Alheio à reunião matemática o voo de ida para Tenerife ia-se posicionando na pista. Com os ponteiros alinhados na hora da partida e os porões fechados, surtiram efeito os lindos olhos da Alice e o meu sorriso para persuadir as hospedeiras a deixarem-nos entrar no avião. O voo quase deserto acentuava os olhares mistos de cólera e ânsia dos restantes passageiros e destacava as múltiplas violações dos códigos de segurança aérea latentes nos inúmeros sacos que oscilavam nas nossas mãos. Desde frascos de cosmética a cavilhas e martelos de campismo tudo entrou no avião. Felizmente faltei à aula de bombas e sequestros…
Quarta-feira, Dezembro 17, 2008
Às voltas com a matemática
Alheio à reunião matemática o voo de ida para Tenerife ia-se posicionando na pista. Com os ponteiros alinhados na hora da partida e os porões fechados, surtiram efeito os lindos olhos da Alice e o meu sorriso para persuadir as hospedeiras a deixarem-nos entrar no avião. O voo quase deserto acentuava os olhares mistos de cólera e ânsia dos restantes passageiros e destacava as múltiplas violações dos códigos de segurança aérea latentes nos inúmeros sacos que oscilavam nas nossas mãos. Desde frascos de cosmética a cavilhas e martelos de campismo tudo entrou no avião. Felizmente faltei à aula de bombas e sequestros…
Quarta-feira, Junho 04, 2008
La Graciosa
Terça-feira, Junho 03, 2008
Parque temático
Sexta-feira, Maio 30, 2008
Viagens
A separação dos facto reais e dos factos imaginários é feita por uma linha ténue e de fácil transposição. A dado momento revejo-me perante a impossibilidade de conseguir destrinçar o que foi real do que foi pensado e mais tarde arrebatado como experiência real. As imagens nostálgicas de ontem misturam-se na tômbola da criatividade com sensações e emoções por vezes inconscientes, muitas das quais guardadas para a posteridade como factos. Na fotografia não figura esta pessoa, este objecto ou este acontecimento mas inconscientemente podia jurar que aquela pessoa, aquele objecto ou este acontecimento estavam na fotografia original. É um paradoxo sensorial mas que leva a uma questão, o que são de facto as nossas viagens? Bilhetes de avião e comboio, marcações em hotéis, tickets de entrada em museus e assinaturas de presença ou as divagações sensoriais que guardamos dos momentos que vivemos? Mais ainda, será mesmo necessário sair para viajar? Obviamente que tem potencialidades para ser mais saboroso, ainda assim não é garante suficiente.
Acordei hoje com os olhos inchados de imagens de sonhos por onde divaguei noite dentro sem nunca sair do meu quarto. Dado o meu passado de viagens parece um pouco absurdo mas a verdade é que hoje apetece-me de novo viajar. Olhos fechados ou abertos não importa muito porque a verdade é que hoje acordei longe, ainda que o espaço físico que me cerca me queira persuadir do contrário. 
Manhã cedo com o sol a raiar nos vidros foscos da janela levantei-me de mansinho. Pelo chão a roupa largada ao abandono de quem por impulso frenético se livrou de todos os embaraços têxteis. Cerro os olhos e sou corroído por uma onda de saudade. Na agenda uma visita ao mercado e um passeio pela marina. Cidade pequena de casas baixas e ruas largas, emana áurea de cidadela de província no centro do mundo. Palmeiras imperiais e árvores frondosas de verde intenso e ornadas de flores violetas dão um colorido alegre ao Downtown. O calor tímido da manhã faz esquecer por momentos que estou na Califórnia. “Temos um microclima” dizem eles em tom de jocoso. Todos os dias é assim, mal a noite usurpa lugar ao astro sol, trata de invadir a atmosfera com gases frios e húmidos do mar. O mar sereno pacifica as marés vivas televisivas e as focas e leões-marinhos protagonizam as Pamelas de Santa Mónica.
