Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

Às voltas com a matemática

Terminados 5 dias em viagens pelos paraísos insulares orientais rumámos para o sol poente na ilha de Tenerife. O espanhol é uma língua complicada, mais ainda quando falada com sotaque das ilhas onde adquire expressões e sons devera estranhos. Até a matemática, linguagem internacional e admitida pelos génios como futura ponte de ligação aos Marcianos do ignoto Universo, adquire nas Canárias fórmulas de cálculo retorcidas. Uma hora a fazer contas de criança nas costas de um panfleto publicitário da melhor frota de aluguer canário, foi o tempo despendido a demonstrar que para além de escudados do epíteto de caloteiros ainda nos era devido o montante da caução.
Alheio à reunião matemática o voo de ida para Tenerife ia-se posicionando na pista. Com os ponteiros alinhados na hora da partida e os porões fechados, surtiram efeito os lindos olhos da Alice e o meu sorriso para persuadir as hospedeiras a deixarem-nos entrar no avião. O voo quase deserto acentuava os olhares mistos de cólera e ânsia dos restantes passageiros e destacava as múltiplas violações dos códigos de segurança aérea latentes nos inúmeros sacos que oscilavam nas nossas mãos. Desde frascos de cosmética a cavilhas e martelos de campismo tudo entrou no avião. Felizmente faltei à aula de bombas e sequestros…

Quarta-feira, Junho 04, 2008

La Graciosa

Afastado dos locais de ancoragem de quem chega do outro mundo, o topo norte da ilha de Lanzarote esconde uma paisagem montanhosa com divisões de terra cultivadas lembrando os socalcos do Douro. Para trás fica o solo lunar cheio de crateras. Termina assim a sequência de fotos a preto e branco iluminadas pelo azul celeste. Aqui o cenário é verde e cheio de vida vegetal. Aqui e acolá solares de antigamente preservam as suas terras do alto das colinas. As estradas ligeiramente negligenciadas são rabiscos de criança com mão trémula e indecisa quanto ao destino final. Fim de dia anunciado pelo sol em rota de colisão com o mar, foi em marcha de rali que percorremos os desenhos da criança. Como destino o porto de Orzola para embarcar rumo a La Graciosa. Ao meu lado a co-piloto suspirava com o enjoo das curvas enquanto soltava alguns lamentos resignados por perdermos a ida à ilha. “Enquanto há vida há esperança e usualmente as coincidências jogam a meu favor…”
Quinze minutos depois da hora de embarque prevista chegámos ao porto e para meu espanto lá se encontrava ainda o barco. Atrasos anormais retiveram a tripulação em terra mais tempo do que o devido. Fazendo uso da simpatia portuguesa com sotaque espanhol para adocicar ouvidos a Alicinha conseguiu atrasar mais uns minutos a partida. Estafados e com metade da trouxa a cair dos alforges embarcámos rumo à ilha dos amores, segundo consta. Vista de Lanzarote a Graciosa assemelha-se um pedaço de terra esquecida no meio de um charco de tonalidades que oscilam entre o azul-escuro e o azul celeste. Do barco Lanzarote tenta ofuscar a beleza do pequeno pedaço de terra mostrando as costas de umas falésias verdes que impõem respeito. Balouçando no pequeno ferry, o sol ao fundo a esconder-se atrás de um vulcão soberano, sinto-me a navegar numa casca de nós sobre olhar atento de uns Adamastores amansados. Soberbo… Chegados à Graciosa a vida abranda o passo tomando pulso a pacatez e inércia. Para nos receber um porto pitoresco que serve de abrigo à totalidade da população da ilhota. 630 almas!
Se a chegada ao ferry foi um sucesso não previsto, as visitas na ilha estavam fadadas ao insucesso. Com o sol a despedir-se, as lojas de aluguer de bicicletas tinham fechado portas e a aldeia parecia entrar em período de hibernação. Um quilómetro de caminhada rumo à terra de ninguém por entre dunas cimeiras ao mar azulão levou-nos até o nada. Mas um nada de beleza fantástica. No horizonte nem pessoas, nem casa, nem nada. Praia deserta, um vulcão adormecido e Lanzarote na outra margem. Foi neste ambiente bucólico que montámos tenda com vista privilegiada para o mar e o céu de estrelas que se anunciava. Para a noite uma caça aos gambozinos. Às apalpadelas e guiados por uma luz ténue lá longe caminhámos de olhos vendados pela escuridão até à povoação somente para jantar sentados no cais à luz da vela de candeeiro. Um manjar de sandochas mas com vista paisagista e de companhia de luxo.
O pior estava guardado para o regresso. Na mochila de viagem nem lanternas nem mapas estelares. Guiámo-nos pelas pegadas da memória para encontrar a tenda lá longe perdida no meio das dunas onde o mundo parou. A visita à ilha ficou guardada para a manhã seguinte. Porém, o tempo não pára para quem não pertence a este mundo. Foi em passo de corrida, dentro de um jipe a cair aos bocados, que visitámos as atracções ilha. A volta foi de médico (ou não fosse a Alice uma futura médica…) mas pelo menos chegámos a tempo de regressar no ferry para Lanzarote. Apesar de extenuante esta pequena incursão valeu pelo apaziguamento e pela fotografia daquele canal de mar ladeado pelas falésias de cinema de Lanzarote e pelas praias desertas da Graciosa. Há quem faça mais quilómetros para dormir com menos estrelas…

