Alguns milhares de metros acima do comum dos mortais e com a cabeça atulhada de vozes íntimas com conselhos díspares, dei comigo a sofrer de alucinações. Ao olhar pela janela (sim a janela do avião) tive um déjà vu. Quase podia apostar que uns minutos atrás tinha passado naquele mesmo local. A insanidade costuma ter causas mais fortes e o jet lag de uma hora não seria suficiente para justificar tamanha paranóia. Mais uns minutos e nova passagem. Debaixo dos meus pés, até onde a vista conseguia alcançar, um amontoado de luzes dispostas numa forma peculiar parecia não querer desgrudar do avião. O avião andava às voltas. Círculos cegos em torno de um epicentro de luz difusa na superfície do planeta. Ao meu lado a grande maioria dos passageiros alheios ao sucedido regurgitavam-se numa sesta ligeira. No entanto, a voz do altifalante atingiu todos por igual. Uma nuvem irrequieta teimava em ver o amanhecer nos céus de Girona. Nada a fazer, o avião teria de ser desviado. Estavam inocentes desta vez os terroristas já que o 11 de Setembro ainda estava longe e por hora não se afiguravam mais poços de petróleo para monitorizar. Sem voto na matéria a escolha foi o aeroporto de Valência. Pelo ar um saltinho mas por terra 5 horas de distância. Postas de parte as 4 horas que dispusera para estender o saco de cama no aeroporto de Girona, começou então a tornar-se mais certa a hipótese de perder o avião do dia seguinte para Fuerteventura. Um dia perdido em viagens e expectativas de um desejado reencontro aparentemente arruinadas. Este era o cenário quando nova voz num espanhol de cão indicou que o avião ia dar mais meia volta e aterrar no aeroporto de Réus. Menos mal, afinal de contas fica apenas a 2 horas e meia de Girona. Uma pergunta ecoou-me então, “Réus tem aeroporto?”.
O nevoeiro era tal que só ao sentir as rodas roçarem o solo me apercebi da existência de um aeroporto. No chão mais 8 aviões de portes diversos enchiam o pequeno aeroporto aparentemente ainda em obras. Sem chá nem bolinhos, o comité de boas vindas tinha apenas como oferta de consolo uma notícia ainda mais desagradável. O microclima daquela noite tinha obrigado ao desvio de cerca de uma dúzia de aviões. Sem logística assegurada para breve os passageiros lutavam agora por um lugar num dos autocarros que iria fazer a trasfega da carne humana até Girona. Correrias, empurrões, encontrões e trocas de impressões em alta voz, a confusão era tal que por momentos julguei-me no meio da feira do Norton de Matos em plena Espanha. Habituado a multidões senti-me nas minhas sete quintas e foi com relativa facilidade e sem perder pele pelo caminho que surripiei um lugar no autocarro.
Descansado e a caminho de Girona foi então que fui informado que as confusões estavam agora ainda no inicio. De espírito rebelde como uma ovelha negra, o meu autocarro tinha-se perdido do rebanho e estava agora em parte incerta. Como anjo salvador uma trabalhadora da noite que entre uma e outra proposta indecorosa indicou ao motorista o caminho para o abençoado aeroporto de Girona. À chegada a única notícia boa da noite. Em 15 voos marcados para descolarem apenas dois não haviam sido cancelados. Um deles era o meu…As dificuldades não arrefeceram palpitações e derrubadas as barreiras de hesitação estava por fim no País das Maravilhas...
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