Estar numa ilha não significar estar-se isolado e no caso norte de Fuerteventura nem oceano a perder de vista é garantido. Carreiras diárias de postais humanos fazem a travessia entre Fuerteventura e a outra ponta de terra solta do mundo que se avista no horizonte, a ilha de Lanzarote. Pelo caminho um rochedo, esse sim solitário. Privado da companhia humana, foi deixado aos lobos… Exercício imaginativo momentâneo, calculo ser esta uma boa justificação para o nome de Ilhéu dos Lobos, pois nenhuma alcateia que se conheça alguma vez pisou terra.
Apareceu à superfície da crosta como terreno inerte fruto das convulsões internas do planeta e hoje é paraíso de aves migratórias e vegetação espontânea. Levado pelo espírito hoteleiro magnânimo já imagino um belo Mélia na costa da ilha com terraço ampliado para caça ao pato. Alucinações espero…
Aconchegadas pela proximidade geográfica, nem por isso Lanzarote e Fuerteventura são minimamente parecidas. Adoptando uma visão humanizada poder-se-ia mesmo dizer que se trata do filho pródigo e do bastardo. Como nome de família guardam a génese de nascença. Ambas ilhas vulcânicas são autênticos paraísos das paisagens que entrava há anos atrás nas aulas de CTV. 
Ao desleixo e construção de patos bravos encontrada em Fuerteventura, Lanzarote contrapõe uma organização turística exemplar. É a ilha mais cara do arquipélago mas justificável pelo que oferece e pelo cuidado como oferece. Na génese desta cultura um homem, César Manrique. Artista e arquitecto por afinidade numa incursão inconclusiva na Universidade de La Laguna, revolucionou por completo a mentalidade dos habitantes da ilha. Apesar de desviado nas ideias politicas pelas afinidades fortes por Franco, mostrou-se um defensor da cultura local e da natureza abençoada da ilha que o viu nascer. 
Nem sempre a ditadura é cinto castrador. Neste caso pelas leis urbanistas ditatoriais que conseguiu implantar na ilha conseguiu criar um verdadeiro jardim à beira mar plantado. Seja nas cidades ou nas aldeias mais isoladas a sensação de estar a passear num parque cuidado não se esvanece. Os hábitos são contagiantes e quem vagueia pela ilha usufruindo das paisagens sente-se na obrigação de preservar o espaço que pisa. Ainda há esperança…

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