Domingo, Maio 13, 2012

Mobilidades


Meia-noite, o relógio anuncia com indiferença a entrada na última espécie de dia em pátria lusa. O desapego com que o faz chega a ser desconcertante. À simplicidade de mudança dos leds contrapõe-se a dura realidade de abandono do regaço de conforto. O avião é já daqui a umas horas, mas as malas estão ainda vazias; despidas dos objectos que por hora figuram ainda nos locais onde nasceram, uma tentativa ingénua de prolongar o local sentimental desses pedaços da minha existência na Lusa Atenas. Ímpeto inconsciente, afogo-me nas memórias dos últimos anos e enxergo com clarividência perturbadora o padrão de andarilho mundano dos últimos anos, revitalizado nas salvas da multiculturalidade, ferido nas farpas da ausência. Brasil, Califórnia e Suíça… De fora ficam os deleites de ócio, pequenos apontamentos de mobilidade efémera, escapes prazerosos da rotina diária.    


Somos a geração da mobilidade. Principiou como capricho fecundado por imagens e sons livrescos e televisivos que nos emprenhavam os sentidos, urdido pela evolução vertiginosa dos transportes. De capricho deleitoso passou a imposição fruto de políticas que desacreditam as unidades nacionais, proveito de polvos sem país que negligenciam a vida humana em prol de estatísticas de produtividade e da escravidão do progresso tecnológico outrora quimera de bem-estar e promessa de dádiva de tempo para fruir a vida. Vivemos calçados em foguetes como autómatos, uma espécie de sociedade formigueira que busca a felicidade na realização profissional, afogando-se nas malhas do individualismo. Fabricamos bem-estar para ser vivido apenas na publicidade, enquanto esgotamos a ampulheta humana e afastamos a companhia para o viver. Vamos cada vez mais longe, por mais tempo, sem perspectivas de retorno, adurindo os apegos que nos fariam remigrar.
Duas da manhã, o relógio continua impávido e sereno a contabilizar os peões temporais que por acinte estugam a partida. 

Quarta-feira, Abril 25, 2012

Sonholenta Janela

Saio sem partir
Sabendo à chegada
Que nunca deixei

À janela acocorado
Anelo o infinito
Do mundo asseverado

Alento sucumbido à espera
Repulula a anamnésia da vidraça
Molossa de pueril primavera

Assomo à sonholenta figura
Tresmalhado no íncubo
Perdido na minha agrura

Anúncio que cheguei
Abraçam-me sem nunca ter partido


 Hugo Repolho as a reply to “A Casa” de Mia Couto in "Tradutor de Chuvas"

Segunda-feira, Março 19, 2012

Carnaval Protestante no kauai

Deixo os prados Suíços e volto à prenhez hawaiana. O salto temático parece ilógico, desconexo de razão temporal, mas onde o corpo sucumbe à fatalidade da ampulheta, a mente esquiva-se. A alegoria aos bichos da floresta presente em Basel fez-me viajar de novo ao Kauai, e aos seus Carnavais Protestantes no mínimo inusitados. Calendarizada pelo Homem, na Natureza a fertilidade e evolução da vida são celebrações espontâneas e constantes. Embrenhamo-nos na ilha através de um túnel de arvoredo que me transporta para os túneis de ar condicionado natural formados pelas árvores que ladeiam as estradas nacionais alentejanas a caminho do Algarve. O pé direito aqui é mais alto e as árvores de outra estirpe, já o deserto de gente é marca comum. Sem rumo definido chegamos ao fim da linha. Uma estrada cortada por um rio que com a displicência própria dos pedaços de terra esquecidos reocupa a terra reivindicada mas pouco usada pelo Homem. Tornozelos desnudos, pés afogados no leito, cruzo o rio para o lado deslembrado onde a flora parece gozar um Carnaval fora de horas. 

