Terça-feira, Setembro 27, 2011

Paixão

Olho e interrogo-me, onde está a propalada emancipação feminina? Voltámos ao amor fatalista e às paixões violentas?

Amor à primeira vista ou fruto do acaso, medrou em espaço público, lá onde o recato e a intimidade são ausências, e o alarde é partilha sincera. Relação libertina, na verdade quase promíscua, revela em palco afectos avessos.

Umas vezes sussurra toques de rara sensibilidade. A cabeça cola-se-lhe à face e os dedos afagam-lhe a pele maquilhada, aconchegando notas, em suaves gemidos de puro prazer.

Outras vezes desmancha-se em desabafos de brutalidade extrema. E então é vê-la no ar, a rodopiar, refém dum elo invisível, vítima de pontapés que desafiam a gravidade, cúmplice de joelhos que rangem os limites das suas articulações.

É como que um bailado ritmado de sonhos e tradições, meneado em harmonia pela união paradoxal de ternura e brutalidade. O movimento exalta o som das soalhas que tangem ao ritmo do sentimento e da saudade…

A pandeireta emudeceu-se por instantes, mas o hino à Paixão do Pandeireta continua a ecoar no palco…


Fernando/Hugo Repolho

Domingo, Agosto 21, 2011

Fetiches da alma

Vivemos a vida em busca de sonhos, de fantasias, de caprichos, incessantemente à procura de imagens e sensações que nos preencham. Em cada viagem anseio por beliscões na alma que me despertem da modorra do conforto rotineiro. Uma espécie de cofre inviolável de vivências que me confortam nos outros dias em que existo apenas por obrigação ou necessidade. É isso que procuro quando viajo, coleccionar fetiches da alma.

Saio para o mundo com uma mochila cheia de trapos e alguma maquinaria de estampagem de memórias, na esperança de regressar com a minha colecção de fetiches ampliada. Não passam disso mesmo, objectos, imagens e experiências animados ou inanimados, naturais ou artificiais, realizáveis ou irrealizáveis, mas acima de tudo baseados em sonhos e expectativas que nos elevam a existência e açulam os sentidos.

Por vezes sinto-me um adulto adiado, ainda ingénuo a ponto de forçar a realidade daquilo que sonho, desprezando a probabilidade fatalista da realidade. Nessas alturas sinto-me crente. Piedoso de uma religião sem símbolos fixos, sem rituais impostos, sem heranças rubras, mas com fé em encontros naturais, também eles de realização pouco crível. No fundo é tudo uma questão de fé. Tal como na apostólica, não há espaço para a razoabilidade, apenas o desejo e esperança de despertar sensações. É ainda assim uma fé mais terráquea, ao procurar atingir na Terra aquilo que outros adiam para o firmamento incerto. Cumpro a minha fé na envolvência do mundo vivo, sem necessidade de romarias de terço rezado.

Segunda-feira, Julho 25, 2011

"Viagens Contadas"

Passatempo "Viagens Contadas" da Revista Fugas do Público. Envie-nos um pequeno texto (cerca de 400 caracteres) sobre a grande viagem que nunca fez e que sonha fazer um dia.

O meu prémio chegou hoje a casa :)

Sonho desde criança com o avesso da regra, o escarolado da nódoa, a relação impossível, os lugares inacessíveis, sonho com o inatingível. Tinha 6 anos quando ouvi a palavra antípoda. "Como? Do outro lado do mundo." Foi quanto bastou. "Se é aí, é lá que eu quero ir!" Hoje, 21 anos depois, a proeminência esférica do mundo emagreceu. Inacessíveis só talvez os buracos negros. Porém, a Nova Zelândia, ex Aotearoa, teima em ser antípoda, um canto que me reclama e seduz.


Página do passatempo da Suplemento Fugas do Público.

Domingo, Julho 17, 2011

Escritor à beira-mar

Amanheci hoje ao som do mar. Não um mar ficcionado, desses difundidos em gaiolas radiofónicas de sons da natureza para simular um bucolismo inexistente na selva urbana. Aliás, não deixa de ser curioso o paradoxo. O país onde nasceu a prática dos rituais Zen, ditos de meditação contemplativa através da experiência directa da realidade, vende agora caixas forjadas de experiências indirectas de irrealidade. Não, eu acordei mesmo ao som do mar.
As ilusões nocturnas foram interrompidas pelo respingar dos acordes marítimos através da janela do quarto. Lá fora na baía da Prainha, um Oceano inteiro reveza o galo. As pedras roladas crepitam a cada vaivém das ondas e o sol tímido salpica-me o corpo de raios. As andorinhas do mar completam a orquestra. Uma sinfonia natural sem vozearia humana nem rugidos de maquinaria. Acordo no viridário.