No shuttle do Downtown uma miscelânea de línguas do mundo. Inglês, espanhol e asiático (perdoem-me a generalização mas a origem específica dos olhos em bico é chinês para mim) atropelam-se entre os solavancos do eléctrico fazendo-me por vezes questionar se estarei de facto nos Estados Unidos da América. Uma rua fechada ao trânsito está hoje em rebuliço como esteve outrora o Norton de Matos quando o Samambaia assistia de camarote à feira de rua. É o mercado dos produtores. Laranja, bananas, avocados, cerejas e verduras, a variedade é semelhante à encontrada do outro lado do oceano. O aroma de rosas obressai no ar impelindo-me até à banca da florista. Senhora simpática dos seus 50 anos recebe-me com um sorriso e um “Hello” afável. Sou cliente habitual! Com sacos cheios e um sorriso de missão cumprida, retomo o trilho para casa desta vez a passo vagaroso. Já dentro do shuttle deparo-me com o tema do dia: “a má prestação do Bush”. Três velhotes substituem o banco de jardim pela janela panorâmica do eléctrico para confraternizar pela manhã. Ao chegar a casa avisto o mar azulão ao fundo da rua que assiste debruçado no parapeito ao rebuliço matinal. Pede licença para entrar mas a energia fraca das ondas pouco ajudam na transposição do areal que o separa da avenida marginal com nome de navegador português (e esta ein???). Entro em casa com a excitação própria de um dia festivo. Aos pés da cama pouso o ramo de rosas e uma nota em papel perfumado. Abro a janela para o amanhecer correr e para revelar a passarada de corvos e gaivotas que todas as manhãs travam combates pelo melhor pedaço de lixo. 
Meio sonâmbula levanta-se e vê o quarto deserto. Fica no entanto desde logo inebriada pelo aroma forte das rosas amarelas ao fundo da cama. De sopetão e apesar de os olhos lutarem contra a claridade levanta-se e vê a nota “Cara linda espero-te na praia!”. Sem preocupações de moda pega nas primeiras roupas que encontra. Uma hawaiana de cada cor e um camisolão que lhe pertence apenas por afinidade são as peças gritantes do conjunto. Desconhece o caminho mas o chilrear das gaivotas e a brisa de mar que acaba de acordar encaminham-na na direcção certa. O brilho no olhar intensifica-se a cada passo mais próxima da praia. Um veleiro na baía chama-lhe a atenção mas é o bote parado na praia que mais a atrai. Vem a passo confuso, ora lento ora acelerado, reticente quanto a apressar a surpresa ou atrasá-la para melhor a saborear. Os últimos metros denunciam-na e é em passo de corrida que chega à beira-mar.
“Parabéns Princesa!” Apesar da fantasia de lobo de mar reconheceu a voz meiga. Abraçou-me como era seu desejo há muito. Não chegámos até ao veleiro. Outros príncipes e princesas haviam requisitado os seus préstimos. Ali ficámos sentados na areia encostados ao velho bote na letargia da paixão. Ao lado uma toalha de piquenique decorada com cerejas e morangos vermelhões de volúpia, sumo de laranja doce de ternura e pão com queijo e marmelada...
Viajei sem sair do meu quarto, sem sair da cidade que me acolhe. Sem respeito pelo tempo, troquei datas e tornei possível a combinação de acontecimentos desencontrados no tempo. Hoje fico-me pelos sonhos pois em nenhuma agência encontrei viagem tão perfeita. Alucinação criativa, dirão. A intensidade emocional desmente. Realidade ou devaneio ficou gravada na memória como viagem...
Sexta-feira, Maio 23, 2008
Genealogia
Segunda-feira, Maio 19, 2008
Ainda há esperança...