O mergulho na correnteza é a tarifa de entrada cobrada pelo rio, segurança privado da festa. Perdidas no meio da floresta com sala de baile relvada, umas dezenas de árvores esticam-se nos bicos das raízes para ostentar um camuflado de tropa perfeito. Os disfarces não são estáticos e os troncos tingidos de verde alface, laranja solar, verde tropa, vermelho tinto e castanho vão-se mesclando indefinidamente no tempo. Desavergonhado desnudo um dos troncos na procura do arcano. Do castanho para o verde alface as camadas sucedem-se como cebolas. Chegando ao verde entramos na ternura da juventude e o pudor não avança mais na escala policromática. É tão só a marca do tempo registada com cores berrantes na madeira. Uma pincelada de pó-de-arroz congénito para camuflar com vivacidade o tempo que se vai esgotando. Fico rendido à beleza e pacificidade destes tropas. Fiéis puritanos também os há, mas como sempre mais rasteiros. A ostentação pictórica das suas congéneres deixa-os envergonhados a ponto de se fecharem em copas…


Afinal o nosso mundo artificial é uma recriação de conceitos e estruturas que já existem na Natureza. Até mesmo nas festas e modos de celebração… 

video

Quarta-feira, Março 14, 2012

Carnaval Protestante de Basel

 
Confiro de novo o relógio e envergonho-me do meu estado. No meio de cem pessoas do CouchSurfing desconhecidas até há uma hora, amigos de viagem multicultural desde há 30 minutos, convenço-me que desta vez fui longe demais nos prazeres de Baco. Não estou trôpego apesar da leveza de espirito e consigo, com uma desenvoltura assinalável, fazer-me passar por imigrante italiano a falar inglês, mas o relógio assinala o dia 27 de Fevereiro. Quase uma semana depois das cinzas católicas, aqui estou eu, aparentemente, a festejar o Carnaval de rua na cidade de Basel. Apesar da imagem de marca suíça que deixa a pontualidade britânica envergonhada, os relógios carnavalescos têm sangue latino. Sorrio finalmente. Compartilho a latinidade do atraso mas respeito a sobriedade suíça de alcoolémia.
 
Começou como festa da fertilidade (Carnis Valles em latim) na antiguidade clássica, nos primórdios do deboche da carne e das orgias sem horas. Foi resgatada pelo Catolicismo cinzento e de festa da fertilidade passou a última ceia antes dos 40 dias de abstinência de vida. Hoje o carnaval é a perversão extrema dos intentos puritanos da igreja católica. Dissipou-se o obscurantismo e renovaram-se as origens de festa da jucundidade, em muitos casos com aumentos efectivos das taxas de fertilidade (ou pelo menos das tentativas de aumento da dita cuja). Mas os Protestantes Suíços foram mais longe e não contentes com as directrizes libidinosas da festa ousaram mesmo subverter o calendário para poderem festejar o Carnaval em várias cidades não num mas em diversos fins-de-semana ao longo de uns meses. Atitude surpreendentemente ousada para um povo que nas bocas do mundo é dito como comedido.
 
O Rio de Janeiro acorda os últimos foliões ainda perdidos nos areais e os casais voltam à monogamia caseira quando na Suíça a testosterona aumenta. Sucumbe dEUS aos seus deveres perante tamanha perdição, ergue-se o instinto humano para restabelecer as leis de equilíbrio natural desta vez no que toca à reafectação dos níveis de testosterona. Em Basel, cidade Suíça sentada nos calcanhares das fronteiras francesa e alemã, o Carnaval começou no Domingo depois da quarta-feira de cinzas. Nos Passos da tradição os costumes são respeitados e mesmo tratando-se de Suíços a tolerância é, não de um, mas de 3 dias. Regride a produtividade manufactureira momentânea, cultiva-se o alvedrio de a exponenciar nos tempos seguintes. Despidos da frialdade suíça estereotipada, o cortejo é aberto à força das chamas. Piras gigantes, talvez reminiscências das fogueiras que atearam a caça às bruxas, percorrem o casco histórico da vila acompanhadas por uma multidão exuberante. Ao contrário dos católicos na quarta, as cinzas não provocam reflexão sobre a remissão antes da morte; os cinéreos que se entranham na pele estimulam pelo contrário o bródio de prazeres térreos que se inaugura.
 