Faz hoje duas semanas que me mudei temporariamente para a Ilha do Pico. Apesar de passageira, a estadia vai ser suficientemente longa para empregar o termo “mudar”. Dois meses de reclusão do grão que impregna a moldura rotineira e obsta a divagação sem amarras. Dir-se-ia reclusão, até agora assemelha-se a um hiato libertador. Ao acordar, a mente ainda pejada de modorra, sorri perante a lembrança do anúncio da Caixa Geral de Depósitos.

“Pensei que a prenda de formatura era apenas uma gravata, mas afinal veio também uma conta. Abri um negócio à beira-mar, faço o que gosto e não abdiquei do meu vício do surf…”

Confesso a deformação de palavreado do slogan original. A lucidez diária tenta ainda emancipar-se das agruras e devaneios da noite e atropela a memória. Mas as ideias beira-mar, emprego de sonho e surf fazem parte do quinhão fiel da mensagem. Cada uma isolada veicula uma sensação de felicidade e realização. Todas juntas transportam-nos para um lugar-comum, um arquétipo de vida ideal. Trabalhar num escritório à beira-mar, longe do bulício urbano e com tempo, esse bem escasso, para dedicar aos prazeres da vida. Como se a maresia transpirasse inspiração e a vastidão azul evadisse os empecilhos criativos e alongasse o tempo.
Desta vez caí no senso comum e as minhas pretensões a curto prazo são banais. Cumprir nem que seja por um curto espaço de tempo o desejo de trabalhar à beira-mar. Dois meses a trabalhar como escritor. Escritor de uma tese, felizmente com data de término saída da neblina e, esperançosamente, dos relatos bloguistas das viagens esquecidas dos últimos dois anos. Cada qual no seu arquivo, sem hierarquia de importância. Quanto ao vício, esse foi arrebatado pelo bom senso. O bom senso de não praticar surf numa baía de pedra aguçada. Fica a minha reinvenção do anúncio…

Pensei não ver o dia de trabalhar com o oceano como pano de fundo. Felizmente juntei dinheiro antes da crise e dos cortes para viajar até ao Pico. Refastelado à beira-mar, escrevo o que tem de ser, mas também o que gosto, dou mergulhos para tirar fotografias aos peixes e traio alguns com o arpão para ter jantar. Ao fim do dia dedico-me às artes da harmónica sem vizinhos para azoar …”

