Sexta-feira, Agosto 25, 2006

Tom Jobim

No momento da partida, com o coração destroçado, palavras oportunas a emoldurar uma fotografia de família...

Quarta-feira, Agosto 02, 2006

Epílogo

Palavras sábias a mim dirigidas em tempo idos sussurravam num tom paternal que apenas as folhas das árvores voam depois de mortas. Durante meses agarrei-me a esta máxima e planei o mais que pude, vivi intensamente tudo o que esteve ao meu alcance. Imenso ficou por ver, mas o tempo, monstro aglutinador, é rígido e 24 horas são 24, não respeitando o meu desejo de o parar quer esteja em Portugal quer esteja no Brasil.
Do Brasil conheço uma imensidão de locais, sons e culturas mas ainda assim representante de uma ínfima parte de tudo aquilo que faz de Vera Cruz um país maravilhoso (ou pelo menos com possibilidades para tal). Todas e quaisquer expectativas criadas nos meses que antecederam a vinda para o Rio foram largamente suplantadas, tornando a minha experiência fora de portas um aglomerado heterogéneo de vivências únicas e inesquecíveis.
A vontade de regresso é reduzida e o receio gigantesco. Espero estar redondamente enganado, mas temo pela minha saúde mental nos tempos de apatia estéril que se avizinham. Temo regressar a um local que apesar da familiaridade de 22 anos se tenha tornado estranho e incomportável com estilos de vida, ambições e desejos adquiridos em terras distintas. Um único motivo faz crescer o desejo de regresso, mas até esse pela possibilidade de cenário utópico por vezes se torna repulsivo. Fatalidades da vida que fazem dela um percurso não estagnado. Fosse a felicidade um estado de alma e vida constante e suspeito se tornaria demasiado rotineiro para a ambição humana…
Deixo o Hemisfério Sul onde vivi mãos dadas com o Paraíso, para regressar à pátria mãe. Questionado sobre o que me deixa mais saudades a resposta é complicada. Na miscelânea de situações, vivências e, acima de tudo, das pessoas que fizeram parte de mim nos últimos meses, nada consigo apontar que pudesse excluir. Um único olhar preferia não ter conhecido. Os mesmos olhos penetrantes que me encararam à chegada ao Rio com ar sofrido enfrentam-me novamente ao afastar-me no ônibus da Real em direcção ao Gavião. Foi, é e pelo andar da carruagem continuarão a ser os faróis apagados dos moleques de rua…

Jantar de despedida

Memórias de convívios planeados e ocasionais foram revividas num último jantar de intercâmbio. O local escolhido o gourmet Privilégio, restaurante vizinho que sempre nos tratou como filhos. Com as aulas já longe e a graduação, para muitos, com o fim desejado, o intercâmbio vivido foi de amizade e companheirismo. Promessa feita um mês antes, a última noite à grande no Rio foi numa boite funk ao rubro, a reconhecida Baronetti. Mais uma vez incendiámos a pista, mostrando que apesar de cepos no samba e forró somos funkeiros sensuais promissores.
Alguns copos esvaziados e lágrimas do fim afixado vertidas, chegou ao fim a última grande noite em terras do pau Brasil.
Para o último dia ficou reservada uma pelada no areal cheio de cocos plantados, com uma galera anónima. O pôr-do-sol mágico do posto 9, espreitando agora na floresta da Tijuca, manchou o céu de uma tonalidade laranja e rosa verdadeiramente magnífica.

Últimos dias no Rio

Réstea de três dias de estadia no Rio de Janeiro, cidade maravilhosa e vivida como tal, foram momentos de amálgama emocional.
Estar num local que nos diz tanto, com data e hora de fim anunciada e mais do que confirmada é cárcere agrilhoado.

Neste período senti-me um estranho na minha casa, ou deverei dizer, na casa que um dia foi minha. Ser convidado na nossa própria casa é uma sensação deveras estranha. Um mês de viagem por terras perdidas, foi o suficiente para à chegada ao 968 encontrarmos novos inquilinos. Felizmente tratava-se da irmã do Zé, mais nova contemplada com uma estadia de um ano no Brasil, poupando-nos assim ao chão quente e calcorreado das ruas ou a frieza hoteleira. Pior só mesmo as miúdas do Leblon, desterradas em casa de familiares em Granjaú, norte carioca a hora e meia de ônibus, em dias de bonança automobilística, da redoma sul do Rio de Janeiro.
Arrumar malas, organizar memórias, distribuir prendas e beijos a quem marcou foram mato nestes dias. Com agenda preenchidíssima, abracei o Rio, de alma solta e solitariamente acompanhado pela minha segunda cidade natal, apenas nas idas madrugadoras ao surf ou no areal de Ipanema em fim de tarde crepuscular.

Mais quente, é certo, quando cheguei dei de caras com o mesmo Brasil que agora deixo. Com as férias de Inverno, as praias voltaram a encher-se da agitação relaxada, de quem está de folga ao trabalho a reinar nas ruas.
Ingénuo e desconhecedor, tudo o que estranhei ao encontrar uma realidade tão díspar, entranho agora com consciência formada. O calçadão outrora apenas e só palco da "sunga noveleira" revela-se agora passadeira vermelha no caminho térreo do 968, porta que em breve se trancará…

Rio - Último Aeroporto do Aeropass

O fim da jornada transfronteiriça, pregador do apocalipse, foi marcado por um estágio em avião de média duração desde São Luiz até ao Rio, para as 10 horas atlânticas que nos esperam.
A estadia no Rio de Janeiro é passageira. Três dias para rever caras conhecidas, dar as últimas despedidas, conhecer os últimos locais e acima de tudo para reter os melhores momentos que fizeram deste oásis de cinco meses e meio o melhor período da minha vida. Afirmação fria, podendo mesmo transparecer alguma leviandade, egoísmo ou até mesmo egocentrismo, correndo o risco de pisar essa linha discordo.
Verdade que a família está distante, mas apenas fisicamente. Novas tecnologias e ausência física de quem temos por certo, desenvolvem envolvimentos não previstos. Os laços criados intensificam-se, elevando o nível da relação. Pensamentos e preocupações outrora mantidos no anonimato ou no seio de amigos, são agora partilhados e debatidos sem cerimónias hierárquicas com as instâncias superiores.
Emancipação ou esboço de vida adulta, nos últimos meses demos os primeiros passos nesse caminho irreversível.