Confiro de novo o relógio. As minudências horárias mudaram mas o 27 continua lá. Confirmo o diagnóstico, Baco acerca-se mas a data é real e as despesas ficam a cargo da veleidade Protestante. Às quatro da manhã em ponto (relatos há de anos em que o atraso de um minuto foi polémica cantonal) mais de um milhão de foliões transviados das fogueiras ou chegados de uma noite de descanso interrompida, dão as boas vindas ao morgenstreich, uma tradição com sete séculos de existência. Debaixo de um céu de estrelas promovido pelo apagão repentino da selva urbana, grupos de personagens saídos das florestas e dos monstros juvenis invadem as ruas guiados por lanternas que iluminam sátiras e ao som de pífaros medievais. As maravilhosas melodias dizem durar 3 dias, mas, eu confesso que ao fim de uma hora a harmonia dos piccolos (nome dos irritantes pífaros) começou a inquietar-me.
Não é a loucura brasileira e fica um furo abaixo do Carnaval do Mainz, mas dados os padrões locais compreende-se a razão pela qual os habitantes de Basel são vistos como os fetos em má hora não abortados da Suíça. No que me toca, povo que mantém tradições de festa apesar da cabreirice de produtividade impingida merece toda a minha consideração.
 
Despeço-me do cozinheiro francês, da tradutora chilena, da estudante filipina, do retratista alemão, do músico espanhol, e das demais nações representadas por cidadãos do mundo que em trânsito responderam ao apelo dos organizadores locais do CouchSurfing e se juntaram nesta cidade Suíça. Termino a sessão de candeias e pífaros e arrumo o meu disfarce de Giuzzepe o italiano imigrado.
 

Sexta-feira, Fevereiro 24, 2012

Mergulho Verde

Cartão de unicidade, todo lugar tem um símbolo, uma marca de originalidade, seja como destino apetecível ou malogrado de afastamento. São murmurejos inaudíveis de arrebatamento irrefreável que reclamam o viajante, como aos marinheiros as sereias. Na ânsia de beliscar a alma, fui engodado pelos cicios de dois símbolos hawaianos: crepúsculos orlados de palmeiras, engalanadas de preto na contraluz, e surfistas de cabeça-dura mas espírito ligeiro. Foi no Finding Nemo que me foram apresentados pela primeira vez com o epíteto de desportistas náuticos. Delícia de animação gráfica, transpõe para os gigantes amistosos toda a humanidade hawaiana. Nos folhetins de viagens são peças de merchandising, para os hawaianos símbolos de uma paz rotineira incompreensível aos ocidentais, para mim um abraço desprendido de ingresso no planeta virgem.
Os ocasos não são acaso e galanteiam-nos diariamente na imensidão do oceano. Já as tartarugas, pensei a certa altura serem mitos inacessíveis para quem despende uma só semana da vida para os presenciar. Mais um cromo da colecção de expectativas de viagem que vai esmorecendo até passar a bailar na mente como utopia pueril, gerada pela ânsia do desconhecido e dilatada pelo marketing enganoso (dói-me a barriga cada vez que me lembro dos turistas ingleses que fazem safaris no interior algarvio para ver zebras). Porém a fé tem dessas matemáticas estranhas. Custa até vermos o primeiro milagre mas depois sucedem-se em catadupa. Vi a primeira ao fim de seis dias. Deliciei-me com mais de uma dezena de gigantes verdes pachorrentos no sétimo e oitavo dia.
Revivo hoje a sensação inexprimível de me envolver nos mantos azulados lado a lado com estrelas da National Geographic. Dezanove meses atrás, no calor da refrega decerto os meus urros submersos de realização genuína aturdiram toda a comunidade piscícola local. Por entre carícias na carapaça, meneios de cintura como que a testar os limites da interacção e as permissividades na intimidade, damejei-as como adolescente apaixonado.
Abençoado pela generosidade do encontro fortuito vivi mais um sonho de criança e trouxe no cofre das lembranças uma página estampada de seres extraordinários a bailarem a meu lado nas águas azul-turquesa do Pacífico.

