Quarta-feira, Dezembro 12, 2007

Funciona?

Como remate desta cruzada no relato das minhas aventuras em Cuba a resposta à pergunta que se impôe.

Funciona?

A meu ver não funciona, mas também eu peco na minha apreciação pela sobranceria económica que o meu berço consentiu. Ainda assim, mil vezes ser pobre em Cuba do que nos vizinhos Estados Unidos. Em Cuba estaria subjugado à lei do Estado, Mãe tirana mas protectora.

Teria comida, racionada mas suficiente;
Teria casa, vítimas das bombas temporais mas um tecto;
Teria trabalho, jornadas de 12 horas consecutivas dia sim, dia não mas útil à sociedade;
Teria educação, orientada pelas ideologias impostas mas construtora;
Teria cuidados de saúde, não preventiva mas providencial para apertos sérios.

Para mim e muitos outros é pouco, é um atestado de renúncia a sonhos e ambições futuras. "Eu queria perceber os pássaros, voar como o jardel sobre os centrais, saber porque dão seda os casulos mas isso já eram sonhos a mais!"
Aos olhos dos verdadeiros desprotegidos da sorte não é pouco, é tão-somente a resposta a todas as preces diárias. Pelas palavras de Gabriel O Pensador “Eu queria morar numa favela…"

Terça-feira, Dezembro 11, 2007

Areal branco

Terminado o périplo possível pela realidade cubana, ficaram os últimos dois dias reservados para a letargia hoteleira de Varadero. Dois dias de praia e repouso. A primeira noite em Varadero foi marcada pelo fogo-de-artifício de relâmpagos naturais, orquestrada pela batida dos trovões que ribombavam nos céus. Um cenário fabuloso de raios e coriscos a riscar os céus em direcção às montanhas ou naufragados no mar. Fado meteorológico para os ateístas, ou manifestação da indignação da Natureza perante tamanho fosso nas condições de vida, o espectáculo não podia estar mais de acordo com o estado de espírito dominante no final da viagem. Terminada a noite parece também o mundo ter esquecido a realidade deixada para lá da cancela que separa a península de Varadero. Um dia de sol estupidamente quente onde a própria brisa cortava a respiração. Um dia de lassidão debaixo dos chapéus de chopo, comida farta a todas as refeições e mordomias hoteleiras. Entende-se facilmente a atractividade destes locais como destinos de viagens de finalistas. Finalistas do secundário, da licenciatura ou mesmo das preocupações que nos rodeiam… Desde pequeno que sofro de hiper-actividade. Acordado ou a dormir não consigo estar parado. Sinto que a vida me foge quando a preencho com espaços de remanso físico ou cognitivo. Ao fim do primeiro dia já tinha experimentado quase todas as actividades lúdicas oferecidas pelo hotel. De lado ficaram os jogos de colectividade anunciados incessantemente nos microfones espalhados pelo complexo. Um grupo de animadores, semelhante ao esquadrão gay da SIC versão desportiva, alicia todos os clientes para competições entre nacionalidades. Uma espécie de campo de férias do Big Brother com tarefas agendadas para todos os residentes do hotel e prémio de bom comportamento. Última noite nas Caraíbas, céu estrelado e um bafo quente apelam à festa. Foi assim sem surpresa que o grupo de portugueses se juntou a uma festa de jogos de areia. Desvirtuámos o concurso e conseguimos pôr toda a gente a rir como crianças felizes. Para final de festa e em jeito de comemoração o sketch pornográfico da noite. Perdemos os jogos sem fronteiras para os Argentinos mas ganhámos nas comemorações. Em trajes menores ou mesmo pelados dos 16 aos 61 todos foram ao banho na maré da meia-noite.
Mesmo debaixo de protecção lunar e os astros aparentemente alinhados numa conjugação favorável os pecados terrenos não passam despercebidos aos olhos da mãe natureza. Como resultado um novo mapa estampado nas costas. Exactamente 74 picadas de mosquitos. O tesouro? Esse ficou guardado no segredo dos Deuses…

