Segunda-feira, Maio 05, 2008

Fuerteventura - Ilha Selvagem

Ainda a sofrer de insónias provocadas pelo nevoeiro espanhol foi logo pela manhã que iniciámos a exploração de Fuerteventura. Ser Moleque do mundo não é ser turista de espreguiçadeira. Tanto mundo para palmilhar seria desperdício passá-lo esticado ao sol, olhos fechados para o que cada canto tem para nos oferecer. Ainda assim porque a companhia o exigia, pela falta de tempo e pela liberdade de movimentos nos terrenos áridos da ilha, trocámos o conforto duro dos transportes públicos e pé na estrada pelos estofos fofos de um Opel Astra última geração. A exigência não foi nossa, afinal de contas as empresas de rent-a-car só trabalham com o melhor. Mais do que um meio de transporte o automóvel foi estrela de anúncios publicitários nos dias que se seguiram. Árida, seca, vegetação escassa, casas baixas e feias, a paisagem é em tudo parecida ao cenário com que me deparei no norte de Marrocos. Aliás até a língua e o aspecto dos nativos é igual. Não se fazem à esmola mas a cor de pele bronzeada e o desleixo no traje é similar. Aos poucos o baque duro do primeiro contacto com a aridez insular é substituído pelo fascínio da agressividade da paisagem. Fora das pequenas cidades sujas e desordenadas pelo caos da construção de luas, Fuerteventura ostenta paisagens virgens (tanto quanto é possível) magníficas. Até chegar ao sul um chorrilho de montes despidos de verde e povoados por cabras, o símbolo da ilha. No fundo de encostas, alinhadas com vales e como bandeiras a sinalizar o fim de linhas de água, a costa de Fuerteventura esconde centenas de praias. Areia branca e preta, pejadas de pedregulhos vulcânicos são como refúgios de surfistas e amores discretos, locais de viagens à intimidade singular pela possibilidade de contemplação distante da civilização. Desta vez abandonei as introspecções singulares. Senti-me estranhamente mais atraído pela descoberta mágica do relacionamento a dois. A nudez da paisagem bane barreiras e expõe a sinceridade.

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