Terça-feira, Junho 03, 2008

Parque temático

Apesar de pequena, Lanzarote é, a par com Tenerife, a ilha mais turística das Canárias. Tenerife atrai o turismo de massas disposto como sardinhas de papo para o ar nos areais do sul enquanto Lanzarote atrai os amantes dos fenómenos vulcânicos e aqueles que desesperadamente procuram ainda um autógrafo para o ensaio sobre a cegueira.

Seja de ferry, a bordo de aviões ou pé molhado nas canoas de imigrantes ilegais vindas de África, as passagens de transporte são bilhetes de lotaria para um parque temático onde proliferam as imagens dos livros de Geologia e de CTV. Cada recanto da ilha é um subcapítulo de amostra de fenómenos directos e indirectos da sequência de erupções que moldaram a ilha. A génese pertence à mãe da natureza, mas a preservação foi deixada a cargo humano. A ciência não é puramente académica e neste caso paga-se bem. A carteira ligeira fica ainda assim reconfortada pela tonelada de imagens que os sentidos do corpo absorvem. A paisagem de contrastes entre o escuro das terras vulcânicas, o céu azul da primavera antecipada e de quando em vez o verde de plantas em celebração da vida deliciam-me enquanto atravesso o interior de Lanzarote.
Aos olhos salta a memória das pistas de carrinhos que em garoto construí nos canteiros que rodeavam o meu prédio. A demarcação da pista era feita com pedrinhas que cuidadosamente pousava na poeira enquanto delineava as viagens dos meus pilotos imaginários. Nessa altura os carros eram miniaturas e o condutor o dedo mindinho. Hoje dentro do bolinhas azul olho a estrada e apercebo-me que até nas estradas há quem leve a sério as experiências de criança. Seja nas cidades ou no interior, as estradas de Lanzarote são como carreiros demarcados por montinhos de pedra colocados ao longo das bermas.
À disposição dos coleccionadores de imagens uma panóplia de paisagens. Lagoas esverdeadas por minerais vegetarianos, canais de grutas subterrâneas estendidas por dezenas de quilómetros, populações endémicas de caranguejos cegos, praias arejadas envolvidas por paredões feitos de crateras, fervedores naturais de rocha negra e como jóia da coroa o Parque Timanfaya. Espaço inerte, ocupado por vales de cinzas e piroclastos vários, crateras e formações caprichosas do processo vulcânico, o Parque Timanfaya ocupa uma extensão enorme na zona sudoeste da ilha e visto de relance assemelha-se a um espelho da superfície lunar. A bordo de um autopullman (única forma de visitar o parque) sinto-me por momentos como um viajante no tempo. Do outro lado da janela a vida, ou neste caso inexistência dela desenvolve-se em analepse como se fez um dia em todas as partes do mundo. Foi uma das paisagens mais fantásticas que já vi.

