A sociedade perfeita surgirá pela revolução, não um motim sectário e imposto, mas antes um movimento global fruto da insatisfação interior e impossibilidade de continuar a pactuar com as injustiças impostas.
Confesso a minha ignorância e pouca disponibilidade de raciocínio para atingir a profundidade do pensamento. Assim era até ter pisado solo cubano. Ainda que longe da presciência descrita, em 1959 o que ocorreu em Cuba parece-me ter sido algo semelhante, a gota excedente de um vaso sem fundo há séculos. Um momento raro de união da maioria silenciosa em torno das desgraças vividas, das arbitrariedades impostas e das iniquidades sentidas, prontamente mobilizada por um grupo de combatentes para entregar à população a carta do seu destino.
Encerrar o colonialismo (verdadeiro ou dissimulado) e sanar todas as feridas e injustiças por ele geradas é prioridade número um em qualquer revolução popular. A nacionalização de empresas, propriedades e bens privados foi a primeira consequência desse saneamento justo. Danos colaterais claro que os houve e a prová-lo a primeira debandada de cubanos para a costa dos estados unidos. Em boa verdade e apesar das injustiças pontuais, eram, na sua maioria, os beneficiários directos ou herdeiros dos privilégios concedidos pelo poder cessante. A comparação pode parecer extrema mas diria ser um exemplo "caribenho" da fuga dos portugueses das colónias do estado aquando da declaração da sua independência. Cada caso isolado um drama de família, mas compreensível em nome da causa do novo país e da equidade popular.
Como todas as ideologias e movimentos, por mais genuínos e justos que sejam na sua génese, após se afirmarem degeneram. Destronada a utopia remanesce o carácter humano, falível e oportunista.
O declínio ideológico é hoje bem visível no choque geracional de mentalidades. Socialistas arreigados, os cubanos da revolução continuam a defender e acreditar na praticabilidade do sonho encabeçado por Fidel. Os filhos da revolução por seu lado, alheados do passado e da pesada herança que receberam, desligaram-se dos valores de colectividade imprescindíveis para a aplicação do socialismo. Por mais racionais que sejamos, seremos sempre na essência um ser animal, produto da evolução darwiniana onde a lei do mais forte vigora. Como compatibilizar a selecção natural com um sistema que tenta igualar todos os homens?
O sistema utópico idealizado por Fidel e Ernesto Guevara começa hoje a ruir internamente pela descrença e falta de motivação do povo que um dia acreditou ser possível a criação de uma sociedade justa e igual. A nova classe politica emergente apesar de isolada do estrangeiro parece ter propensão inata para assimilar os vícios dos políticos ocidentais. Sem grandes condições e desalentados pelas baixas expectativas os cubanos são um povo amorfo.
Ao contrário da primeira debandada, nas últimas décadas assistimos a fugas diárias em pirogas de papel de pessoas que nada têm para além da sobrevivência diária e ambição humana censurada.
A procura de igualdade e manutenção de condições de vida humanas para todas as almas é a nota 10 desta utopia, mas porquê nivelar todo o mundo por baixo? Será uma barbaridade tão grande e impossível de realizar o nivelamento pela mediania?
2 comentários:
este teu texto dá panos para manga!!!! irei escrever um texto sobre aquilo que me parece a experiência cubana com tudo aquilo que teve vanguardista e com seus fracassos e equívocos(que os teve e não foram tão poucos com issso!).
Um abraço
Rui Calado
Ora aí está uma ideia interessante do anónimo Rui Calado. Já disse anteriormente que estes últimos textos do moleque... têm sumo para uma discussão aberta e sem pruridos. Estarei atento, na expectativa duma participação adequada.
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