Segunda-feira, Maio 12, 2008
Sahara Canário
Sábado, Maio 10, 2008
Campismo selvagem
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Sexta-feira, Maio 09, 2008
Paisagem protegida


Segunda-feira, Maio 05, 2008
Fuerteventura - Ilha Selvagem
Quinta-feira, Maio 01, 2008
Voltas e voltas
Alguns milhares de metros acima do comum dos mortais e com a cabeça atulhada de vozes íntimas com conselhos díspares, dei comigo a sofrer de alucinações. Ao olhar pela janela (sim a janela do avião) tive um déjà vu. Quase podia apostar que uns minutos atrás tinha passado naquele mesmo local. A insanidade costuma ter causas mais fortes e o jet lag de uma hora não seria suficiente para justificar tamanha paranóia. Mais uns minutos e nova passagem. Debaixo dos meus pés, até onde a vista conseguia alcançar, um amontoado de luzes dispostas numa forma peculiar parecia não querer desgrudar do avião. O avião andava às voltas. Círculos cegos em torno de um epicentro de luz difusa na superfície do planeta. Ao meu lado a grande maioria dos passageiros alheios ao sucedido regurgitavam-se numa sesta ligeira. No entanto, a voz do altifalante atingiu todos por igual. Uma nuvem irrequieta teimava em ver o amanhecer nos céus de Girona. Nada a fazer, o avião teria de ser desviado. Estavam inocentes desta vez os terroristas já que o 11 de Setembro ainda estava longe e por hora não se afiguravam mais poços de petróleo para monitorizar. Sem voto na matéria a escolha foi o aeroporto de Valência. Pelo ar um saltinho mas por terra 5 horas de distância. Postas de parte as 4 horas que dispusera para estender o saco de cama no aeroporto de Girona, começou então a tornar-se mais certa a hipótese de perder o avião do dia seguinte para Fuerteventura. Um dia perdido em viagens e expectativas de um desejado reencontro aparentemente arruinadas. Este era o cenário quando nova voz num espanhol de cão indicou que o avião ia dar mais meia volta e aterrar no aeroporto de Réus. Menos mal, afinal de contas fica apenas a 2 horas e meia de Girona. Uma pergunta ecoou-me então, “Réus tem aeroporto?”.
O nevoeiro era tal que só ao sentir as rodas roçarem o solo me apercebi da existência de um aeroporto. No chão mais 8 aviões de portes diversos enchiam o pequeno aeroporto aparentemente ainda em obras. Sem chá nem bolinhos, o comité de boas vindas tinha apenas como oferta de consolo uma notícia ainda mais desagradável. O microclima daquela noite tinha obrigado ao desvio de cerca de uma dúzia de aviões. Sem logística assegurada para breve os passageiros lutavam agora por um lugar num dos autocarros que iria fazer a trasfega da carne humana até Girona. Correrias, empurrões, encontrões e trocas de impressões em alta voz, a confusão era tal que por momentos julguei-me no meio da feira do Norton de Matos em plena Espanha. Habituado a multidões senti-me nas minhas sete quintas e foi com relativa facilidade e sem perder pele pelo caminho que surripiei um lugar no autocarro.
Descansado e a caminho de Girona foi então que fui informado que as confusões estavam agora ainda no inicio. De espírito rebelde como uma ovelha negra, o meu autocarro tinha-se perdido do rebanho e estava agora em parte incerta. Como anjo salvador uma trabalhadora da noite que entre uma e outra proposta indecorosa indicou ao motorista o caminho para o abençoado aeroporto de Girona. À chegada a única notícia boa da noite. Em 15 voos marcados para descolarem apenas dois não haviam sido cancelados. Um deles era o meu…As dificuldades não arrefeceram palpitações e derrubadas as barreiras de hesitação estava por fim no País das Maravilhas...