Quarta-feira, Janeiro 12, 2011

Pôr-do-Sol aguarela

Onze horas depois de os meus pais terem visto a Universidade de Coimbra engolir o sol, vejo o naufrágio do mesmo astro no oceano circundante do Hawaii. Funcionário incansável de uma empresa de sonhos e bons presságios à escala planetar, o astro-rei acasala promiscuamente com múltiplos horizontes dia após dia sob o olhar enternecido de amantes. Filmes e postais eternizaram o momento pictórico, mas, tal como a arte realista, não caçaram na plenitude a religiosidade do momento, o fim de ciclo diário em que os Hawaianos renovam o vínculo com a Natureza e fazem as pazes com o Mundo.
Contrario a calmaria circundante e desço a Highway 550 a uns estonteantes 60km hora, deixando no retrovisor apenas uma miragem do Koke’e State Park. Na ânsia de tudo querer ver atropelei os ponteiros do relógio e vejo agora cada vez mais distante a possibilidade de assistir do alto da montanha ao pôr-do-sol no mar. No entanto, a ilha facilita, e sem o tropel de outros viajantes ou autoridades fiscalizadoras dos bons costumes automobilísticos chego ao miradouro por que me embeicei no primeiro dia; uma curva de relevo sobre as fraldas da montanha sobranceira a uma pequena localidade e com vista para a praia dos cães danados. Chego com o mar a morder os perímetros rubros do sol mas a tempo de assistir ao espectáculo de cores do céu. Muita gente agarra-se ao sentido estrito do nome; ocaso, momento em que o sol desaparece no horizonte. Abandonam o local nessa altura cumprindo um ritual castrado. Vivo antes o conceito lato; pôr-do-sol, bailado colorido segundo o qual o sol se deita nas cores quentes e se cobre com um manto de cores misteriosas.
Amarelo, laranja, vermelho, rosa, violeta, roxo, as tonalidades sucedem-se com bailarinas brumosas a coreografarem a cena. É precisamente no momento que a maioria vira costas que o céu se enche de brio e se inunda de cores correndo todas as frequências de luz visível da palete. Possivelmente não descuida as frequências não visíveis e talvez por isso muitos animais escolham também esta altura do dia para porem a cabeça em ordem, para descansaram os olhos no horizonte longínquo em busca das cores que não cansam, da sequência que não sai de moda. Lembro-me da Amazónia onde o acontecimento era diariamente acompanhado por uma sinfonia de ulos animais.
Companheiro de espectáculos vespertinos, um havaiano relaxa os olhos perdidos no céu tal como eu. O sorriso na face verte a ledice do momento enquanto o corpo cansado do dia de trabalho se alonga na traseira de uma Strakar. Como a maioria nesta ilha, cedo vem ao cimo o carácter hospitaleiro e mete conversa connosco. Partilha a paz que o traz todos os dias àquele local. “O amanhã não conheço, mas hoje despeço-me deste dia com pompa e circunstância, e amanhã se existir cá estarei de novo.” Mais dois dedos de conversa e revelam-se as coincidências. Não conheceu os avós naturais dos Açores, gente corajosa que trouxe os genes para o Pacífico, mas guarda com carinho as origens. De Portugal lamenta não guardar mais do que memórias que apenas viveu em segunda mão. Pergunto o nome. “Wapupu Miguel”. O primeiro nome, inventei-o com leveza escriturária (sem chance de reprodução fidedigna), mas o segundo ficou gravado. “Miguel”. Afinal, para além de memórias também ficou marcado à nascença com rótulo português. Desata a rir quando confesso que partilho o segundo nome com ele e que é português. Tão longe e tão perto, afinal somos todos família.

Durante uma semana percorri a ilha de lés-a-lés, algumas vezes sem a dedicação que as paisagens mereciam, mas todos os dias ao fim do dia detinha-me e mergulhava com o sol na quietude. Invariavelmente em praias estranhamente desertas para a época e magnificência da vista, os pés mergulhados no pacífico, a alma pacificada pelo céu. Para além de mim e da Alice poucos, muitas vezes nenhuns, eram os turistas à hora da aguarela; quem ficava a molengar eram autóctones anónimos como o Miguel. Sozinhos, em pares românticos ou no regaço familiar.
Sou um ser estranho; colecciono pacotes de açúcar e bilhetes de cinema onde o filme já não se lê e apenas quem me acompanhou ficou, mas colecciono também momentos de comprazer puro, da comunhão da Terra com o fiel escudeiro a anunciar-me nas cores quentes sobranceiras ao horizonte novos dias que afinal sempre existiram.

Terça-feira, Novembro 09, 2010

Padrão Insular

Arquitectura divina, coincidência fortuita, ou lei natural dotada de inteligência que nos transcende, aparentemente a geo-morfologia das ilhas vulcânicas foi desenhada em série como nas fábricas do Taylor. Primeiro dia de estadia na ilha tropical e o passeio pelo lado sudoeste da ilha mostra-a mais árida do que supunha.

Sem a opulência dos arranjos florais que deram o epíteto à ilha, a ponta sudoeste é opção secundária para os migrantes continentais que procuram casa no paraíso. Desarranjadas mas vividas, singelas mas acolhedoras, nos beirais das casas vêem-se maioritariamente hawaianos autóctones; opulentos de corpo, samoanos nos traços faciais, afáveis no trato, aparentemente felizes e realizados.

De carro em direcção ao sol poente, a terra vermelha dos óxidos, apaixonante do ambiente escaldante do clima tropical transfigura a imagem verdejante e colorida dos postais hawaianos. Um ilhéu ocre contido na insularidade, à partida expectável em África, mas não no meio do Pacífico.


Na cuca ressurgem memórias da praia de Cofete numa viagem às Canárias. Tenerife, Lanzarote, Fuerteventura, e agora o Kauai, todas elas áridas e quentes na ponta sul. Decidida a forma, delineadas as fronteiras com o mar, alçadas as montanhas, talvez a decoração seja o último item da lista de tarefas do criador. Traça as emoções verdejantes pinceladas de flores da esquerda para a direita de cima para baixo. No final do dia, já com as tintas extintas ou criatividade esgotada deixa as pontas sudoeste das ilhas desprovidas de luxúria. Um retrato minimalista da terra na sua origem de beleza pura. O Homem segue as pisadas e as estradas asfaltadas são nestes pontos destronadas pela aventura das estradas poeirentas de terra batida e areia.

