Domingo, Novembro 04, 2007

Embargo selectivo

Em Cuba o embargo não é só mental, é também material. Queixas e lamentos difundidos na comunidade internacional acerca dos malefícios que o embargo imposto pela super potência americana causa na sobrevivência dos cubanos são afinal verdadeiros. Sem produção interna e os parceiros comerciais quase inexistentes a população não tem sequer acesso a alimentos básicos como leite ou produtos de higiene como o velhinho sabonete.
Curioso é o facto dos cubanos não serem aparentemente capazes de produzir sequer produtos alimentares primários, mas terem agilidade e desenvoltura para criar refrigerantes iguais à Coca-Cola ou à Fanta. Muda o rótulo mas o sabor é igual. Conseguem aquilo que dezenas de marcas em todo o mundo tentam há anos sem resultados. A motivação é diferente, afinal de contas nestes casos trata-se de mostrar que são capazes de competir com alguns dos símbolos dourados do capitalismo americano.Lembro-me de conversas antigas sobre a capacidade têxtil portuguesa quando os tecidos asiáticos ainda ficavam a meio caminho de Portugal. Afinal o isolamento não é necessariamente negativo para todos… Pelo clima acalorado, que apela ao passeio em tronco desnudo, ou pela inércia produtiva própria dos mandriões, as agulhas cubanas repousam e os tecidos escasseiam. Comprar uma camisa ou um par de sapatos, é um luxo asiático que implica pelo menos o salário de um mês. A decisão não é complicada, entre passar 31 dias a pão e água ou andar feito maltrapilho pelas ruas a escolha recai obviamente pela adesão à moda negligé de trapos esfarrapados tão em voga na Europa. Um olhar atento às vestimentas dos transeuntes locais revela a origem dos panos que lhes cobrem os corpos. Por entre manchas com lugar cativo, a que antiguidade assiste, e buracos ventiladores espreitam dizeres que denotam a vida passada dos trapos em lugares longínquos e distintos do globo.Seja na rua ou nas melhores lojas do downtown o comércio cubano é uma venda de retalhos. As montras envidraçadas ou os panos estendidos na via exibem uma miscelânea de artigos antigos. Sem pudicícia pela idade avantajada e aparência gasta, nas bancas misturam-se máquinas fotográficas, tubagens, trapos, livros e tudo e tudo… (Já parecia o Mário Viegas na Declaração Anti Dantas) A apresentação cuidada e legalidade de todos os negócios obumbram o parentesco com a feira da ladra, mas na sua essência corre o mesmo sangue.

Paradoxo, palavra comum mas de explicação confusa. Em Cuba os exemplos de paradoxos são aos mil. Privados de todos os bens possíveis e imaginários os Cubanos vêem os seus visitantes serem presenteados com tudo o que há de melhor. Serão os hotéis e complexos hoteleiros como principados, autênticas ilhas fiscais de recepção de produtos importados? A resposta poderia ser complicada, porém as justificações por detrás destas constatações ferem pela simplicidade e carácter desumano da raça dita humana. Todos os dias grandes empresas estrangeiras, incluindo das moralistas norte-americanas entram no porto de Havana e despejam os seus produtos. Como? Simplesmente pagando a multa por quebrar o embargo. Nos hotéis os preços a que são vendidos os produtos superam a taxa de multa e ainda proporcionam lucro suficiente para todos os intermediários. Já ao povão não chega nada pois não tem sequer capital para justificar o pagamento da multa da imoralidade. Num hotel uma Coca-Cola custa 2 pesos, o equivalente a um quinto do salário médio dos Cubanos. Em Cuba entupir um cano fica caro…

Não fosse o desconforto sincero pela pobreza omnipresente que enleou os meus sentidos diria sem nenhuma restrição que viajei sempre confortável em autopullmans de luxo. Pelo óculo da vidraça vi os poucos autocarros citadinos que se arrastavam como caixas de latão a carpir os seus pecados pelo arrojar pesado no asfalto dilacerado. Como explicar o paradoxo? Mais uma vez a simplicidade toma o pulso da razão. Numa atitude de solidariedade que demonstra a união da América Latina o governo de Lula agraciou a ilha de Fidel com uma remessa de autocarros de luxo da empresa Marco Pólo. Ablução de imagem ou altruísmo franco, a verdade é que os ditos autocarros foram entregues como um donativo e portanto livres de taxas de quebra de embargo. Curioso é saber que quando estes presentes derem o berro também os turistas vão ter de andar à boleia. Uns para o trabalho, outros de mala às costas, todos alinhados nas estradas pelas pinturas do embargo…

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