Terça-feira, Abril 29, 2008
Decisões
Tento encontrar uma justificação lógica para o rumo dos acontecimentos. Um indício de racionalidade em todo o percurso tortuoso que me trouxe até este preciso instante. Demito-me dessa função antes de chegar a qualquer conclusão. A vida é afinal feita de escolhas. No gabinete procuro a solução óptima de todos os problemas. Esqueço que as escolhas que faço na vida são movidas pela racionalidade circunstancial, pela sensibilidade momentânea. Não são óptimas, são apenas as escolhas mais acertadas no milésimo de segundo em que as tomamos. Por hoje fico reconfortado, aconchegado no meu bom senso passado. Se todas as decisões tomadas me trouxeram até este pequeno País das Maravilhas do momento então terão sido as decisões mais acertada. Durante dois meses guardei na gaveta das minhas memórias a história de onze dias da minha vida. Na verdade onze dias mágicos. O adjectivo conduz para o campo do imaginário e surreal mas bem vistas as coisas essa será a forma mais fidedigna de caracterizar a minha estadia nas Canárias. Território desconhecido, o Arquipélago das Canárias figurava no meu mapa apenas como uns pontos áridos na costa africana e como lar do Nobel Português. A insularidade tem no entanto uma aura mágica. Um magnetismo estranho que fez com que até ao momento todos os contactos que tenha tido com tais territórios me tenham dado alegrias normalmente pouco atreitas aos territórios continentais.
Nas Canárias as dúvidas dissiparam-se e os receios foram esmagados pelo futuro risonho que se acercou. Para a história ficam os relatos censurados de uma Lua Mel pressagiada.
Domingo, Abril 27, 2008
Queda livre
Não fosse o custo exagerado diria que seria experiência para repetir. Mais um capítulo cumprido e menos um item a adicionar à lista de coisas que gostava de ter feito…
Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008
Karneval in dem Reich
Quarta-feira, Dezembro 12, 2007
Funciona?

Terça-feira, Dezembro 11, 2007
Areal branco
Terminada a noite parece também o mundo ter esquecido a realidade deixada para lá da cancela que separa a península de Varadero. Um dia de sol estupidamente quente onde a própria brisa cortava a respiração. Um dia de lassidão debaixo dos chapéus de chopo, comida farta a todas as refeições e mordomias hoteleiras. Entende-se facilmente a atractividade destes locais como destinos de viagens de finalistas. Finalistas do secundário, da licenciatura ou mesmo das preocupações que nos rodeiam… Domingo, Dezembro 09, 2007
Pombal Humano
Sábado, Dezembro 08, 2007
Che, Ícone Revolucionário
Quinta-feira, Dezembro 06, 2007
Lagosta Suada
Esta é uma experiência impossível para os Cubanos. Por um lado o clima equatorial. Apesar da existência de uma estação do ano apelidada de Inverno, trata-se apenas de uma colagem às designações dos povos que descobriram a ilha. Na verdade o clima varia entre o Verão escaldante e a Primavera amena, entremeado de tempos a tempos por alguns visitantes ventosos com nome de mulher. Por outro lado a lei estatal. Causa incredulidade, mas a verdade é ir à praia no Inverno é proibido nas zonas turísticas. Do cimo da minha ingenuidade calculo que seja para prevenir os surtos de gripe, afogamentos e indigestões… Não que seja frequente ver cubanos a gozar férias de papo virado para o ar, mas as praias junto aos hotéis são escritórios de actividades muito lucrativas. Para ter acesso à fonte uma caminhada longa. As praias são públicas mas os acessos não tanto; há que contornar os loteamentos hoteleiros que formam autênticas muralhas entre o interior e o mar aberto.
À hora marcada, 10 quilómetros a sudeste lá estava a rapariga. Vi-me então num filme de espionagem e contrabando. A moça não voltou a falar comigo. A comunicação foi feita através de intermediários e por entre mergulhos nas águas cálidas. Como correio bombista pousei a encomenda no meio da praia na terra de ninguém. Minutos mais tarde a encomenda encontrou o seu destinatário. Um sorriso sincero e agradecimento distante foram as retribuições face à insignificância do meu gesto. Minto, ainda que inesperadamente recebi também umas marocas handmade, também elas cuidadosamente abandonadas. O cenário entende-se perfeitamente se se souber que a mendicância é uma actividade ilícita e punida se apanhado em flagrante delito.Escapar ao controlo omnipresente do estado em todas as transacções comerciais é a forma de sobrevivência de grande parte da população. Os produtos são desviados dos armazéns do estado para o comércio paralelo, ou como se chama noutros países mercado negro.