No Kauai, os últimos quilómetros no beco sudoeste são uma jornada de solavancos sem fim à vista. Para os mais persistentes um doce no fim do caminho. Uma praia extensa de areia fina e orlada por castelos rochosos cobertos de seres verdejantes oportunistas. A praia deserta, coberta do tom dourado de fim de tarde à nossa chegada, recebeu em boa hora o nome de Barking Sands.


Desenganem-se se pensam ser povoada de matilhas selvagens. Um só animal, azul, enorme, de temperamento inconstante, arremessa do infinito no horizonte ondas tubulares que mastigam a areia com edacidade. Os poucos observadores que se aventuram até ao fim do mundo maravilham-se com o marulhar contínuo do mar a lapidar à boca cheia as conchas milenares. Uma toada cíclica que apazigua almas e franqueia paz à existência.

Terça-feira, Outubro 19, 2010

Hawaii, Totoloto insular


“Vou para o Hawaii.” A convicção da afirmação plena de excitação não deixa transparecer as dúvidas que a decisão exsuda. Fora a magia cinematográfica, o exotismo do pôr-de-sol de postal e o encanto, propriedade gratuita do senso-comum, o meu conhecimento das ilhas é nulo. Como escolher para qual ilha viajar? 7, número pequeno incapaz de completar a caderneta de cromos das duas mãos, é o número de ilhas (o resto são apêndices de terra, parentes terrosos separados por quezílias menores) escrito nos papéis das rifas. A mão digital do Google maps roda o globo com arrebatamento, tornando visível em segundos o que os meus olhos não conseguirão enxergar ao vivo em menos de 24 horas. Longe no imaginário é também local longínquo no globo. Sem muita falta de rigor poderia mesmo dizer do outro lado do mundo. O fuso horário deixa as 0 horas de Greenwitch e cavalga 11 faixas de tempo tabelado até chegar ao Hawaii. Na corrida não atravessamos o Trópico de Capricórnio, nem ficamos de pernas para o ar como os povos da Austrália e por isso o Hawaii é como uma espécie de antípoda, mas no mesmo hemisfério. A câmara colada ao ponteiro do rato entra em queda vertiginosa, uma espécie de salto tandem, o rato controlando a escala, eu no descontrolo das minhas fantasias. Truque de magia moderna, o arquipélago ocupa agora todo o ecrã do computador, todo o ecrã dos meus projectos a curto prazo. Fico toldado pelo facilitismo tecnológico e neste rodar, rodopiar, aproximar e afastar do globo digital perco a noção de escala. Próximas no espaço, ajuntadas na nomenclatura, cada ilha é uma entidade de paraíso para alguém. Já dizia Mia Couto “O paraíso não é um lugar, é um breve momento que conquistamos dentro de nós.” É esse momento que eu procuro, esse pedaço de bem-estar que nos faz voar, mas antes preciso de o contextualizar, de lhe arranjar um lugar para germinar, para eu o poder viver.

Fecho o explorador sem resposta para a minha pergunta. Qual ilha escolher? Ohahu, meca dos surfistas e do Kahuna Eddie Aikau, mas transfigurada pelo crescimento da metrópole Honululu. Carrega a ferida do Pearl Harbour.
Maui, ilha com extensões de praias e corais a perder de vista e do mesmo jeito turistas em multidão. Palavras da minha senhoria ecoam ainda “In Maui you will feel like cattle living in a predestinated path of paradise”.
Hawaii a ilha, não o arquipélago, é o pedaço de terra mais a Sul e aquele que mais tempo levou para irromper do ventre terrestre. Partilha com o povo a obesidade prematura na idade adolescente, em engorda contínua graças aos rios de lava que invadem o mar todos os dias e alimentam as bordas da ilha. Em área é o dobro do Algarve e por isso se compreende a alcunha de Big Island. Grande em área, a Big Island é gigante no imaginário vulcanólogo. Por momentos perco-me nas memórias juvenis das aulas de CTV, leccionada por uma professora que tal como os vulcões incendiava paixões. Vulcões Explosivos, Estrombolianos e Hawaianos em memória dos presentes. Apesar da cor vermelha de raiva ou paixão violenta, os vulcões do Hawaii são pachorrentos. Fora os gases sulfurosos que por vezes interditam as visitas, o Kilauea espreguiça-se encosta abaixo num indelével soerguer manso com medo de acordar a vizinhança.