Terça-feira, Setembro 27, 2011

Paixão

Olho e interrogo-me, onde está a propalada emancipação feminina? Voltámos ao amor fatalista e às paixões violentas?

Amor à primeira vista ou fruto do acaso, medrou em espaço público, lá onde o recato e a intimidade são ausências, e o alarde é partilha sincera. Relação libertina, na verdade quase promíscua, revela em palco afectos avessos.

Umas vezes sussurra toques de rara sensibilidade. A cabeça cola-se-lhe à face e os dedos afagam-lhe a pele maquilhada, aconchegando notas, em suaves gemidos de puro prazer.

Outras vezes desmancha-se em desabafos de brutalidade extrema. E então é vê-la no ar, a rodopiar, refém dum elo invisível, vítima de pontapés que desafiam a gravidade, cúmplice de joelhos que rangem os limites das suas articulações.

É como que um bailado ritmado de sonhos e tradições, meneado em harmonia pela união paradoxal de ternura e brutalidade. O movimento exalta o som das soalhas que tangem ao ritmo do sentimento e da saudade…

A pandeireta emudeceu-se por instantes, mas o hino à Paixão do Pandeireta continua a ecoar no palco…


Fernando/Hugo Repolho

Domingo, Agosto 21, 2011

Fetiches da alma

Vivemos a vida em busca de sonhos, de fantasias, de caprichos, incessantemente à procura de imagens e sensações que nos preencham. Em cada viagem anseio por beliscões na alma que me despertem da modorra do conforto rotineiro. Uma espécie de cofre inviolável de vivências que me confortam nos outros dias em que existo apenas por obrigação ou necessidade. É isso que procuro quando viajo, coleccionar fetiches da alma.
Saio para o mundo com uma mochila cheia de trapos e alguma maquinaria de estampagem de memórias, na esperança de regressar com a minha colecção de fetiches ampliada. Não passam disso mesmo, objectos, imagens e experiências animados ou inanimados, naturais ou artificiais, realizáveis ou irrealizáveis, mas acima de tudo baseados em sonhos e expectativas que nos elevam a existência e açulam os sentidos.
Por vezes sinto-me um adulto adiado, ainda ingénuo a ponto de forçar a realidade daquilo que sonho, desprezando a probabilidade fatalista da realidade. Nessas alturas sinto-me crente. Piedoso de uma religião sem símbolos fixos, sem rituais impostos, sem heranças rubras, mas com fé em encontros naturais, também eles de realização pouco crível. No fundo é tudo uma questão de fé. Tal como na apostólica, não há espaço para a razoabilidade, apenas o desejo e esperança de despertar sensações. É ainda assim uma fé mais terráquea, ao procurar atingir na Terra aquilo que outros adiam para o firmamento incerto. Cumpro a minha fé na envolvência do mundo vivo, sem necessidade de romarias de terço rezado.

Segunda-feira, Julho 25, 2011

"Viagens Contadas"

Passatempo "Viagens Contadas" da Revista Fugas do Público. Envie-nos um pequeno texto (cerca de 400 caracteres) sobre a grande viagem que nunca fez e que sonha fazer um dia.

O meu prémio chegou hoje a casa :)

Sonho desde criança com o avesso da regra, o escarolado da nódoa, a relação impossível, os lugares inacessíveis, sonho com o inatingível. Tinha 6 anos quando ouvi a palavra antípoda. "Como? Do outro lado do mundo." Foi quanto bastou. "Se é aí, é lá que eu quero ir!" Hoje, 21 anos depois, a proeminência esférica do mundo emagreceu. Inacessíveis só talvez os buracos negros. Porém, a Nova Zelândia, ex Aotearoa, teima em ser antípoda, um canto que me reclama e seduz.