Bem vistas as coisas o jantar foi um sucesso. Lagosta grelhada suculenta com molho picante, frutas tropicais e uma aura conspirativa a modelar o ambiente. Para trás ficam a possibilidade de jejum depois de um bate face com o chefe de cozinha e da ameaça séria de sermos apeados ao nosso destino no meio da povoação. Tudo não passa afinal de estabelecer limites. Eles conhecem os deles e nós apalpamos os nossos. Algumas cedências de parte a parte e finca-pé nas posições defendidas restabelecem o equilíbrio…
Terça-feira, Dezembro 04, 2007
Propaganda
Sexta-feira, Novembro 16, 2007
Trindade - cidade museu
Domingo, Novembro 04, 2007
Embargo selectivo
Curioso é o facto dos cubanos não serem aparentemente capazes de produzir sequer produtos alimentares primários, mas terem agilidade e desenvoltura para criar refrigerantes iguais à Coca-Cola ou à Fanta. Muda o rótulo mas o sabor é igual. Conseguem aquilo que dezenas de marcas em todo o mundo tentam há anos sem resultados. A motivação é diferente, afinal de contas nestes casos trata-se de mostrar que são capazes de competir com alguns dos símbolos dourados do capitalismo americano.
Paradoxo, palavra comum mas de explicação confusa. Em Cuba os exemplos de paradoxos são aos mil. Privados de todos os bens possíveis e imaginários os Cubanos vêem os seus visitantes serem presenteados com tudo o que há de melhor. Serão os hotéis e complexos hoteleiros como principados, autênticas ilhas fiscais de recepção de produtos importados? A resposta poderia ser complicada, porém as justificações por detrás destas constatações ferem pela simplicidade e carácter desumano da raça dita humana.
Todos os dias grandes empresas estrangeiras, incluindo das moralistas norte-americanas entram no porto de Havana e despejam os seus produtos. Como? Simplesmente pagando a multa por quebrar o embargo. Nos hotéis os preços a que são vendidos os produtos superam a taxa de multa e ainda proporcionam lucro suficiente para todos os intermediários. Já ao povão não chega nada pois não tem sequer capital para justificar o pagamento da multa da imoralidade. Num hotel uma Coca-Cola custa 2 pesos, o equivalente a um quinto do salário médio dos Cubanos. Em Cuba entupir um cano fica caro…
Não fosse o desconforto sincero pela pobreza omnipresente que enleou os meus sentidos diria sem nenhuma restrição que viajei sempre confortável em autopullmans de luxo. Pelo óculo da vidraça vi os poucos autocarros citadinos que se arrastavam como caixas de latão a carpir os seus pecados pelo arrojar pesado no asfalto dilacerado. Como explicar o paradoxo? Mais uma vez a simplicidade toma o pulso da razão. Numa atitude de solidariedade que demonstra a união da América Latina o governo de Lula agraciou a ilha de Fidel com uma remessa de autocarros de luxo da empresa Marco Pólo. Ablução de imagem ou altruísmo franco, a verdade é que os ditos autocarros foram entregues como um donativo e portanto livres de taxas de quebra de embargo. Curioso é saber que quando estes presentes derem o berro também os turistas vão ter de andar à boleia. Uns para o trabalho, outros de mala às costas, todos alinhados nas estradas pelas pinturas do embargo…
Quarta-feira, Outubro 10, 2007
Declínio Ideológico
A sociedade perfeita surgirá pela revolução, não um motim sectário e imposto, mas antes um movimento global fruto da insatisfação interior e impossibilidade de continuar a pactuar com as injustiças impostas.
Confesso a minha ignorância e pouca disponibilidade de raciocínio para atingir a profundidade do pensamento. Assim era até ter pisado solo cubano. Ainda que longe da presciência descrita, em 1959 o que ocorreu em Cuba parece-me ter sido algo semelhante, a gota excedente de um vaso sem fundo há séculos. Um momento raro de união da maioria silenciosa em torno das desgraças vividas, das arbitrariedades impostas e das iniquidades sentidas, prontamente mobilizada por um grupo de combatentes para entregar à população a carta do seu destino.
