Prostrado de cócoras, olho em volta na tentativa vã de distracção do momento de inutilidade. A língua é outra mas as palavras repetem-se. Ofensas às minorias (cada vez mais maioritárias), propaganda telefónica enganosa, promessas de amor em local impróprio e agendamento de duelos. No chão a imundice, agora em sentido estrito, repete-se, com letras feitas em farrapos de papel. Negligentes, apressados, desatentos, porcos, os motivos podem ser vários, mas revelam, todos eles, falta de civismo, afinal uma característica não exclusiva portuguesa.
Prostrado de cócoras, a dor na barriga agudiza-se agora como que a preparar-se para o clímax final. Querela o corpo, justifica-se o Consciente impotente pela falta de alternativas. Quando a lei marcial de retirada de doces e produtos tóxicos das boas condutas alimentares foi imposta nas escolas portuguesas levantou-se um clamor de queixume das pobres crianças encurtadas de liberdades, habituadas que estavam às bolas Berlim, aos pacotes matutano e ao pão salgado matutino.
Remiro mentalmente as minhas opções no campus universitário e sinto inveja da ditadura nutricional portuguesa. Woodstock Pizza, Sam Burguers, Panda China, Bratz Hot-dog, Garden Salad (cujo nome saudável esbate-se nos molhos químicos adicionados), as alternativas são imensas mas todas no segmento cimeiro da pirâmide alimentar, aquele em que o corpo pode pecar mas só fortuitamente (na Europa claro está).
Termina por fim o suplício doloroso de expurgação dos pecados digeridos. Os olhos ainda carregados da dor recente são contrariados pelo desejo espontâneo de gargalhar. Na parede, junto da fresta de luz que invade o meu cubículo (aqui, todos os wc’s deixam aberta para o exterior uma fresta de voyerismo, canal de horrores - só pode - para os mais sádicos; nem no Big Brother o wc era violado) uma folha de papel adverte para os cuidados da reciclagem. “Please use both sides of the paper…”
A gargalhada dura até a incredulidade entrar em cena, o que acontece logo que me apercebo que não é brincadeira.Tardou mas chegou em força. A sustentabilidade do planeta, posta em causa pela sociedade moderna, está pelo menos assegurada nos desperdícios das casas de banho. Neste caso porém recuso a minha consciência verde e adopto a postura sensata. Um lado bem aproveitado, dobrado várias vezes e minuciosamente manuseado, mas há mínimos. Se cagar as mãos vou ter de limpar a maçaneta da porta e aí ou o desperdício vai ser maior ou os impropérios do próximo utente vão-se fazer ouvir…
Saio de mansinho e giro a torneira para limpar as impurezas acumuladas e a vergonha da minha conduta pouco ambiental. Falta de hábito e de saber estar social, queimo as mãos na água quente que jorra da torneira de imediato. Já não fico confuso, tenho a certeza de ter usado a torneira fria, mas o cliente que me antecedeu não. Seja neste clima frio da Califórnia ou nos dias gélidos do deserto americano em pleno mês de Verão, usar água fria é para os pobres. Uma espécie de estigma social inculcado nos hábitos diários. Limpo as mãos às calças para compensar a minha pegada diária de papel.
Desiludido por violar convenções de sustentabilidade e os preceitos sociais, decido ir para casa. A caminho do autocarro uma senhora oferece-me boleia. Aceito e tento desviar o olhar dos peitos que o médico inchou e que despudoradamente espreitam para fora do top de lantejoulas e flores havaianas. Loura de verdade, morena de solário, perna rija de academia, quarentona de nascimento, uma verdadeira “Cougar” californiana. A separar-nos na cabine do carro uma dúzia de copos descartáveis das idas do dia ao StarBucks, e uma embalagem inutilizada de poliestiteno com restos da salada do almoço. O ar condicionado no máximo sente-se apenas no cabelo da jeitosa que, ainda parados, já esvoaçam. A bem dizer da verdade o condicionado será termo pouco correcto neste caso e apenas aceitável como designação do aparelho, já que a capota aberta do Ford Mustang "descondiciona" os condicionalismos do ar-condicionado.
Os 315 cavalos mostram a sua força a cada semáforo. Uma arrancada violenta deixa para trás os demais veículos mais humildes em potência (pelo menos até ao semáforo seguinte, local onde até os ciclistas que nos acompanhavam se voltam a reunir). Chegados a casa, desiludo a pobre senhora ao recusar gentilmente o convite para jantar. Fecho a porta de casa e corro para o quarto, para a minha cama, para o meu leito de penitência. Adormeço triste e frustrado pelo meu comportamento inconsciente de apoiante do aquecimento global. Bastava ter usado as duas faces do papel para ser um Captain World…
Nota aos leitores: os factos relatados correspondem a acontecimentos reais e ocorridos ao longo de dois ou três dias, que juntei nesta história crível. A Cougar é real mas ao seu lado não estava ninguém sentado (era ainda hora de almoço e apesar dos copos já lá estarem o jovem seduzido ainda não tinha sido encontrado).
6 comentários:
M E D O !
muito bom...:)) It's USA my dear friend... só aí mesmo...
Muito Bom!!! Imagino que a cougar dos 315 cvs, que deve gastar 50 l/100km deve desmultiplicar o papel higienico de sua casa. Made in USA
P.S: Era Cougar ou Milf. É que eu tive uma experiencia com GILFs LOLOL
São uns bacanos estes amarcanos. Limpam o tutu aos dois lados da folhinha de papel, mas a seguir vão a correr lavar as maozinhas com água quente em pleno Verão!
Eu nem queria acreditar quando vi a fulana parar o seu descapotável à beira da esplanada, mas os cabelos continuaram a esvoaçar loucamente ao sabor da brisa do ar condicionado!
E os touros que compram ferraris pretos para andar por aqui a cumprir limites de 25milhas/h??
Welcome to the US...
Palavras para quê? :S São os "artistas" americanos!
Já encontrei o jovem seduzido... ;)
Não se preocupem que não fui eu, mas posso adiantar que teve direito a jantar de sushi e tudo!
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