A delonga na descrição da Big Island evidencia parcialidade na discussão e, não fosse faltar a jóia da coroa, a decisão estava tomada. Kauai, o nome exótico assenta como uma luva à ilha também apelidada de Jardim. Florestas oceânicas, cascatas cinematográficas, recantos de terra trabalhados pela mais experiente das escultoras, praias de areia branca esquecidas, e bicharada aquática com fartura. A genuinidade da natureza encontra também paralelo na presença humana. Harmonioso no trato, colorido nos sorrisos, feliz nas vivências, o Kauai é a mais velha das ilhas do Hawaii.
A lotaria final é fácil de adivinhar, Big Island e Kauai. A primeira pela oportunidade singular de assistir ao nascimento da terra, a segunda pelo romance pintado em telas bucólicas de letargia jucunda. Pelo tamanho que implicaria uma roadtrip equivalente a percorrer meio Portugal e pelo desgosto de poder ficar de fora do parque de partos da ilha, acabei por ceder aos encantos da ilha matriarca.
Sei hoje que foi a escolha certa pois encontrei por uma semana mais uns momentos para juntar ao meu cronómetro de paraísos. Desconfio que a areia na ampulheta da vida não se duplica, nem o gargalo se estreita, mas vivo na ilusão de cada momento de paraíso conquistado ser mais um grão de areia gordo a entupir o gargalo da ampulheta interna.

Quinta-feira, Setembro 16, 2010

Futebóis

Descobri há poucos anos que Hawaii e Puerto Rico pertenciam à super potência americana. O primeiro é desfraldado junto com os 49 estados nas estrelas da bandeira, o segundo mantém-se como estado livre associado. Uma espécie de sócio honorário sem estrela no pendão gozando de menos condicionalismos. Desatenção geopolítica ou ignorância de quem vive do outro lado do mundo, não me ocorreu até então essa ligação com o colosso capitalista. As vozes de Israel Kamakawiwo’ole e Vaya com Dios, em Over the rainbow e Ai ai ai ai ai ai Puerto Rico levam o meu imaginário em peregrinação para lugares e sabores longe dos princípios musculados da América.

Descontextualizado em questões de soberania territorial estou ciente da posição desses pedaços de terra solta, aclamados de paraíso por muitos excursionistas, no globo terrestre. Fora o teleporte fantasioso, sei bem que as únicas formas de lá chegar são os aviões e os cargueiros (já os Japoneses estavam cientes disso quando escolheram caças para atacar Pearl Harbour).
Desconexas do relato, as orações deste parágrafo são fruto do desfiar de memórias que surgiram na minha cabeça. Duas caras com fundo temporal distinto inquirem-me “How do you travel back to Portugal, car or bus?” Acrescentam, “Is it a long trip?” Respingo, “I ride my bike, it’s more refreshing and less polluting”. Almas ingénuas (eufemismo forçado) para quem o globo encolheu e amarrotou à volta da fronteira caseira. Apesar das recentes disputas pelo Árctico e da utopia de engenharia de ligar os dois continentes atravessando as plataformas instáveis do norte, desconhecia que tal auto-estrada já estivesse em funcionamento. Vai-se a ver e se calhar até utiliza Via Verde (com a força dos ventos árcticos, o melhor mesmo é não parar).
O panorama não é geral, e gente letrada que sabe apontar Portugal no mapa também a há. Ainda assim, a maioria dessa minoria fica com um nó na cabeça ao tentar perceber a falsa coincidência de se falar a mesma língua em lugares tão distantes como o são Portugal e Brasil. Desconhecem que é graças à nossa pequena nação que meio globo se tornou visível para a outra metade. Pormenores históricos na era da globalidade imediata. Paradoxalmente encontro essa elite no campo mais improvável. Uso a palavra campo pois é mesmo no campo, no campo de soccer. Talvez pela conotação com a feminilidade do soccer, quando comparado com a bestialidade do football, o soccer é praticado principalmente por mexicanos, estrangeiros amantes do desporto rei e por americanos ligados às classes instruídas das universidades.
Antagonismo assinalável, se comparado com o carácter popular do futebol em Portugal. À conversa com Phil fico com o ego mimado. Conhece as rotas aéreas, sabe do passado histórico dos navegadores portugueses e sabe inclusivamente que apesar de já termos sido condado espanhol somos há muito nação independente. O pano cai cedo e logo se entende tanta sabedoria e curiosidade. Phil pertence à casta selecta de novos navegadores do mundo, aqueles que se perdem fora de portas nas culturas que não são o seu berço. São um grupo selecto com uma amplitude de pensamento europeu, conservando o pragmatismo americano. Envolvidos no dia-a-dia pelo American Way of Life procuram nestes contactos com ETs estrangeiros abrir a janela para lufadas de ar fresco e também perceber a imagem que passa para fora dos EUA.
Apesar das origens náuticas vou para o Hawaii de avião. A invasão armada do final do século XIX, deu-me a liberdade de viajar até à última estrela da bandeira Norte-Americana. Estivessem ainda no trono os descendentes de Lili‘uokalani, última monarca do Hawaii pré-burger, e as minhas restrições alfandegárias impedir-me-iam de me deslumbrar naquelas paisagens soberbas.