Página do passatempo da Suplemento Fugas do Público.

Domingo, Julho 17, 2011

Escritor à beira-mar

Amanheci hoje ao som do mar. Não um mar ficcionado, desses difundidos em gaiolas radiofónicas de sons da natureza para simular um bucolismo inexistente na selva urbana. Aliás, não deixa de ser curioso o paradoxo. O país onde nasceu a prática dos rituais Zen, ditos de meditação contemplativa através da experiência directa da realidade, vende agora caixas forjadas de experiências indirectas de irrealidade. Não, eu acordei mesmo ao som do mar.
As ilusões nocturnas foram interrompidas pelo respingar dos acordes marítimos através da janela do quarto. Lá fora na baía da Prainha, um Oceano inteiro reveza o galo. As pedras roladas crepitam a cada vaivém das ondas e o sol tímido salpica-me o corpo de raios. As andorinhas do mar completam a orquestra. Uma sinfonia natural sem vozearia humana nem rugidos de maquinaria. Acordo no viridário.

Faz hoje duas semanas que me mudei temporariamente para a Ilha do Pico. Apesar de passageira, a estadia vai ser suficientemente longa para empregar o termo “mudar”. Dois meses de reclusão do grão que impregna a moldura rotineira e obsta a divagação sem amarras. Dir-se-ia reclusão, até agora assemelha-se a um hiato libertador. Ao acordar, a mente ainda pejada de modorra, sorri perante a lembrança do anúncio da Caixa Geral de Depósitos.

“Pensei que a prenda de formatura era apenas uma gravata, mas afinal veio também uma conta. Abri um negócio à beira-mar, faço o que gosto e não abdiquei do meu vício do surf…”

Confesso a deformação de palavreado do slogan original. A lucidez diária tenta ainda emancipar-se das agruras e devaneios da noite e atropela a memória. Mas as ideias beira-mar, emprego de sonho e surf fazem parte do quinhão fiel da mensagem. Cada uma isolada veicula uma sensação de felicidade e realização. Todas juntas transportam-nos para um lugar-comum, um arquétipo de vida ideal. Trabalhar num escritório à beira-mar, longe do bulício urbano e com tempo, esse bem escasso, para dedicar aos prazeres da vida. Como se a maresia transpirasse inspiração e a vastidão azul evadisse os empecilhos criativos e alongasse o tempo.
Desta vez caí no senso comum e as minhas pretensões a curto prazo são banais. Cumprir nem que seja por um curto espaço de tempo o desejo de trabalhar à beira-mar. Dois meses a trabalhar como escritor. Escritor de uma tese, felizmente com data de término saída da neblina e, esperançosamente, dos relatos bloguistas das viagens esquecidas dos últimos dois anos. Cada qual no seu arquivo, sem hierarquia de importância. Quanto ao vício, esse foi arrebatado pelo bom senso. O bom senso de não praticar surf numa baía de pedra aguçada. Fica a minha reinvenção do anúncio…

Pensei não ver o dia de trabalhar com o oceano como pano de fundo. Felizmente juntei dinheiro antes da crise e dos cortes para viajar até ao Pico. Refastelado à beira-mar, escrevo o que tem de ser, mas também o que gosto, dou mergulhos para tirar fotografias aos peixes e traio alguns com o arpão para ter jantar. Ao fim do dia dedico-me às artes da harmónica sem vizinhos para azoar …”

Quarta-feira, Janeiro 12, 2011

Pôr-do-Sol aguarela

Onze horas depois de os meus pais terem visto a Universidade de Coimbra engolir o sol, vejo o naufrágio do mesmo astro no oceano circundante do Hawaii. Funcionário incansável de uma empresa de sonhos e bons presságios à escala planetar, o astro-rei acasala promiscuamente com múltiplos horizontes dia após dia sob o olhar enternecido de amantes. Filmes e postais eternizaram o momento pictórico, mas, tal como a arte realista, não caçaram na plenitude a religiosidade do momento, o fim de ciclo diário em que os Hawaianos renovam o vínculo com a Natureza e fazem as pazes com o Mundo.