Encerrar o colonialismo (verdadeiro ou dissimulado) e sanar todas as feridas e injustiças por ele geradas é prioridade número um em qualquer revolução popular. A nacionalização de empresas, propriedades e bens privados foi a primeira consequência desse saneamento justo. Danos colaterais claro que os houve e a prová-lo a primeira debandada de cubanos para a costa dos estados unidos. Em boa verdade e apesar das injustiças pontuais, eram, na sua maioria, os beneficiários directos ou herdeiros dos privilégios concedidos pelo poder cessante. A comparação pode parecer extrema mas diria ser um exemplo "caribenho" da fuga dos portugueses das colónias do estado aquando da declaração da sua independência. Cada caso isolado um drama de família, mas compreensível em nome da causa do novo país e da equidade popular.
Como todas as ideologias e movimentos, por mais genuínos e justos que sejam na sua génese, após se afirmarem degeneram. Destronada a utopia remanesce o carácter humano, falível e oportunista.
O declínio ideológico é hoje bem visível no choque geracional de mentalidades. Socialistas arreigados, os cubanos da revolução continuam a defender e acreditar na praticabilidade do sonho encabeçado por Fidel. Os filhos da revolução por seu lado, alheados do passado e da pesada herança que receberam, desligaram-se dos valores de colectividade imprescindíveis para a aplicação do socialismo. Por mais racionais que sejamos, seremos sempre na essência um ser animal, produto da evolução darwiniana onde a lei do mais forte vigora. Como compatibilizar a selecção natural com um sistema que tenta igualar todos os homens?
O sistema utópico idealizado por Fidel e Ernesto Guevara começa hoje a ruir internamente pela descrença e falta de motivação do povo que um dia acreditou ser possível a criação de uma sociedade justa e igual. A nova classe politica emergente apesar de isolada do estrangeiro parece ter propensão inata para assimilar os vícios dos políticos ocidentais. Sem grandes condições e desalentados pelas baixas expectativas os cubanos são um povo amorfo.
Ao contrário da primeira debandada, nas últimas décadas assistimos a fugas diárias em pirogas de papel de pessoas que nada têm para além da sobrevivência diária e ambição humana censurada.
A procura de igualdade e manutenção de condições de vida humanas para todas as almas é a nota 10 desta utopia, mas porquê nivelar todo o mundo por baixo? Será uma barbaridade tão grande e impossível de realizar o nivelamento pela mediania?
Domingo, Outubro 07, 2007
Embargo mental
A descobertas das Caraíbas pela frota de Colombo abriu o paraíso balnear aos olhos do mundo, mas assinalou também o último dia de verdadeira independência dos Cubanos (sejam eles quem forem). Chacinados ou vergados pelo peso do trabalho e das enfermidades que desconheciam, em Cuba como de resto nos restantes países da América, os Índios foram os primeiros a sucumbir. Iniciou-se o reinado castelhano e com ele a criação do povo cubano. Uma moxinifada de índios, colonos espanhóis e escravos negros do coração da humanidade, os verdadeiros colonizadores genéticos do novo continente. No final do XIX século chegaram os novos amigos de Peniche. Olho ávido pelas terras doces de Cuba, foram os Norte-Americanos que deram a ajuda decisiva para a libertação do opressor ibérico. A lufada de ar fresco depressa se revelou brisa ligeira. Usando presidentes fantoches para disfarçar o poderio, os Estados Unidos tornaram-se os novos senhores da ilha do caimão, continuando o povo agrilhoado às inclinações dos governadores.
Números de circo encenados repetidamente enevoaram intenções revolucionárias pontuais, substituindo marionetas gastas por outras aparentemente patrióticas e imaculadas aos olhos inocentes do cubano esperançado. O carrossel continuou a girar de feição para os norte-americanos até 1959.
