Terça-feira, Setembro 04, 2007

Regresso ao Passado

Sem deixar rasto de fogo à passagem e com uma tripulação muito superior, o charter para Cuba assemelha-se à máquina do tempo de Murdock no Regresso ao Futuro. O relógio não parou e o teletransporte não funciona, mas chegar a Cuba é ganhar um ingresso de visita aos anos 50.Apoiantes inveterados da técnica de Paulo Bento, a tranquilidade encontra alojamento no íntimo de todos os Cubanos. Ainda longe do stress plantado pelo capitalismo ocidental, os Cubanos vivem o dia a dia sem ansiedade pelo que há-de vir, num carpe diem constante sem extravagância de emoções.
Do aeroporto até Havana duas horas de fotografias de cenários e estilos de vida mortos nos países desenvolvidos há décadas. Casas velhas, caiadas pela poeira da terra, ocultam paredes decoradas pela cor tutti fruti possível pelo embargo. O fim de tarde crepuscular convida ao repouso nas varandas, enquanto as casas de portas e janelas escancaradas, sem receio de violação da privacidade que não existe, esperam pela brisa refrescante que tarda em chegar.
Contrariando padrões internacionais, a grande capital revela a mesma lassidão dos subúrbios. Passo lento de quem contempla o universo distante em cada instante, a população da metrópole tem noção dos perigos do stress e por isso rejeita-o. Pela falta de ambição ou contenção forçada da curiosidade inata, os cubanos ocupam os tempos de desafogo em ajuntamentos de vizinhos ou relaxados na marginal que separa a ilha do mar das Caraíbas, bebericando o eterno rum cubano e jogando conversa fora.
As crianças de rosto bronzeado pela genética mesclada da escravatura tardia com a população branca do norte e do colonizador espanhol enchem as ruas de agitação e ingenuidade. Sem apetrechos electrónicos fazem das ruas campos reais de virtualidade imaginativa e estádios de basebol em miniatura.

Desconheço a veracidade dos factos, mas ao que parece o tão afamado desporto nacional americano já existia na ilha de Cuba na época dos Índios. Evoluído e sujeito à estandardização do fair play, o ancestral jogo ameríndio enche estádios em Cuba. Mais, consta ainda que em tempos idos equipas profissionais norte americanas estiveram interessadas na contratação de uma jovem promessa de nome Fidel. Agarrado às raízes da sua terra fez o lance da sua vida anos mais tarde, em 1959, batendo para home run Fulgêncio Batista e as intenções pseudo-colonialistas dos vizinhos nortenhos. Ainda há quem jogue por amor às convicções e recuse transferências milionárias…

2 comentários:

Marta F disse...

Estou de novo a reviver a minha ida a este regresso ao passado. A viagem do aeroporto até Havana foi um pouco diferente porque foi feita de noite. Mesmo assim foi um desfilar de cenários escuros e com pouca luz que nos transportou para outra dimensão.
Fico à espera de mais.
Beijão

Carmo disse...

quando for grande quero escrever como tu, passear como tu.
até lá, um obrigado por te deixares partilhar assim neste fantástico blog.
beijo