Contrario a calmaria circundante e desço a Highway 550 a uns estonteantes 60km hora, deixando no retrovisor apenas uma miragem do Koke’e State Park. Na ânsia de tudo querer ver atropelei os ponteiros do relógio e vejo agora cada vez mais distante a possibilidade de assistir do alto da montanha ao pôr-do-sol no mar. No entanto, a ilha facilita, e sem o tropel de outros viajantes ou autoridades fiscalizadoras dos bons costumes automobilísticos chego ao miradouro por que me embeicei no primeiro dia; uma curva de relevo sobre as fraldas da montanha sobranceira a uma pequena localidade e com vista para a praia dos cães danados. Chego com o mar a morder os perímetros rubros do sol mas a tempo de assistir ao espectáculo de cores do céu. Muita gente agarra-se ao sentido estrito do nome; ocaso, momento em que o sol desaparece no horizonte. Abandonam o local nessa altura cumprindo um ritual castrado. Vivo antes o conceito lato; pôr-do-sol, bailado colorido segundo o qual o sol se deita nas cores quentes e se cobre com um manto de cores misteriosas.
Amarelo, laranja, vermelho, rosa, violeta, roxo, as tonalidades sucedem-se com bailarinas brumosas a coreografarem a cena. É precisamente no momento que a maioria vira costas que o céu se enche de brio e se inunda de cores correndo todas as frequências de luz visível da palete. Possivelmente não descuida as frequências não visíveis e talvez por isso muitos animais escolham também esta altura do dia para porem a cabeça em ordem, para descansaram os olhos no horizonte longínquo em busca das cores que não cansam, da sequência que não sai de moda. Lembro-me da Amazónia onde o acontecimento era diariamente acompanhado por uma sinfonia de ulos animais.
Companheiro de espectáculos vespertinos, um havaiano relaxa os olhos perdidos no céu tal como eu. O sorriso na face verte a ledice do momento enquanto o corpo cansado do dia de trabalho se alonga na traseira de uma Strakar. Como a maioria nesta ilha, cedo vem ao cimo o carácter hospitaleiro e mete conversa connosco. Partilha a paz que o traz todos os dias àquele local. “O amanhã não conheço, mas hoje despeço-me deste dia com pompa e circunstância, e amanhã se existir cá estarei de novo.” Mais dois dedos de conversa e revelam-se as coincidências. Não conheceu os avós naturais dos Açores, gente corajosa que trouxe os genes para o Pacífico, mas guarda com carinho as origens. De Portugal lamenta não guardar mais do que memórias que apenas viveu em segunda mão. Pergunto o nome. “Wapupu Miguel”. O primeiro nome, inventei-o com leveza escriturária (sem chance de reprodução fidedigna), mas o segundo ficou gravado. “Miguel”. Afinal, para além de memórias também ficou marcado à nascença com rótulo português. Desata a rir quando confesso que partilho o segundo nome com ele e que é português. Tão longe e tão perto, afinal somos todos família.


Durante uma semana percorri a ilha de lés-a-lés, algumas vezes sem a dedicação que as paisagens mereciam, mas todos os dias ao fim do dia detinha-me e mergulhava com o sol na quietude. Invariavelmente em praias estranhamente desertas para a época e magnificência da vista, os pés mergulhados no pacífico, a alma pacificada pelo céu. Para além de mim e da Alice poucos, muitas vezes nenhuns, eram os turistas à hora da aguarela; quem ficava a molengar eram autóctones anónimos como o Miguel. Sozinhos, em pares românticos ou no regaço familiar.
Sou um ser estranho; colecciono pacotes de açúcar e bilhetes de cinema onde o filme já não se lê e apenas quem me acompanhou ficou, mas colecciono também momentos de comprazer puro, da comunhão da Terra com o fiel escudeiro a anunciar-me nas cores quentes sobranceiras ao horizonte novos dias que afinal sempre existiram.

