Quarta-feira, Junho 04, 2008

La Graciosa

Afastado dos locais de ancoragem de quem chega do outro mundo, o topo norte da ilha de Lanzarote esconde uma paisagem montanhosa com divisões de terra cultivadas lembrando os socalcos do Douro. Para trás fica o solo lunar cheio de crateras. Termina assim a sequência de fotos a preto e branco iluminadas pelo azul celeste. Aqui o cenário é verde e cheio de vida vegetal. Aqui e acolá solares de antigamente preservam as suas terras do alto das colinas. As estradas ligeiramente negligenciadas são rabiscos de criança com mão trémula e indecisa quanto ao destino final. Fim de dia anunciado pelo sol em rota de colisão com o mar, foi em marcha de rali que percorremos os desenhos da criança. Como destino o porto de Orzola para embarcar rumo a La Graciosa. Ao meu lado a co-piloto suspirava com o enjoo das curvas enquanto soltava alguns lamentos resignados por perdermos a ida à ilha. “Enquanto há vida há esperança e usualmente as coincidências jogam a meu favor…”
Quinze minutos depois da hora de embarque prevista chegámos ao porto e para meu espanto lá se encontrava ainda o barco. Atrasos anormais retiveram a tripulação em terra mais tempo do que o devido. Fazendo uso da simpatia portuguesa com sotaque espanhol para adocicar ouvidos a Alicinha conseguiu atrasar mais uns minutos a partida. Estafados e com metade da trouxa a cair dos alforges embarcámos rumo à ilha dos amores, segundo consta. Vista de Lanzarote a Graciosa assemelha-se um pedaço de terra esquecida no meio de um charco de tonalidades que oscilam entre o azul-escuro e o azul celeste. Do barco Lanzarote tenta ofuscar a beleza do pequeno pedaço de terra mostrando as costas de umas falésias verdes que impõem respeito. Balouçando no pequeno ferry, o sol ao fundo a esconder-se atrás de um vulcão soberano, sinto-me a navegar numa casca de nós sobre olhar atento de uns Adamastores amansados. Soberbo… Chegados à Graciosa a vida abranda o passo tomando pulso a pacatez e inércia. Para nos receber um porto pitoresco que serve de abrigo à totalidade da população da ilhota. 630 almas!
Se a chegada ao ferry foi um sucesso não previsto, as visitas na ilha estavam fadadas ao insucesso. Com o sol a despedir-se, as lojas de aluguer de bicicletas tinham fechado portas e a aldeia parecia entrar em período de hibernação. Um quilómetro de caminhada rumo à terra de ninguém por entre dunas cimeiras ao mar azulão levou-nos até o nada. Mas um nada de beleza fantástica. No horizonte nem pessoas, nem casa, nem nada. Praia deserta, um vulcão adormecido e Lanzarote na outra margem. Foi neste ambiente bucólico que montámos tenda com vista privilegiada para o mar e o céu de estrelas que se anunciava. Para a noite uma caça aos gambozinos. Às apalpadelas e guiados por uma luz ténue lá longe caminhámos de olhos vendados pela escuridão até à povoação somente para jantar sentados no cais à luz da vela de candeeiro. Um manjar de sandochas mas com vista paisagista e de companhia de luxo.
O pior estava guardado para o regresso. Na mochila de viagem nem lanternas nem mapas estelares. Guiámo-nos pelas pegadas da memória para encontrar a tenda lá longe perdida no meio das dunas onde o mundo parou. A visita à ilha ficou guardada para a manhã seguinte. Porém, o tempo não pára para quem não pertence a este mundo. Foi em passo de corrida, dentro de um jipe a cair aos bocados, que visitámos as atracções ilha. A volta foi de médico (ou não fosse a Alice uma futura médica…) mas pelo menos chegámos a tempo de regressar no ferry para Lanzarote. Apesar de extenuante esta pequena incursão valeu pelo apaziguamento e pela fotografia daquele canal de mar ladeado pelas falésias de cinema de Lanzarote e pelas praias desertas da Graciosa. Há quem faça mais quilómetros para dormir com menos estrelas…

2 comentários:

pedro paixao disse...

ciao moleque

gostei muito das fotos, mas mais da tua namorada, confesso!lol já vi que te divertiste por terras canárias.tudo de bom! és o orgulho dos jacarés.

jacaré moretti

Pedro Trincão disse...

Então e coisas novas. Venho cá pelo menos uma vez por mês! Tens que voltar para o brasil, está visto. Lá é que era produção literária. Boas Festas.