Como remate desta cruzada no relato das minhas aventuras em Cuba a resposta à pergunta que se impôe.

Funciona?
A meu ver não funciona, mas também eu peco na minha apreciação pela sobranceria económica que o meu berço consentiu. Ainda assim, mil vezes ser pobre em Cuba do que nos vizinhos Estados Unidos. Em Cuba estaria subjugado à lei do Estado, Mãe tirana mas protectora.
Teria comida, racionada mas suficiente;
Teria casa, vítimas das bombas temporais mas um tecto;
Teria trabalho, jornadas de 12 horas consecutivas dia sim, dia não mas útil à sociedade;
Teria educação, orientada pelas ideologias impostas mas construtora;
Teria cuidados de saúde, não preventiva mas providencial para apertos sérios.
Para mim e muitos outros é pouco, é um atestado de renúncia a sonhos e ambições futuras. "Eu queria perceber os pássaros, voar como o jardel sobre os centrais, saber porque dão seda os casulos mas isso já eram sonhos a mais!"
Aos olhos dos verdadeiros desprotegidos da sorte não é pouco, é tão-somente a resposta a todas as preces diárias. Pelas palavras de Gabriel O Pensador “Eu queria morar numa favela…"

Terminada a noite parece também o mundo ter esquecido a realidade deixada para lá da cancela que separa a península de Varadero. Um dia de sol estupidamente quente onde a própria brisa cortava a respiração. Um dia de lassidão debaixo dos chapéus de chopo, comida farta a todas as refeições e mordomias hoteleiras. Entende-se facilmente a atractividade destes locais como destinos de viagens de finalistas. Finalistas do secundário, da licenciatura ou mesmo das preocupações que nos rodeiam…
Esta é uma experiência impossível para os Cubanos. Por um lado o clima equatorial. Apesar da existência de uma estação do ano apelidada de Inverno, trata-se apenas de uma colagem às designações dos povos que descobriram a ilha. Na verdade o clima varia entre o Verão escaldante e a Primavera amena, entremeado de tempos a tempos por alguns visitantes ventosos com nome de mulher. Por outro lado a lei estatal. Causa incredulidade, mas a verdade é ir à praia no Inverno é proibido nas zonas turísticas. Do cimo da minha ingenuidade calculo que seja para prevenir os surtos de gripe, afogamentos e indigestões… Não que seja frequente ver cubanos a gozar férias de papo virado para o ar, mas as praias junto aos hotéis são escritórios de actividades muito lucrativas. Para ter acesso à fonte uma caminhada longa. As praias são públicas mas os acessos não tanto; há que contornar os loteamentos hoteleiros que formam autênticas muralhas entre o interior e o mar aberto.
À hora marcada, 10 quilómetros a sudeste lá estava a rapariga. Vi-me então num filme de espionagem e contrabando. A moça não voltou a falar comigo. A comunicação foi feita através de intermediários e por entre mergulhos nas águas cálidas. Como correio bombista pousei a encomenda no meio da praia na terra de ninguém. Minutos mais tarde a encomenda encontrou o seu destinatário. Um sorriso sincero e agradecimento distante foram as retribuições face à insignificância do meu gesto. Minto, ainda que inesperadamente recebi também umas marocas handmade, também elas cuidadosamente abandonadas. O cenário entende-se perfeitamente se se souber que a mendicância é uma actividade ilícita e punida se apanhado em flagrante delito.
Bem vistas as coisas o jantar foi um sucesso. Lagosta grelhada suculenta com molho picante, frutas tropicais e uma aura conspirativa a modelar o ambiente. Para trás ficam a possibilidade de jejum depois de um bate face com o chefe de cozinha e da ameaça séria de sermos apeados ao nosso destino no meio da povoação. Tudo não passa afinal de estabelecer limites. Eles conhecem os deles e nós apalpamos os nossos. Algumas cedências de parte a parte e finca-pé nas posições defendidas restabelecem o equilíbrio…