A oferta turística algo rudimentar é procurada por uma multidão aparentemente pouco exigente. Oferta e procura distanciadas na evolução, encontram-se em simbiose na junção final. Verdade seja dita que a possibilidade de sair fora dos trilhos traçados pelas mãos “idóneas” das agências turísticas não é grande. Ainda que noutra dimensão, também os passos dos observadores estrangeiros são guiados pelo estado omnipresente visto as agências turísticas serem pertença do aparelho estatal.
O estado encarnando a imagem de Alberto Caeiro, numa versão que contrapõe ao bucolismo genuíno a gestão económica das atracções locais, é o guardador de rebanhos estrangeiros encarregado de os encarreirar para os pastos “culturais” pretendidos.
Originais e genuínas, as fábricas de charutos e rum são a Meca de visita a Havana. Sem possibilidade de poderem exportar os seus produtos, apostam no consumo interno como forma de escoar a produção. O brieffing inicial de apresentação dos meios de produção, inexoravelmente manuais, é sucedido por uma sessão de degustação profunda e comércio ligeiro.
Ser turista em Cuba implica o sacrifício de iniciar hostilidades alcoólicas logo pela manhã. Pelas lembranças juvenis de experiências negativas com o néctar cubano apaguei-o da minha carta de líquidos, mas confesso que conquistou novamente lugar cativo. De manhã à noite, frio ou quente, misturado ou simples o Rum Cubano faz concorrência ao governo em questão de omnipresença.
Fora das grandes cidades o padrão é constante. Para além das praias bordejantes da ilha, a visita às vilas consiste maioritariamente pelo conhecimento do “trabalho manual”. Fábricas artesanais de mil e um produtos, alguns genuínos, outros imitações mundanas encontradas em qualquer país, são o destino dos autocarros turísticos. Fugir ao massacre peditório é quase impossível sendo apenas atenuado se nos distanciarmos do grupo e imiscuirmos nas artérias das redondezas. São momentos breves e ainda assim confinados a um raio de acção pequeno mas que conferem alguma autenticidade no contacto local.
Saídos de Havana em direcção a Cienfuegos fiz a visita mais inusitada desta viagem, uma reserva de jacarés. Da mesma forma que as visitas a igrejas ficaram comprometidas depois da minha ida a Itália, também o contacto com reservas artificiais de animais selvagens ficou manchado depois da estadia no Pantanal. Desconhecido das populações locais, a reserva é ponto de visita obrigatório em qualquer circuito turístico da região central da ilha. Meia dúzia de gaiolas de ferro, umas dezenas de jacarés amestrados e um espectáculo decadente de crocodilo dundee foram as atracções da manhã.
Para terminar com chave de latão um passeio de barco até uma ilha transformada em museu de uma tribo de índios dizimada. Tudo isto seria plausível não fosse o pormenor de se desconhecer se os índios alguma vez passaram naquela zona, ou o facto de os jacarés não existirem naquela região. A comparação é forçada, mas imagine-se uma exposição de ursos polares e esquimós na Holanda…
3 comentários:
Gostei...
Grande descrição, de uma forma simples mas promenorizada! Quem lê, pelo menos eu, "sente" que por momentos está a percorrer os mesmos locais que tu!
Devem ser umas viagens muito interessantes.
Bjinho*
mais uma vez confirma-se o que sempre achei deste tipo de visitas. cada vez mais, aprecio as viagens estilo "as nossas aventuras em..." e não o "a nossa viagem programadinha e bonitinha a...".
como dizes (e muito bem) a realidade vendida pelas agências (e não precisam ser estatais) está muito longe da realidade dos locais visitados. prefiro de longe ver menos, mas mais autêntico. qualidade e não quantidade!
baci
Eu preferiria conhecer os sitios por onde passo de uma maneira assim aventureira, como explicas. O último parágrafo espelha bem o que também gostaria.
Mas...
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