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Museu Automóvel
Símbolo de poder de compra e nível de desenvolvimento, o parque automóvel retrata em poucos segundos aquilo que pinturas e enfeites tentam disfarçar. Sem vergonha pela idade avançada, rugas vincadas na chapa colorida de ferrugem, manetas de espelhos e vidros, catarro exuberante pela intoxicação decenária, os automóveis cubanos são o orgulho dos seus donos. 

Chevrolets, Cadillacs e outras banheiras de imersão percorrem o asfalto gasto de Cuba há mais de 50 anos. Poderia ser forma de expressão, ou exagero verbal, mas o número 50 é real. 50 anos de reparações amadoras, em oficinas caseiras improvisadas, peças adaptadas ou mesmo inventadas, transformaram as estrelas automobilísticas dos anos cinquenta em carrinhos de remendos que se arrastam. Mais, esta é, na melhor das hipóteses, a idade mínima destes automóveis. Muitos deles terão mesmo ultrapassado os 65 anos de reforma há muitos anos!

Os proprietários dos chaços que hoje vemos circular são os mesmo que há 50 anos exibiam as últimas novidades do mercado automobilístico internacional. Quem tinha carro conservou-o, os restantes saltitam de carroçaria em carroçaria numa dança diária de boleias.
A culpa é do embargo, que fechou portas aos modelos turbinados do mundo ocidental, e do estado que actua como patriarca severo proibindo que os filhos, cidadãos de Cuba, atinjam a independência pela aquisição de carro próprio. Celebrado o pacto de difusão dos ideais marxistas nos mares das Caraíbas os únicos carros que entram em solo Cubano são os Lada Soviéticos. A faixa etária mais recente é ainda assim dissimulada pelo aspecto envelhecido destas máquinas, transparecendo mesmo a ideia de epidemia de velhice precoce.

Rejeitando os princípios difundidos pela Benetton a diferenciação faz-se pela cor. Não da carroçaria pois essa é tutifruti da cor dos remendos, mas sim das placas de matrícula. Para os velhinhos norte-americanos ficou guardado o amarelo; táxis e transportes públicos citadinos são pincelados de azul; estrangeiros que dão o seu contributo ao país são marcados a laranja; ao estado, como não poderia deixar de ser, o vermelho do partido. Incompreensivelmente e apesar do embargo vêem-se aqui e acolá modelos automóveis recentes (consegui mesmo vislumbrar, como se se tratasse de um cavalo alado, um BMW de 2007). Obviamente que são pertença do estado ou dos estrangeiros mercenários.
O povo sem possibilidade de romper o embargo ou permissão para adquirir um Lada dispõe-se pelas ruas da capital ou ao longo da auto-estrada à espera de boleia. É como se as estradas fossem uma paragem contínua de autocarros. A jornada de trabalho começa com várias horas de antecedência pois só a sorte dita quando aparece um carro ou camião com vaga para mais uma cabeça.
Fora das cidades a áurea rural acentua-se sendo a redução de automóveis em circulação assinalável. Os gases tóxicos emitidos pelas latas são então substituídos pelo odor animal das carruagens de cavalos. Tal como noutros países a falta de locomoção motorizada é ainda compensada pela abundância de bicicletas. Sempre prontas e amigas do ambiente, em países como Cuba os dias sem carros repetem-se todos os dias do ano. É a sustentabilidade forçada.
Ao olhar resignado dos cubanos contrapõe-se o brilho nos olhos de alguns caçadores de desgraças alheias. Altruístas e beneméritos, alguns grupos privados internacionais começam hoje a olhar para as relíquias de museu como investimento. Tal como os programas ocidentais de troca de carros velhos, a ideia é receber os carros cinquentenários e dar à troca um Lada novinho em folha. Cantiga do vigário claro está. Os cubanos ganham carrinhos de linhas enquanto os seus bólides são vendidos a preços astronómicos entre os coleccionadores internacionais. 
Assim vai o mundo…
1 comentários:
Como sempre.
Excelente.
Um beijo.
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