Quanto aos amigos, conselheiros e observadores distantes da vida que não lhes pertence, mas felizmente compartilham, recebem o prémio de seis meses de ausência com histórias e imagens de vivências em segunda mão.

Dia Zen

Manhã cedo e depois de uma noite de vaquejada, festa local semelhante a rodeo, optámos por uma terapia de relaxe em grupo. Junto com um grupo de tugas de quem nos havíamos amigado na Lagoa Bonita dos Lençóis Maranhenses, descemos ao sabor da corrente o Rio Cardózia. Deve ser a viagem proporcionada pelas agências de turismo mais lucrativa. Após um passeio de jardineira Toyota despejam-nos no meio da selva arborizada. É ver os parolos quase pelados no meio da mata, envoltos em bóias ou coletes salva vidas saltando de pedra em pedra até ao riacho, tartaruga das correntezas. Ainda assim a tranquilidade sentida é compensadora. Descer o rio na onda rasa, sem pressas, à conversa entre amigos ou simplesmente contemplando a natureza envolvente é um autêntico spa de anestesia natural.Com a Andreia e o António, turistas do mundo, descemos o Rio Preguiça até à foz numa voadeira rasa. Num rio largo ladeado por manguezais densos, entrámos numa outra dimensão. Aqui e acolá em amontoados de areia bordejante dos Pequenos Lençóis do Maranhão, brotam famílias de seres humanos genuínos. Completamente isolados do mundo, vivem em palhotas, cuja comodidade se resume ao tecto de colmo e redes brasileiras. Sem vizinhos, a economia em paredes foi uma opção sensata.Vivendo da pesca, cabritos e actividades recolectoras (ainda há gente que vive assim) subsistem nas margens do Preguiças alimentados pelo ócio de uma rede pregada em dois postes e pelas miragens diárias de barcos turísticos passageiros.
Os Pequenos Lençóis são de facto “mais anões” e a área ocupada incomparável mais pequena, mas dotados de uma imponência impressionante.
Tuaregue em terra inóspita, percorrer dunas cândidas todas elas gémeas, com declives bem acentuados, é uma sensação de isolamento esmagado pelo holofote solar. Por pouco mais de meia hora fui protagonista de um monólogo, teatro da vida, ensaiado num palco natural com foco cimeiro a acompanhar e areias traquinas de finura capilar a entranharem-se em todos os poros.
A paragem final foi em Caburé. Num vilarejo piscatório onde mar e rio acariciam margens paralelas distanciadas por pouco mais de 100 metros, a simplicidade autóctone é humanamente dignificante. A estadia foi curta mas ainda assim suficiente para uma pelada no areal de Caburé, com um gang de jovens vedetas brasileiras. 5 meses de pit stop futebolístico não foram suficientes para obscurantizar alguns dotes artísticos…Debaixo do olhar atento e agradecido de uns quantos pares de azeitonas escurecidas, afastámo-nos refastelados na voadeira, deslizando nas águas tranquilas de fim de tarde do Preguiça.

Paisagem Lunar

Chegar a Barreirinhas pensando que os Lençóis são logo ali é uma ilusão que roça as miragens do deserto. Numa Toyota jardineira com caixa traseira aberta e assento para 12 pessoas, atravessámos alguns quilómetros de mata catinga densa, até atingir a região dos Lençóis.
Cada fila de bancos teria hipoteticamente 4 lugares mas as vergastadas com que eu e o Zezinho éramos infligidos pela verdura agressiva, depressa fizeram ver que ir ao colo do Pita e do Kiko, não obstante o cenário gay prontamente reconhecido pelos restantes tripulantes, era a solução mais acertada.
Em caminhos de areal solto e condução Playstation do motorista, valeu a força da Toyota para não ficarmos atolados. No final da trilha, um paredão enorme de areia com algumas dezenas de metros de altura pôs fim à catinga brasileira. Um cenário assim só mesmo no Jurassic Park do Spielgberg.
A surpresa estava, no entanto, mantida em segredo. Subir a duna pé descalço, tendo por meta apenas um muro de areia e céu azul no cimo assemelha-se às escadas para o paraíso inatingível. Surpreendentemente, a paisagem que se avista do cimo é mesmo o paraíso na terra ao alcance do olhar desarmado. Chegando ao topo do paredão somos trespassados abruptamente por uma paisagem lunar que se estende por quilómetros a perder de vista. Dunas de areia branca até ao zénite, pinceladas por lagoas de água límpida a reflectir o azul altivo, foi o nosso presente de fim de viagem. Tarde de correrias e rebolões duna abaixo, estatelamento na água e croquetes dourados pelo sol, tiveram como ponto final a visão única do pôr-do-sol num deserto de lagoas sem pinta de civilização por perto.
Contínuo a preferir o mergulhar da rodela nas águas distantes do oceano, mas pela diferença, nitidez e semelhança com a imagem satélite de Júpiter envolto em seus anéis, o pôr-do-sol no horizonte "dunesco" com a laranja a infectar aqui e ali lagoas dispersas, é simplesmente do além…