Domingo, Dezembro 09, 2007

Pombal Humano

Pensava ser a base de Guantanamo a única área territorialmente cubana vedada aos locais mas enganei-me. Varadero, destino de eleição de milhares de turistas de todo o mundo é provavelmente a região menos cubana da ilha. Com cancela à porta os 60 km de península e areais fotográficos são local non grato para os cubanos. Em Guantanamo poderão entrar como prisioneiros, em Varadero entram apenas como trabalhadores e desde que estritamente necessários (não vá ficarem ofuscados e infectados pela opulência do estilo de vida dos turistas). Distribuídos ao longo dos 60 km de areal branco e mar azulão, as jóias dos grandes grupos hoteleiros agrupam-se por número de estrelas. Do 0 ao 60 um crescente de visibilidade térrea acentua o brilho estelar dos hotéis. Fora da península, na costa oculta dos mapas internacionais, o brilho é cimeiro. Milhares de estrelas crepitam sobre a penumbra dos areais, por hora cubanos. Sem paredões vidrados, piscinas de cloro ou manjares reais reina a paz de quem vê os areais molhados pelas águas celestes como barreira do mundo ocidental.
São pulseiras douradas ou prateadas de plástico reles, mas açulam a felicidade dos visitantes. À chegada cada um recebe a sua anilha, a dádiva de liberdade para acesso gratuito a tudo aquilo que foi já pago antecipadamente. Como pombas vidradas vagueiam pela área do hotel usufruindo de tudo o que este possa oferecer. Às refeições a balbúrdia semelhante ao lançamento de milho no banco de jardim. Esquecendo os modos que praticam em casa correm para os restaurantes, refeitórios comuns engalanados pela decoração garbosa que imprime ares de sultania, comendo como se não houvesse amanhã. Compreende-se aqui o porquê da impossibilidade da gratuitidade como padrão. Aparentemente ela envilece a postura do homem e ao contrário do que seria de esperar acentua o egoísmo.
Bronzeados e relaxados conhecem de Cuba os camareros, o mar azul e quente, a meteorologia abençoada e a gama completa de misturas alcoólicas locais. Férias de sonho iguais a tantas outras possíveis em todas as unidades hoteleiras do género espalhadas por todos os países exoticamente pobres...

Sábado, Dezembro 08, 2007

Che, Ícone Revolucionário

Mausoléu de Ernesto Guevara em Santa Clara

Figura soberbamente exaltada, é incontornável passar por Cuba e permanecer alheio à efígie de Ernesto Guevara. Odiado ou amado, só a indiferença não parece ser sentimento presente ao olhar de frente o retrato do jovem guerrilheiro. Aclamado como figura central da revolução cubana e associado ao socialismo mundial, fica hoje clara a sua demarcação do politiquismo sectário. O epíteto comunista do Estado surgiu após a revolução pelo que associar Che somente ao movimento comunista é reduzi-lo aos combatentes de causas políticas e elites ideológicas distantes portanto da defesa do povo pelo povo, como era sua intenção. Afastando o romantismo e fantasia que envolve a personagem ficam também os relatos de acções inumanas e por vezes mesmo brutais contra todos aqueles que se ergueram no caminho das suas convicções. Pichado nas paredes, impresso em cartazes, estampado nas camisolas, à venda nas livrarias, representado em esculturas de ferro, esculpido em estátuas, a figura de Che Guevara tem certamente mais aparições que a do menino Jesus. Aliás, não é de hoje a comparação entre a imagem bíblica do Cristo ocidental de barbas e olhar distante e a foto capturada por Korda, em 1960, do Comandante Che Guevara. Pelo distanciamento que me é permitido atrevo-me a afirmar que os intentos originários do cristianismo e os princípios ideológicos defendidos pelo Comandante são afinal bastante similares. Ambos se batem pelo humanismo, pela defesa dos desprotegidos da sorte, pela fraternidade e igualdade entre os Homens. São chavões de boas intenções mas estou convencido da sua real importância e credibilidade na génese do movimento celeste pela cruz de Deus e mais recentemente térreo pelas mãos de Che.
A diferença é, porém, clara num ponto fulcral. A religião alheia-se de responsabilidades e põe nas mãos de um ser divino ficcionado a tarefa de estabelecer os limites de fraternidade e humanismo. Todos que o seguem são assim ilibados de responsabilidade pelo facto de responderem apenas diante de quem jamais se poderá apresentar na Terra. Os utópicos acreditam no poder das suas acções e na capacidade individual de mudar o mundo. É, portanto, uma posição mais corajosa mas também mais responsabilizadora dos actos individuais. Ambas são, porém, irrealizáveis pois batem-se com a própria essência humana. Muitas vezes cruel e desumana é também responsável pela insatisfação e curiosidade que nos fazem avançar.
Em Cuba um herói da revolução, na Bolívia a criação do mártir, na Argentina um filho amado, para os revolucionários um modelo de vida, para todos os inconformados um ídolo, para a Humanidade o maior Revolucionário dos tempos modernos, um Homem incorruptível e leal às suas convicções na defesa dos fracos e oprimidos custe o que custasse...