1959 poderia ter sido a data de descolagem do povo cubano, mas infelizmente assim não sucedeu. A nacionalização dos bens e negócios “legalmente” usurpados pelos norte-americanos levou ao corte de relações. Não se tratou de retaliação por violações de direitos humanos mas somente pela perda dos negócios milionários da cana-de-açúcar em solo cubano. Sem apoios externos nas áreas circundantes cederam à tentação soviética. Ainda que diferente, assistimos até à queda da união soviética do colonialismo dos tempos modernos. Em troca de apoio à causa soviética, os cubanos passaram a receber produtos vetados pelo embargo. Em todo este processo subsistiu sempre um erro crasso, nunca em Cuba se desenvolveu agricultura, indústria ou comércio dignos de tal nome. A queda da União Soviética foi assim mais uma machadada no projecto socialista de Fidel.
O embargo económico decretado há cerca de 50 anos poderia ter funcionado como estímulo à economia interna. Sem concorrência exterior seria de esperar que a produção cubana prosperasse. Assim não aconteceu. Como indústria pouco mais têm para oferecer do que rum e charutos e a agricultura é inexistente. É revoltante atravessar um país de prados verdes e terra rica com pouco mais do que meia dúzia de campos plantados. Como compreender que a maioria da população não tenha leite com tanta terra para criar gado? É o socialismo do faire rien.
Quinta-feira, Setembro 27, 2007
Museu Automóvel
Quinta-feira, Setembro 20, 2007
Ballet da Putaria – parte II
Pela proximidade e clima a comparação com as “bailarinas” brasileiras é inevitável, não pela repetição dos passos indecorosos frente aos hotéis de Copacabana mas antes pela escolha de coreografias estudadas. Graciosas e cobertas por tecidos vistosos, as cubanas que se pavoneiam nos hotéis têm traços distintos da prostituição banal dos países subdesenvolvidos. O passo mais acertado, os movimentos discretos ao mesmo tempo que insinuam a imaginação, olhar expressivo e pundonor inabalável conferem ao ballet da putaria cubana um carácter sublime.
A postura é diferente e a prová-lo o desprezo que mostram pelo rótulo estereotipado de prostituta. Na sua maioria mulheres com estudos, utilizam a beleza estonteante das suas curvas corporais para se auto-proclamarem como acompanhantes de luxo. De forma generalizada e com as devidas diferenças serão o que no Brasil se chama de Garotas de Programa.
Intercâmbio linguístico terminado, corpos nus e suados entrelaçados em lençóis impessoais, movendo-se ritmadamente segundo sons guturais de libertação prazenteira, compõem um cenário que me faz duvidar da essência da actividade. Suavizado pela melodia licenciada e trejeitos educados, o fim anuncia-se sempre com o coito e o pagamento de serviços prestados.
Distanciado e preocupado com o bem-estar económico do estado ocorre-me agora uma questão que julgo pertinente. Do director de banco ao arrumador de carros todas as profissões são controladas pelo estado. Será o governo de Fidel o chulo que se acobarda nos becos à espera do lucro orgástico das belas criações da natureza?
Segunda-feira, Setembro 17, 2007
Tropicana, Broadway das Caraíbas
Apesar da denominação e contrariando a prática ainda vigente nos cabarets de Paris o espectáculo não incluía seios desnudos ou movimentos eróticos (uma pena…). No palco sucederam-se danças e cantares cubanos, exercícios de ginástica olímpica e pequenas encenações teatrais. Apesar de distanciada das evoluções culturais dos países ocidentais, a Tropicana exibe um show digno das melhores casas de espectáculo do género existentes por esse mundo fora.
Saindo pelo portão da mansão, todo o glamour esvanece-se novamente. A realidade interina da Tropicana é como uma ilha descontextualizada da pobreza circundante. Separado pelos muros de tijolo e pelo mural da capacidade económica, este é um local proibitivo para os Cubanos. Júlio o taxista do Lada que nos levou de volta ao hotel frequenta todas as noites a Tropicana, mas apenas do lado de fora…
Quarta-feira, Setembro 12, 2007
Coco Race
De regresso ao hotel não fomos apanhados pelos radares de velocidade mas sim pelos fiscais dos transportes. Descrentes do socialismo do povo, todas as profissões são fiscalizadas para garantir que não há fugas aos rendimentos comunitários. Com um polícia por cada 6 habitantes é fácil entender porque é que Cuba é um dos locais mais seguros do Mundo. Seguro e vigiado…
Terça-feira, Setembro 11, 2007
Guardador de rebanhos
A oferta turística algo rudimentar é procurada por uma multidão aparentemente pouco exigente. Oferta e procura distanciadas na evolução, encontram-se em simbiose na junção final. Verdade seja dita que a possibilidade de sair fora dos trilhos traçados pelas mãos “idóneas” das agências turísticas não é grande. Ainda que noutra dimensão, também os passos dos observadores estrangeiros são guiados pelo estado omnipresente visto as agências turísticas serem pertença do aparelho estatal.
