carregado do peso solene do simbolismo. Calcorreei Coimbra à procura do dito cujo. No bolso, polegar e indicador encerravam o círculo dimensional moldado manhã cedo ainda a Princesa dormia. Foi esforço gorado. Frustrado, não pelo receio de perder o posto mas pela incompetência de não corresponder à criatividade feminina, vejo então a solução numa foto de revista. Desconvencionada que estava a convenção desde inicio porque não dar asas à imaginação e liberdade à criatividade no cumprimento das tradições? Anel imperfeito, de circunferência ferida pelas agruras do tempo, foi recuperado do fundo do oceano até emergir à tona. Grande, mas não o maior, encerra amores cinematográficos e outros reais.

Tal como a Alice de Tim Burton também a minha (minha pelo sentimento não pela possessão) é alegremente estouvada e com ânsias de viver. Anéis há muito e certamente o maior e mais caro encontrará outro rival que o suplantará, mas recordações e vivências temos apenas as nossas e por mais que sejam semelhantes são incomparáveis. Não fica para a posteridade um pedaço de metal guardado no fundo da gaveta, ficam nove dias de lua-de-mel antecipada vividos na filha mais velha da descendência insular do Hawaii. Kauai de nome, ilha jardim de alcunha, círculo de união e deslumbramento de vivência.

Uma mistura de Cinderela moderna em que a meia-noite são 5 da manhã e o sapato a memória de um beijo indecente, com partidas e regressos do mundo novo da Pocahontas e a fecundidade fantasiosa de Alice no País das Maravilhas, assim tem sido esta história.
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Nota: Uma palavra de agradecimento aos meus amigos da Estudantina, pelo conluio, amizade e pelo momento único (qualquer palavra sabe a pouco para o descrever) que me proporcionaram…
6 comentários:
Qual tradicionalismo qual quê? O Amor é que interessa e a surpresa (se boa) é das melhores sensações que se pode ter.
Parabéns (pelo evento que aí vem e pelo grande sentimento que partilham).
Aiiiiiiiii que toda eu sou lágrimas... vocês são simplesmente lindos!!!
Foi sem dúvida o "presente" de noivado mais original alguma vez visto! Somos muito informais, mas no entanto guardamos nas nossas ambições mais íntimas o sonho comum de partilhar um dos mais antigos rituais de união. Uma coisa é certa, as memórias ficarão para sempre e os nossos netos hão-de achar um piadão a esta história "alegremente estouvada" e feliz...
Obrigada pela prenda de cada dia*
ai...que noite tão especial...até suspiro ao (re)ver este momento! :) Beijinhos ao pintainho e à sua alicinha :)
Que liiiindooooo!!!!!!!!!!! Lindo texto, lindo cartaz! Parabéns aos pombinhos!! Definitivamente eu tenho que ir a Portugal visitá-los!! :)
Lindo!!!
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