Terça-feira, Novembro 09, 2010

Padrão Insular


Arquitectura divina, coincidência fortuita, ou lei natural dotada de inteligência que nos transcende, aparentemente a geo-morfologia das ilhas vulcânicas foi desenhada em série como nas fábricas do Taylor. Primeiro dia de estadia na ilha tropical e o passeio pelo lado sudoeste da ilha mostra-a mais árida do que supunha.
Sem a opulência dos arranjos florais que deram o epíteto à ilha, a ponta sudoeste é opção secundária para os migrantes continentais que procuram casa no paraíso. Desarranjadas mas vividas, singelas mas acolhedoras, nos beirais das casas vêem-se maioritariamente hawaianos autóctones; opulentos de corpo, samoanos nos traços faciais, afáveis no trato, aparentemente felizes e realizados.
De carro em direcção ao sol poente, a terra vermelha dos óxidos, apaixonante do ambiente escaldante do clima tropical transfigura a imagem verdejante e colorida dos postais hawaianos. Um ilhéu ocre contido na insularidade, à partida expectável em África, mas não no meio do Pacífico.


Na cuca ressurgem memórias da praia de Cofete numa viagem às Canárias. Tenerife, Lanzarote, Fuerteventura, e agora o Kauai, todas elas áridas e quentes na ponta sul. Decidida a forma, delineadas as fronteiras com o mar, alçadas as montanhas, talvez a decoração seja o último item da lista de tarefas do criador. Traça as emoções verdejantes pinceladas de flores da esquerda para a direita de cima para baixo. No final do dia, já com as tintas extintas ou criatividade esgotada deixa as pontas sudoeste das ilhas desprovidas de luxúria. Um retrato minimalista da terra na sua origem de beleza pura. O Homem segue as pisadas e as estradas asfaltadas são nestes pontos destronadas pela aventura das estradas poeirentas de terra batida e areia.
No Kauai, os últimos quilómetros no beco sudoeste são uma jornada de solavancos sem fim à vista. Para os mais persistentes um doce no fim do caminho. Uma praia extensa de areia fina e orlada por castelos rochosos cobertos de seres verdejantes oportunistas. A praia deserta, coberta do tom dourado de fim de tarde à nossa chegada, recebeu em boa hora o nome de Barking Sands.



Desenganem-se se pensam ser povoada de matilhas selvagens. Um só animal, azul, enorme, de temperamento inconstante, arremessa do infinito no horizonte ondas tubulares que mastigam a areia com edacidade. Os poucos observadores que se aventuram até ao fim do mundo maravilham-se com o marulhar contínuo do mar a lapidar à boca cheia as conchas milenares. Uma toada cíclica que apazigua almas e franqueia paz à existência.