O estado encarnando a imagem de Alberto Caeiro, numa versão que contrapõe ao bucolismo genuíno a gestão económica das atracções locais, é o guardador de rebanhos estrangeiros encarregado de os encarreirar para os pastos “culturais” pretendidos.
Originais e genuínas, as fábricas de charutos e rum são a Meca de visita a Havana. Sem possibilidade de poderem exportar os seus produtos, apostam no consumo interno como forma de escoar a produção. O brieffing inicial de apresentação dos meios de produção, inexoravelmente manuais, é sucedido por uma sessão de degustação profunda e comércio ligeiro.
Ser turista em Cuba implica o sacrifício de iniciar hostilidades alcoólicas logo pela manhã. Pelas lembranças juvenis de experiências negativas com o néctar cubano apaguei-o da minha carta de líquidos, mas confesso que conquistou novamente lugar cativo. De manhã à noite, frio ou quente, misturado ou simples o Rum Cubano faz concorrência ao governo em questão de omnipresença.
Fora das grandes cidades o padrão é constante. Para além das praias bordejantes da ilha, a visita às vilas consiste maioritariamente pelo conhecimento do “trabalho manual”. Fábricas artesanais de mil e um produtos, alguns genuínos, outros imitações mundanas encontradas em qualquer país, são o destino dos autocarros turísticos. Fugir ao massacre peditório é quase impossível sendo apenas atenuado se nos distanciarmos do grupo e imiscuirmos nas artérias das redondezas. São momentos breves e ainda assim confinados a um raio de acção pequeno mas que conferem alguma autenticidade no contacto local.
Saídos de Havana em direcção a Cienfuegos fiz a visita mais inusitada desta viagem, uma reserva de jacarés. Da mesma forma que as visitas a igrejas ficaram comprometidas depois da minha ida a Itália, também o contacto com reservas artificiais de animais selvagens ficou manchado depois da estadia no Pantanal. Desconhecido das populações locais, a reserva é ponto de visita obrigatório em qualquer circuito turístico da região central da ilha. Meia dúzia de gaiolas de ferro, umas dezenas de jacarés amestrados e um espectáculo decadente de crocodilo dundee foram as atracções da manhã.
Para terminar com chave de latão um passeio de barco até uma ilha transformada em museu de uma tribo de índios dizimada. Tudo isto seria plausível não fosse o pormenor de se desconhecer se os índios alguma vez passaram naquela zona, ou o facto de os jacarés não existirem naquela região. A comparação é forçada, mas imagine-se uma exposição de ursos polares e esquimós na Holanda…
Domingo, Setembro 09, 2007
Turismo primário
Beleza natural nula, obras arquitectónicas pobres e desgastadas pelo tempo, museus e monumentos uma amostra minimalista e sensabor, em Havana, mais do que em qualquer outro local, o turismo faz-se valer da vivência com a população e observação da realidade diária cubana. Como cartão de visita o apelo ao contacto próximo com o mito de uma das últimas sociedades anti-americanas e resistente à cavalgada triunfal do capitalismo.
Parcial e propagandista, no Museu da Revolução a história recente do país é narrada pelos vencedores em folhas de papel cavalinho enriquecidas na máquina de escrever, recortadas à mão e coladas em cartolinas de papelaria. Enaltecem-se os feitos descura-se a arte de transmissão.
contacto: hugorepolho@hotmail.com