Poupada do bombardeamento da armada americana de salvação do mundo, Havana sucumbe pelas mãos das bombas temporais e pelos tiros de fadiga que flagelam todas as construções humanas. Sem maquilhagem de disfarce ou anti-rugas de prevenção toda a riqueza arquitectónica da época colonialista espanhola parece destinada a tombar.
Em tom triste e de desilusão patente, confesso o desgosto sentido ao observar in loco o falso encanto e beleza divulgados pela propaganda turística. Prédios velhos, muitos dos quais sem portas nem janelas, tatuados de alto a baixo por fissuras de abandono, são o lar de uma população resignada pela falta de motivação e de opção.
O estado de decadência da cidade apesar de não ser aceitável, é compreensível. Com excepção para uma minoria de pequenas moradias anteriores a 1959, todas as obras humanas são pertença do estado. Sem dinheiro para mandar cantar um cego as obras de manutenção resumem-se ao indispensável para evitar a derrocada. Os moradores por seu lado, sem brio pelo que não lhes pertence, garantem apenas que os seus portos de abrigo apresentam condições muito mínimas de habitabilidade.
De face lavada e rejuvenescida pelos capitais da UNESCO, o centro da cidade aparece para limpar a honra de Havana. Considerada como património da humanidade, Havana a Velha beneficia agora de restauração profunda. De patinhos feios a sorteados do euro milhões, os edifícios intervencionados não escondem ainda assim um passado recente espelhado nas fachadas dos parentes vizinhos.
Deambular pela praça velha e pelas ruas que circundam a catedral é ter a oportunidade de observar todos os ângulos fotografados nos postais vendidos pelos postos de turismo.
Longe do aspecto fétido das redondezas do bairro velho e liberto do clima austero de vigilância política, o turista percorre as ruas pinceladas pelas cores fortes das casas carimbadas pela UNESCO ao som das congas desgastadas de artistas de ocasião em busca do seu quinhão. São como cigarras boémias vestidas a rigor que alimentam a musicalidade utópica de Cuba no estrangeiro. Para os locais as notas musicais dão o acorde possível como escape a uma existência apagada mas incompreensivelmente feliz.Hotéis centenários, lares sazonais de escritores famosos como Ernest Hemingway, e esquinas imortalizadas por mafiosos veraneantes da altura em que Cuba era uma colónia de diversão dos Americanos, são pontos de visita obrigatória.
Faces reversas do socialismo apregoado, os torreões dos grandes grupos hoteleiros mostram-se como fios-de-prumo no horizonte de Havana. Do alto da minha janela, protegido dos gases tóxicos carburados pelas máquinas cinquentenárias, os gritos da cidade suavizam-se, o rebuliço padroniza-se pelas avenidas e o cinzentão velho de uma cidade a cair aos bocados ganha encanto pelo distanciamento garantido ao estrangeiro…
2 comentários:
Viajar tamb�m � confrontar mitos com realidades. Discernir criticamente as raz�es duma sociedade que invocando causas ex�genas mascara muitas vezes as condicionantes end�genas, � tarefa fundamental para o turista que se quer cidad�o do mundo.
Aquela bebidinha fresquinha que bebi naquela praça. Aquela com chapeuzinhos brancos. Que maravilha!
Mas é mesmo verdade o que dizes. à parte daquele centro imaculado e para turista se sentir menos mal, todas as outras casas são dignas dos mais degradados bairros da nossa capital e sitios que se fosse cá, no nosso país, nunca me atreveria a passear-me. Mas apesar do aspecto, nunca me senti insegura (pelo menos muito).
Bjs :D
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