Sexta-feira, Novembro 16, 2007

Trindade - cidade museu

Umas centenas de quilómetros a sudeste de Havana, queixada caída na fronteira sul, olhar posto no Atlântico surge a cidade de Trindade. Pelo meio uma paisagem tropical viridente, salpicada aqui e acolá por povoados e atravessada por uma autopista de 8 vias. Engana-se quem pensa que se trata de ostentação ou da marca asfaltada de outras épocas. Na verdade trata-se apenas e só de uma pista de emergência para aterragem de aviões caso o belicismo infecte o país. Ainda que o fluxo de carros seja diminuto estranha-se conduzir numa estrada destas dimensões sem separador central e com as linhas de marcação há muito descoloradas pelo sol diário. As bermas sem protecções fazem-se notar pelo cordão humano, que se alonga por quilómetros sem fim, à espera da boleia caridosa.Noutros tempos uma cidade piscatória Trindade enveredou mais tarde pelo glamour dos fazendeiros da cana de açúcar. Dos tempos em que Cuba era dos maiores produtores mundiais de cana de açúcar ficaram as fazendas e os palácios senhoriais. Engalanadas a rigor, as construções de Trindade fazem esquecer o aspecto decadente da cidade de Havana. O ar quente sufocante, a estrada vermelha da cor da terra e as cores garridas das casas teletransportam-me por momentos para o Alentejo interior.Seja de pesca ou de açúcar os tempos da cana são chão que deu uvas. Hoje Trindade vive do turismo. Dir-se-ia mesmo que Trindade é como uma aldeia museu com habitantes reais encenando o teatro da vida como peça de apresentação para aqueles que mais afortunadamente têm a possibilidade de mudar de ares de quando em vez. Caras sorridentes, botecos de esquina, espectáculos de dança, crianças franzinas a cruzarem as ruas com o destino errante próprio da meninagem e os sons cubanos como clave de sol transformam Trindade numa cidade alegre e emissora de boas ondas.O reverso da medalha é dado pela abordagem constante dos transeuntes locais pedinchando por qualquer coisa. Seja homem ou mulher, criança ou idoso, cocho ou saudável, qualquer autocarro de turistas é avistado como uma gazela por um leopardo. Paparazzis da pobreza expôem a sua própria vida procurando quebrar a barreira de insensibilidade que nos faria avançar a direito sem olhar para o lado. Os flashes substituídos pelos sorrisos resplandecentes são disparados sucessivamente ganhando pela simpatia a empatia de rostos em trânsito. Canetas, t-shirts, mochilas ou quaisquer outras ninharias para qualquer um de nós são para eles pequenos tesouros.
Repugna-me o espiríto caritativo sazonal como forma de expurgar pesos conscienciosos diversos ou como forma de aliviar a alienação culposa em relação às desigualdades existentes. Sermos rodeados por quem pouco tem e encontra numa caneta a felicidade de um dia não nos faz sentir maiores ou benfeitores sociais. Desencadeia antes uma reacção de revolta pela aparente impossibilidade de mudar o mundo. Será que somos mesmo assim tão impotentes?

3 comentários:

Marta disse...

Mais uma vez (isto começa a tornar-se repetitivo) sabes por as palavras certas para descrever os ambientes. Tive pena de ir naquelas "viagens standard" a Cuba. Talvez um dia lá possa voltar e vê-la de uma outra perspectiva.
Aconselho-te (se é que ainda não a visitaste) outra "cidade museu", que não é bem uma cidade. Aliás serão 2 locais, um que ainda conserva a sua estrutura mas dentro revela provas de tudo o que lá aconteceu (Auschiwtz) e outra que está intacta desde que foi abandonada às pressas (Bikernau). A Polónia é um país que esconde muitas coisas que vale a pena descobrir.
Beijo grande :*

Postman disse...

Se excluirmos os distraídos ou os “autistas”, e estes com alguma reserva, viajar nem sempre é sinónimo de prazer. É um acto cultural, onde tantas vezes se confrontam os arquétipos que alimentaram um percurso de vida, com realidades, que de tão diferentes, não passam sem deixar marca. Viajar é reflectir, é equacionar novas perspectivas na abordagem da realidade em súmula, é interpretar.
Estes retalhos de viagens feitos, são bem o exemplo disso.

Marta Ribeiro disse...

Bolas, sempre a viajar!
Não lhe chamo inveja, a esta vontade de te "igualar" nestas absorçoes de cultura...! :)
E a forma como escreves... Fenomenal!
:D