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Quinta-feira, Dezembro 06, 2007

Lagosta Suada

Camisolão felpudo enfiado pelo tronco, calças arregaçadas com desvelo para não ferir a harmonia da fardamenta e os tornozelos desnudos dando seguimento aos pés descalços que se enterram por entre milhares de grãos de areia lavados pelo mar e pela chuva de Inverno. Passear na praia em pleno Inverno é uma delícia. A praia deserta, o mar revolto e a neblina que nos embioca congregam um ambiente de serenidade prazenteira. Esta é uma experiência impossível para os Cubanos. Por um lado o clima equatorial. Apesar da existência de uma estação do ano apelidada de Inverno, trata-se apenas de uma colagem às designações dos povos que descobriram a ilha. Na verdade o clima varia entre o Verão escaldante e a Primavera amena, entremeado de tempos a tempos por alguns visitantes ventosos com nome de mulher. Por outro lado a lei estatal. Causa incredulidade, mas a verdade é ir à praia no Inverno é proibido nas zonas turísticas. Do cimo da minha ingenuidade calculo que seja para prevenir os surtos de gripe, afogamentos e indigestões… Não que seja frequente ver cubanos a gozar férias de papo virado para o ar, mas as praias junto aos hotéis são escritórios de actividades muito lucrativas. Para ter acesso à fonte uma caminhada longa. As praias são públicas mas os acessos não tanto; há que contornar os loteamentos hoteleiros que formam autênticas muralhas entre o interior e o mar aberto. Terminada a visita à cidade museu fui interpelado por uma moça mãe de filhas. Simpática e ousada pretendia que lhe oferecesse uma mochila da agência de turismo. Para mim a mochila seria mais um mono a juntar às tantas que guardo em casa à espera da melhor ocasião para as despachar, mas para aquela mulher era uma prenda de natal antecipada. Sem hesitar disponibilizei-me logo para lha dar. Um problema porém, a minha mochila estava a repousar no hotel. “Non te preocupes. Cerca de las 4 me espera junto a la playa!” O inusitado da situação e aparente impossibilidade causaram-me espanto.À hora marcada, 10 quilómetros a sudeste lá estava a rapariga. Vi-me então num filme de espionagem e contrabando. A moça não voltou a falar comigo. A comunicação foi feita através de intermediários e por entre mergulhos nas águas cálidas. Como correio bombista pousei a encomenda no meio da praia na terra de ninguém. Minutos mais tarde a encomenda encontrou o seu destinatário. Um sorriso sincero e agradecimento distante foram as retribuições face à insignificância do meu gesto. Minto, ainda que inesperadamente recebi também umas marocas handmade, também elas cuidadosamente abandonadas. O cenário entende-se perfeitamente se se souber que a mendicância é uma actividade ilícita e punida se apanhado em flagrante delito.Na costa sul de Cuba a água é infernalmente quente, salgada e de cor pouco nítida. Mergulhos refrescantes só são possíveis entre as 6 e as 8 da manhã. São mergulhos de escuridão pois as pálpebras só descerram depois de escorrida toda a salga. A abertura da praia à povoação na altura do Verão corresponde também à abertura da estação da caça; da caça ao turista. Homens habituados ao clima equatorial, muito cubanos aproveitam esta época para fazer da praia o seu escritório de negócios. Por momentos retrocedo 3 anos até ao meu Interrail pela Europa. Um pouco mais novo e com o cabelo cheio de tranças (um rasta de aspecto lavado) era interpelado a cada 5 minutos para comprar todo o tipo de alucinogénicos. Homens de aspecto misterioso e gabardina comprida mostravam-me sem pudor todo o mostruário de artigos de viagens do subconsciente. Mergulhar nas Caraíbas difere apenas pela indumentária. No mar, de 10 em 10 metros, um trabalhador do comércio. Pele escurecida, cabelo à escovinha e óculos escuros, os contrabandistas vestem a sunga para irem para o trabalho. Não oferecem droga mas sim rum, charutos e lagosta. Em Cuba não há produção ilegal nem tão pouco produtos de imitação, tudo é genuíno.
Escapar ao controlo omnipresente do estado em todas as transacções comerciais é a forma de sobrevivência de grande parte da população. Os produtos são desviados dos armazéns do estado para o comércio paralelo, ou como se chama noutros países mercado negro.
António, um mulato sorridente e óculos Armani, providenciou a aventura da noite. Por dez 10 euros um jantar de lagosta num “restaurante caseiro” numa povoação próxima. O transporte em Cadillac compunha o ramalhete. Reunido o grupo ao crepúsculo, aguardámos com ansiedade a chegada das peças de antiguidade. O Cadillac era afinal uma carrinha de hotel fretada à má fila entre um expediente e o seguinte. Amontoados no interior, uns no acolchoado, outros no chão seguimos por estradas secundárias até uma espécie de favela rasteira. Duas ruas de casas arejadas pela privação de janelas, sujas pela poeira, estradas de terra abatida, e como em qualquer bairro pobre um monte de crianças pé descalços a correr na rua. Bem vistas as coisas o jantar foi um sucesso. Lagosta grelhada suculenta com molho picante, frutas tropicais e uma aura conspirativa a modelar o ambiente. Para trás ficam a possibilidade de jejum depois de um bate face com o chefe de cozinha e da ameaça séria de sermos apeados ao nosso destino no meio da povoação. Tudo não passa afinal de estabelecer limites. Eles conhecem os deles e nós apalpamos os nossos. Algumas cedências de parte a parte e finca-pé nas posições defendidas restabelecem o equilíbrio…

