Terça-feira, Junho 03, 2008

Parque temático

Apesar de pequena, Lanzarote é, a par com Tenerife, a ilha mais turística das Canárias. Tenerife atrai o turismo de massas disposto como sardinhas de papo para o ar nos areais do sul enquanto Lanzarote atrai os amantes dos fenómenos vulcânicos e aqueles que desesperadamente procuram ainda um autógrafo para o ensaio sobre a cegueira.

Seja de ferry, a bordo de aviões ou pé molhado nas canoas de imigrantes ilegais vindas de África, as passagens de transporte são bilhetes de lotaria para um parque temático onde proliferam as imagens dos livros de Geologia e de CTV. Cada recanto da ilha é um subcapítulo de amostra de fenómenos directos e indirectos da sequência de erupções que moldaram a ilha. A génese pertence à mãe da natureza, mas a preservação foi deixada a cargo humano. A ciência não é puramente académica e neste caso paga-se bem. A carteira ligeira fica ainda assim reconfortada pela tonelada de imagens que os sentidos do corpo absorvem. A paisagem de contrastes entre o escuro das terras vulcânicas, o céu azul da primavera antecipada e de quando em vez o verde de plantas em celebração da vida deliciam-me enquanto atravesso o interior de Lanzarote.
Aos olhos salta a memória das pistas de carrinhos que em garoto construí nos canteiros que rodeavam o meu prédio. A demarcação da pista era feita com pedrinhas que cuidadosamente pousava na poeira enquanto delineava as viagens dos meus pilotos imaginários. Nessa altura os carros eram miniaturas e o condutor o dedo mindinho. Hoje dentro do bolinhas azul olho a estrada e apercebo-me que até nas estradas há quem leve a sério as experiências de criança. Seja nas cidades ou no interior, as estradas de Lanzarote são como carreiros demarcados por montinhos de pedra colocados ao longo das bermas.
À disposição dos coleccionadores de imagens uma panóplia de paisagens. Lagoas esverdeadas por minerais vegetarianos, canais de grutas subterrâneas estendidas por dezenas de quilómetros, populações endémicas de caranguejos cegos, praias arejadas envolvidas por paredões feitos de crateras, fervedores naturais de rocha negra e como jóia da coroa o Parque Timanfaya. Espaço inerte, ocupado por vales de cinzas e piroclastos vários, crateras e formações caprichosas do processo vulcânico, o Parque Timanfaya ocupa uma extensão enorme na zona sudoeste da ilha e visto de relance assemelha-se a um espelho da superfície lunar. A bordo de um autopullman (única forma de visitar o parque) sinto-me por momentos como um viajante no tempo. Do outro lado da janela a vida, ou neste caso inexistência dela desenvolve-se em analepse como se fez um dia em todas as partes do mundo. Foi uma das paisagens mais fantásticas que já vi.

2 comentários:

mf disse...

Q inveja! Espero um dia poder ir até estas paisagens tão maravilhosas que me aguçaram o apetite.
Bjs

Luiz Roberto Lins Almeida disse...

inveja, inveja, inveja!
excelentes fotos