Sábado, Setembro 04, 2010

2 minutes...

A música pode ser universal mas o comportamento humano nos espectáculos de difusão dessa universalidade não.

Noite amena de verão, sob céu estrelado, vejo a lua cheia a despontar no horizonte. A medo, salta para fora do mar, entreolha-me por detrás de uma árvore, até aparecer nua a meia haste. Habituadas a estar no foco do estrelato e perante a ameaça de perda de notoriedade, as estrelas vão apagando as luzes submissas ao astro da noite. Santa Barbara Bowl é a última montra musical da minha lista must go in Santa Barbara. Inculcado num vale apertado das montanhas que cercam o downtown, o Bowl parece um anfiteatro cénico grego, espelho da meia-lua das noites crescentes. Alheia ao palco da natureza, Norah Jones impregna a noite de acordes doces, completando o cenário encantado. Santa Barbara é uma cidade pequena mas com montra cultural de metrópole. Em digressão entre São Francisco e Los Angeles todas as grandes estrelas fazem o desvio.

As origens Texanas não fizeram mossa e apesar de se mostrar a princípio transfigurada no estilo do último CD, a cantora entrega-se finalmente ao público. A criança tímida esvaece-se e raia uma artista internacional. Ritmos variados remetendo para o rústico country, a alma do soul num fundo de jazz e o imaginário de infância em músicas ao estilo Jardim da Celeste, a Norita encheu a noite de fantasias americanas com glamour.

Tanta fantasia instiga ao sonho, e o sonho está invariavelmente ligado ao cochilo. 10 da noite é altura do retiro. Assim o ditam as leis do ruído e o relógio biológico dos autómatos. Talvez por isso perto das 10 as bancadas do anfiteatro metamorfoseiam-se em carreiros de formigas. A princípio tímidos, os carreiros vão engrossando. Sentado nos últimos degraus do anfiteatro assisto incrédulo à falta de respeito pela artista. À cabeça vêm-me os adeptos do Benfica a abandonar os Estádios neste início de temporada. Neste caso, porém, sem motivo, pois não só o concerto estava a ser uma delícia como muitas das formigas agora de pé e encarreiradas haviam minutos antes estado de pé a bater palmas e a cantar (essas mudanças de humor também ocorrem nos jogos). Nesta terra os excessos vivenciais são menus regrados. Esquecida fica a falta de limites que a semântica da palavra acarreta. Os excessos mais não são do que desvios padrões devidamente contextualizados (podiam adoptar essa postura também nas intervenções armadas).

A cigarra em cima de palco, absorta das formigas, continua o espectáculo. A plateia cada vez mais reduzida vai-se aglomerando, encurtando a distância para a origem dos acordes. Então, eis que, saído da penumbra do palco à procura de protagonismo não devido, um assistente de palco prostra-se à frente da Norah. Aponta para o relógio e ergue dois dedos no ar. O sinal universal foi traduzido pela artista. “They are sending me away. The two minutes have expired. To continue we will have to pay!”
Em palco assistente e artista disputam o microfone como se de um rebuçado no jardim-escola se tratasse. Ganha a cantora e ganhamos nós. Os músicos entreolham-se, encolhem os ombros e soltam risos genuínos. Ouvidos moucos para as directrizes, os músicos cerram fileiras numa amálgama de corpos e instrumentos e tocam mais duas músicas. Despido da pirotecnia luminosa o palco assemelha-se agora a um beco sombrio onde meia dúzia de delinquentes musicais se juntara. Pena não haver por aqui mais becos atulhados de espontaneidade…