Terça-feira, Outubro 19, 2010

Hawaii, Totoloto insular



“Vou para o Hawaii.” A convicção da afirmação plena de excitação não deixa transparecer as dúvidas que a decisão exsuda. Fora a magia cinematográfica, o exotismo do pôr-de-sol de postal e o encanto, propriedade gratuita do senso-comum, o meu conhecimento das ilhas é nulo. Como escolher para qual ilha viajar? 7, número pequeno incapaz de completar a caderneta de cromos das duas mãos, é o número de ilhas (o resto são apêndices de terra, parentes terrosos separados por quezílias menores) escrito nos papéis das rifas. A mão digital do Google maps roda o globo com arrebatamento, tornando visível em segundos o que os meus olhos não conseguirão enxergar ao vivo em menos de 24 horas. Longe no imaginário é também local longínquo no globo. Sem muita falta de rigor poderia mesmo dizer do outro lado do mundo. O fuso horário deixa as 0 horas de Greenwitch e cavalga 11 faixas de tempo tabelado até chegar ao Hawaii. Na corrida não atravessamos o Trópico de Capricórnio, nem ficamos de pernas para o ar como os povos da Austrália e por isso o Hawaii é como uma espécie de antípoda, mas no mesmo hemisfério. A câmara colada ao ponteiro do rato entra em queda vertiginosa, uma espécie de salto tandem, o rato controlando a escala, eu no descontrolo das minhas fantasias. Truque de magia moderna, o arquipélago ocupa agora todo o ecrã do computador, todo o ecrã dos meus projectos a curto prazo. Fico toldado pelo facilitismo tecnológico e neste rodar, rodopiar, aproximar e afastar do globo digital perco a noção de escala. Próximas no espaço, ajuntadas na nomenclatura, cada ilha é uma entidade de paraíso para alguém. Já dizia Mia Couto “O paraíso não é um lugar, é um breve momento que conquistamos dentro de nós.” É esse momento que eu procuro, esse pedaço de bem-estar que nos faz voar, mas antes preciso de o contextualizar, de lhe arranjar um lugar para germinar, para eu o poder viver.
Fecho o explorador sem resposta para a minha pergunta. Qual ilha escolher? Ohahu, meca dos surfistas e do Kahuna Eddie Aikau, mas transfigurada pelo crescimento da metrópole Honululu. Carrega a ferida do Pearl Harbour.

Maui, ilha com extensões de praias e corais a perder de vista e do mesmo jeito turistas em multidão. Palavras da minha senhoria ecoam ainda “In Maui you will feel like cattle living in a predestinated path of paradise”.

Hawaii a ilha, não o arquipélago, é o pedaço de terra mais a Sul e aquele que mais tempo levou para irromper do ventre terrestre. Partilha com o povo a obesidade prematura na idade adolescente, em engorda contínua graças aos rios de lava que invadem o mar todos os dias e alimentam as bordas da ilha. Em área é o dobro do Algarve e por isso se compreende a alcunha de Big Island. Grande em área, a Big Island é gigante no imaginário vulcanólogo. Por momentos perco-me nas memórias juvenis das aulas de CTV, leccionada por uma professora que tal como os vulcões incendiava paixões. Vulcões Explosivos, Estrombolianos e Hawaianos em memória dos presentes. Apesar da cor vermelha de raiva ou paixão violenta, os vulcões do Hawaii são pachorrentos. Fora os gases sulfurosos que por vezes interditam as visitas, o Kilauea espreguiça-se encosta abaixo num indelével soerguer manso com medo de acordar a vizinhança.


A delonga na descrição da Big Island evidencia parcialidade na discussão e, não fosse faltar a jóia da coroa, a decisão estava tomada. Kauai, o nome exótico assenta como uma luva à ilha também apelidada de Jardim. Florestas oceânicas, cascatas cinematográficas, recantos de terra trabalhados pela mais experiente das escultoras, praias de areia branca esquecidas, e bicharada aquática com fartura. A genuinidade da natureza encontra também paralelo na presença humana. Harmonioso no trato, colorido nos sorrisos, feliz nas vivências, o Kauai é a mais velha das ilhas do Hawaii.

A lotaria final é fácil de adivinhar, Big Island e Kauai. A primeira pela oportunidade singular de assistir ao nascimento da terra, a segunda pelo romance pintado em telas bucólicas de letargia jucunda. Pelo tamanho que implicaria uma roadtrip equivalente a percorrer meio Portugal e pelo desgosto de poder ficar de fora do parque de partos da ilha, acabei por ceder aos encantos da ilha matriarca.
Sei hoje que foi a escolha certa pois encontrei por uma semana mais uns momentos para juntar ao meu cronómetro de paraísos. Desconfio que a areia na ampulheta da vida não se duplica, nem o gargalo se estreita, mas vivo na ilusão de cada momento de paraíso conquistado ser mais um grão de areia gordo a entupir o gargalo da ampulheta interna.