Terça-feira, Dezembro 04, 2007

Propaganda

Sem grandes marcas internacionais e variedade de escolha reduzida ou nula, em Cuba os cursos de publicidade e marketing seriam rampas para o desemprego na certa. Já a propaganda política encontra-se bem enraizada e aparentemente com margem de progressão. Não contribui directamente para a produtividade do país mas certamente dá uma ajuda indispensável na condução do rebanho e rememoração dos princípios básicos das Caraíbas Cubanas.Nas cidades ou no campo os outdoors não publicitam o design inovador do último Seat Leon ou as potencialidades da última geração de portáteis da Sony. Sem preocupações com a velhice, que aparenta ser epidemia do Homem do velho continente, os cosméticos encabeçados pela Laeticia Casta foram também eles Castrados. Exaltando os heróis da revolução, os dias marcantes de libertação do povo, os mártires reais e os recentemente ficcionados na luta contra o capitalismo sanguinário ou apontando o dedo às falsas democracias, os cartazes de propaganda estão disseminados pelo território cubano.“De pequenino é que se torce o pepino”, ditado popular com materialização escrupulosa em Cuba. Algures no meio do território central de Cuba passámos por uma escola primária. A tenra idade é altura propícia para estimular as ideias socialistas nas mentes dos jovens cidadãos ainda na linha de montagem. Espalhados pelo recreio, para além dos habituais equipamentos de divertimento juvenil, um conjunto de tabuletas com dizeres revolucionários. A analogia poderá parecer estranha mas a imagem que me veio à cabeça foi a de um parque de condução. As regras de civismo rodoviário substituídas pelas leis de comportamento do estado socialista, numa pista onde o trilho marcado não deixa muita margem para a invencionice ou auto-recriação. Para bem do senhor de barbas espera-se neste caso que o povo cubano seja mais cumpridor do código das estradas que o congénere português…