Sexta-feira, Maio 30, 2008

Viagens

Blog de viagens, aventuras em viagens, sensações e experiências em viagens. O denominador é comum, “viagens” e foi sempre esse o teor dos textos que publiquei, das fotos que partilhei. Como portfólio não figuram os carimbos dos locais. Não me basta dizer, talvez em versão histórica do anúncio ao Rock in Rio, “Eu fui”. Fosse esse o caso e adoptava antes o “Eu não vou” das gasolineiras. Figuram sim as fabulosas lembranças dos momentos passados em cada um desses passeios, as experiências partilhadas com os rostos que me acompanharam ou que se cruzaram comigo a dado momento. Não são parte física integrante dos locais, mas são a essência sensitiva dos caminhos que calquei.
A separação dos facto reais e dos factos imaginários é feita por uma linha ténue e de fácil transposição. A dado momento revejo-me perante a impossibilidade de conseguir destrinçar o que foi real do que foi pensado e mais tarde arrebatado como experiência real. As imagens nostálgicas de ontem misturam-se na tômbola da criatividade com sensações e emoções por vezes inconscientes, muitas das quais guardadas para a posteridade como factos. Na fotografia não figura esta pessoa, este objecto ou este acontecimento mas inconscientemente podia jurar que aquela pessoa, aquele objecto ou este acontecimento estavam na fotografia original. É um paradoxo sensorial mas que leva a uma questão, o que são de facto as nossas viagens? Bilhetes de avião e comboio, marcações em hotéis, tickets de entrada em museus e assinaturas de presença ou as divagações sensoriais que guardamos dos momentos que vivemos? Mais ainda, será mesmo necessário sair para viajar? Obviamente que tem potencialidades para ser mais saboroso, ainda assim não é garante suficiente.

Acordei hoje com os olhos inchados de imagens de sonhos por onde divaguei noite dentro sem nunca sair do meu quarto. Dado o meu passado de viagens parece um pouco absurdo mas a verdade é que hoje apetece-me de novo viajar. Olhos fechados ou abertos não importa muito porque a verdade é que hoje acordei longe, ainda que o espaço físico que me cerca me queira persuadir do contrário.

Manhã cedo com o sol a raiar nos vidros foscos da janela levantei-me de mansinho. Pelo chão a roupa largada ao abandono de quem por impulso frenético se livrou de todos os embaraços têxteis. Cerro os olhos e sou corroído por uma onda de saudade. Na agenda uma visita ao mercado e um passeio pela marina. Cidade pequena de casas baixas e ruas largas, emana áurea de cidadela de província no centro do mundo. Palmeiras imperiais e árvores frondosas de verde intenso e ornadas de flores violetas dão um colorido alegre ao Downtown. O calor tímido da manhã faz esquecer por momentos que estou na Califórnia. “Temos um microclima” dizem eles em tom de jocoso. Todos os dias é assim, mal a noite usurpa lugar ao astro sol, trata de invadir a atmosfera com gases frios e húmidos do mar. O mar sereno pacifica as marés vivas televisivas e as focas e leões-marinhos protagonizam as Pamelas de Santa Mónica.

No shuttle do Downtown uma miscelânea de línguas do mundo. Inglês, espanhol e asiático (perdoem-me a generalização mas a origem específica dos olhos em bico é chinês para mim) atropelam-se entre os solavancos do eléctrico fazendo-me por vezes questionar se estarei de facto nos Estados Unidos da América. Uma rua fechada ao trânsito está hoje em rebuliço como esteve outrora o Norton de Matos quando o Samambaia assistia de camarote à feira de rua. É o mercado dos produtores. Laranja, bananas, avocados, cerejas e verduras, a variedade é semelhante à encontrada do outro lado do oceano. O aroma de rosas obressai no ar impelindo-me até à banca da florista. Senhora simpática dos seus 50 anos recebe-me com um sorriso e um “Hello” afável. Sou cliente habitual! Com sacos cheios e um sorriso de missão cumprida, retomo o trilho para casa desta vez a passo vagaroso. Já dentro do shuttle deparo-me com o tema do dia: “a má prestação do Bush”. Três velhotes substituem o banco de jardim pela janela panorâmica do eléctrico para confraternizar pela manhã. Ao chegar a casa avisto o mar azulão ao fundo da rua que assiste debruçado no parapeito ao rebuliço matinal. Pede licença para entrar mas a energia fraca das ondas pouco ajudam na transposição do areal que o separa da avenida marginal com nome de navegador português (e esta ein???). Entro em casa com a excitação própria de um dia festivo. Aos pés da cama pouso o ramo de rosas e uma nota em papel perfumado. Abro a janela para o amanhecer correr e para revelar a passarada de corvos e gaivotas que todas as manhãs travam combates pelo melhor pedaço de lixo.

Meio sonâmbula levanta-se e vê o quarto deserto. Fica no entanto desde logo inebriada pelo aroma forte das rosas amarelas ao fundo da cama. De sopetão e apesar de os olhos lutarem contra a claridade levanta-se e vê a nota “Cara linda espero-te na praia!”. Sem preocupações de moda pega nas primeiras roupas que encontra. Uma hawaiana de cada cor e um camisolão que lhe pertence apenas por afinidade são as peças gritantes do conjunto. Desconhece o caminho mas o chilrear das gaivotas e a brisa de mar que acaba de acordar encaminham-na na direcção certa. O brilho no olhar intensifica-se a cada passo mais próxima da praia. Um veleiro na baía chama-lhe a atenção mas é o bote parado na praia que mais a atrai. Vem a passo confuso, ora lento ora acelerado, reticente quanto a apressar a surpresa ou atrasá-la para melhor a saborear. Os últimos metros denunciam-na e é em passo de corrida que chega à beira-mar.

“Parabéns Princesa!” Apesar da fantasia de lobo de mar reconheceu a voz meiga. Abraçou-me como era seu desejo há muito. Não chegámos até ao veleiro. Outros príncipes e princesas haviam requisitado os seus préstimos. Ali ficámos sentados na areia encostados ao velho bote na letargia da paixão. Ao lado uma toalha de piquenique decorada com cerejas e morangos vermelhões de volúpia, sumo de laranja doce de ternura e pão com queijo e marmelada...
Viajei sem sair do meu quarto, sem sair da cidade que me acolhe. Sem respeito pelo tempo, troquei datas e tornei possível a combinação de acontecimentos desencontrados no tempo. Hoje fico-me pelos sonhos pois em nenhuma agência encontrei viagem tão perfeita. Alucinação criativa, dirão. A intensidade emocional desmente. Realidade ou devaneio ficou gravada na memória como viagem...

1 comentários:

MF disse...

Nem sei que diga. Estou aqui à uns minutos sem saber o q escrever.
Acho que é um dos textos mais bonitos que já li.
Um beijo com saudade.