Sábado, Maio 10, 2008

Campismo selvagem

Herança genética de um progenitor com visão para os prazeres da vida, desde pequeno que tenho uma panca, fazer campismo selvagem. Não me refiro a montar tenda num local não designado para o efeito e sem condições. Falo de acampar no meio do nada. Fuerteventura foi o meu local de baptismo. Foi com bastante incerteza que decidimos acampar no meio do que suspeitava ser a Praia de Cofete. Como companhia dois carros de hippies modernos que giravam pedras de alegria efémera. “Tranquilo, isto é tudo malta cool!” Não fiquei tranquilo mas enfrentar aquela estrada de montanha imiscuído no breu pareceu-me carta fora do baralho e passado algum tempo os nossos amigos seguiram caminho rumo a outras estrelas. Assustados pelo desconhecido, pelos roncares de moto-quatro que se escondiam na escuridão ou nos encadeavam na passada, acordamos estremunhados a meio da noite. Lá fora uma parafernália de movimentos suspeitos. Já mais descansados pelo conforto mútuo foi com um aperto que senti a tenda levantar-se nas pontas. Debaixo da minha cabeça uma mão amparou-me o sono e ergueu-me junto com a tenda. Pensei em voz baixa para não assustar ainda mais a multidão: “danou-se, vamos ser assaltados com uma pinta do caraças…” Saí cá fora mais pela inevitabilidade do que por valentia. A palpitação sossegou. Por capricho da natureza, o vento soprava forte e levantou a tenda com subtileza humana no exacto momento em que os faróis de uma moto-quatro cruzaram a nossa tenda. Lá fora a companhia da noite escura e de uma paisagem que apenas conhecia de livros. Não fossem aquelas duas motas dir-se-ia que estávamos sós no mundo. Rendidos às evidências acampámos dentro do carro. Foi sossegados e aquecidos pelo calor da noite que acordámos com o nascer da aurora e o bater das ondas na praia deserta. As informações estavam correctas. Cofete fica no meio do nada. Uma costa rodeada por montanhas vulcânicas e povoadas pelos poucos senhores da terra de ninguém. Uma pequena aldeia no sopé da montanha, sem luz e água canalizada esconde o melhor restaurante da costa norte. Um cafofo de garagem provavelmente abandonado há anos que alguém mais optimista decidiu incluir no roteiro gastronómico. Ficámo-nos pelos sabores visuais de uma paisagem que esmaga pela aridez e liberdade solitária… Apesar de recorrente, em especial nas épocas baixas, o campismo selvagem em Fuerteventura é proibido. Fosse pela economia do sistema, pela pré-disposição ou simples capricho, na segunda noite e apesar do susto da noite anterior fizemos nova investida. Na costa norte, mas desta feita da ilha no seu todo, foi perto de El Cotillo que assentamos arraiais.
A noite escura chegou uma vez mais antes do que seria desejado mas as luzes das cidades próximas das quais se avistava apenas o céu de néon e a soberania de um farol do outro lado da baía substituíram como puderam o sol. Caído do nada um spot à beira mar com protecção contra o vento, aparentemente tranquilo, suficientemente escondido da possível policia marítima e com uma vista soberba sobre a baía de mar luminescente nocturno. Deixei os monstros à porta e dormi tranquilo debaixo de um tecto de estrelas. Noites destas não são simuladas em hotel algum…

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