Domingo, Abril 27, 2008

Queda livre

Roda vida de emoções, qual trapézio do circo Chen, os últimos meses da minha vida têm sido isso mesmo, uma catapulta de sentimentos opostos. Alegria genuína e tristeza pela ausência, assim tem oscilado o coração. Sem mais a que me agarrar e sem esperanças depositadas no Cruzeiro do Sul, açambarcado sem vergonha alguma pelas religiões mundanas, decidi atirar-me do abismo. Pensei numa ponte mas com os acidentes que para aí andam ainda levava com um carro antes mesmo de ter sentido a liberdade do ar. O cimo de um prédio para além de muito batido é sempre uma incógnita; nunca se sabe quando é que alguém vai sacudir um tapete. O choque eléctrico seria uma possibilidade fora de questão, ainda para mais ao preço a que está a electricidade. Num rasgo de modernidade e porque era sonho de menino a sensação de voar sem asas optei pela queda livre prolongada. Como em qualquer movimento de histeria em massa apelei ao “mal senso” dos meus amigos, mas poucos foram os que se mostraram disponíveis para abraçar a causa. Hoje em dia o porta-moedas não permite estes desvarios, nem na hora da confissão final. Como companheiro confirmadíssimo desde a primeira hora o meu Pai. Alguém inocente e obviamente até então privado da sua companhia disse, fazendo jus ao bom senso que normalmente impera nos ascendentes mais próximos, “se fosse perigoso certamente o teu Pai não iria nem te deixaria ir!” Nada mais erróneo… Afastados os cobardolas e os que por demais razões não puderam comparecer, a tropa de elite foi composta pelo Pai Repolho, a filha Repolho, eu (o mentor diabólico do esquema segundo a sabedoria maternal), a Luisinha, o Nuno e a Maria João. Não foi segunda-feira mas pelos vistos o passar dos anos homogeneíza a escala semanal pelo que temos de melhor. Talvez pela probabilidade ainda que remota de fim estreitam-se laços e reabrem-se capítulos de histórias deixadas ao abandono pela imaturidade juvenil. Ganhamos todos! Como transporte uma lata saída dos filmes. Um biplano minúsculo onde uma dezena de humanos descontentes com a sua condição não voadora são enfiados. As parecenças com os concursos de sardinhas nos twingos só terminam 4500 metros mais acima quando um a um são lançados ao abandono no espaço aéreo. Primeiro às cambalhotas imbuído no caldo azul, depois com perfeito controle do corpo num movimento de rodopio e foguete, a sensação de liberdade e pequenez durante a queda livre é electrizante. Do alto da terra, para onde até os habitantes da Serra da Estrela teriam de olhar para cima, faz-se um zoom in a 250 km/h sobre um mapa Google Earth real. Para os últimos 1500 metros fica reservado o pára-quedas. É como que uma sessão de yoga depois de exercício extenuante. Pairando como pássaro que teima em fazer valer as asas concedidas pelo criador darwiniano levei mais 15 minutos a pousar de novo os pés no chão. Sossegaram os corações que palpitavam olhos postos no ar e outros, lá longe perto do deserto, no visor do telemóvel.
Não fosse o custo exagerado diria que seria experiência para repetir. Mais um capítulo cumprido e menos um item a adicionar à lista de coisas que gostava de ter feito…

3 comentários:

João Pedro disse...

Tenho tanta pena de não ter ido!!!
Se soubesse o que sei hoje... se o homem usasse mais a cabeça (de cima ihih)... maldita a hora em que entrei no outro avião... :S
Agoro sofro de remorso, de saudades, de pena... sentimento mais irritante mas tão recorrente:S
Aguardamos notícias dos states!
Abraço

Mr. Blue disse...

Afinal o que tu querias era a bênção dos céus, nessa aventura por terras do Tio Sam. De facto, nada melhor do que ir directamente à fonte (bem visto).
A minha dúvida era se aos 13500 pés de altitude, já era possível invocar os favores divinos, mas ao que parece a ousadia foi parcialmente compensada. Claro está que as desconfianças do Altíssimo, bem se manifestaram nesses primeiros dias de vivência na costa que de pacífica só teve o nome, mas, e isso também é um direito que Lhe assiste, Ele escreveu direito por linhas tortas.
A sorte protege os audazes.
Be good, stay cool

Marta disse...

Grandas malucos!
A família Repolho é a máior :D

Um beijo para cada um pela coragem