Sexta-feira, Maio 30, 2008

Viagens

Blog de viagens, aventuras em viagens, sensações e experiências em viagens. O denominador é comum, “viagens” e foi sempre esse o teor dos textos que publiquei, das fotos que partilhei. Como portfólio não figuram os carimbos dos locais. Não me basta dizer, talvez em versão histórica do anúncio ao Rock in Rio, “Eu fui”. Fosse esse o caso e adoptava antes o “Eu não vou” das gasolineiras. Figuram sim as fabulosas lembranças dos momentos passados em cada um desses passeios, as experiências partilhadas com os rostos que me acompanharam ou que se cruzaram comigo a dado momento. Não são parte física integrante dos locais, mas são a essência sensitiva dos caminhos que calquei.
A separação dos facto reais e dos factos imaginários é feita por uma linha ténue e de fácil transposição. A dado momento revejo-me perante a impossibilidade de conseguir destrinçar o que foi real do que foi pensado e mais tarde arrebatado como experiência real. As imagens nostálgicas de ontem misturam-se na tômbola da criatividade com sensações e emoções por vezes inconscientes, muitas das quais guardadas para a posteridade como factos. Na fotografia não figura esta pessoa, este objecto ou este acontecimento mas inconscientemente podia jurar que aquela pessoa, aquele objecto ou este acontecimento estavam na fotografia original. É um paradoxo sensorial mas que leva a uma questão, o que são de facto as nossas viagens? Bilhetes de avião e comboio, marcações em hotéis, tickets de entrada em museus e assinaturas de presença ou as divagações sensoriais que guardamos dos momentos que vivemos? Mais ainda, será mesmo necessário sair para viajar? Obviamente que tem potencialidades para ser mais saboroso, ainda assim não é garante suficiente.

Acordei hoje com os olhos inchados de imagens de sonhos por onde divaguei noite dentro sem nunca sair do meu quarto. Dado o meu passado de viagens parece um pouco absurdo mas a verdade é que hoje apetece-me de novo viajar. Olhos fechados ou abertos não importa muito porque a verdade é que hoje acordei longe, ainda que o espaço físico que me cerca me queira persuadir do contrário.

Manhã cedo com o sol a raiar nos vidros foscos da janela levantei-me de mansinho. Pelo chão a roupa largada ao abandono de quem por impulso frenético se livrou de todos os embaraços têxteis. Cerro os olhos e sou corroído por uma onda de saudade. Na agenda uma visita ao mercado e um passeio pela marina. Cidade pequena de casas baixas e ruas largas, emana áurea de cidadela de província no centro do mundo. Palmeiras imperiais e árvores frondosas de verde intenso e ornadas de flores violetas dão um colorido alegre ao Downtown. O calor tímido da manhã faz esquecer por momentos que estou na Califórnia. “Temos um microclima” dizem eles em tom de jocoso. Todos os dias é assim, mal a noite usurpa lugar ao astro sol, trata de invadir a atmosfera com gases frios e húmidos do mar. O mar sereno pacifica as marés vivas televisivas e as focas e leões-marinhos protagonizam as Pamelas de Santa Mónica.

No shuttle do Downtown uma miscelânea de línguas do mundo. Inglês, espanhol e asiático (perdoem-me a generalização mas a origem específica dos olhos em bico é chinês para mim) atropelam-se entre os solavancos do eléctrico fazendo-me por vezes questionar se estarei de facto nos Estados Unidos da América. Uma rua fechada ao trânsito está hoje em rebuliço como esteve outrora o Norton de Matos quando o Samambaia assistia de camarote à feira de rua. É o mercado dos produtores. Laranja, bananas, avocados, cerejas e verduras, a variedade é semelhante à encontrada do outro lado do oceano. O aroma de rosas obressai no ar impelindo-me até à banca da florista. Senhora simpática dos seus 50 anos recebe-me com um sorriso e um “Hello” afável. Sou cliente habitual! Com sacos cheios e um sorriso de missão cumprida, retomo o trilho para casa desta vez a passo vagaroso. Já dentro do shuttle deparo-me com o tema do dia: “a má prestação do Bush”. Três velhotes substituem o banco de jardim pela janela panorâmica do eléctrico para confraternizar pela manhã. Ao chegar a casa avisto o mar azulão ao fundo da rua que assiste debruçado no parapeito ao rebuliço matinal. Pede licença para entrar mas a energia fraca das ondas pouco ajudam na transposição do areal que o separa da avenida marginal com nome de navegador português (e esta ein???). Entro em casa com a excitação própria de um dia festivo. Aos pés da cama pouso o ramo de rosas e uma nota em papel perfumado. Abro a janela para o amanhecer correr e para revelar a passarada de corvos e gaivotas que todas as manhãs travam combates pelo melhor pedaço de lixo.

Meio sonâmbula levanta-se e vê o quarto deserto. Fica no entanto desde logo inebriada pelo aroma forte das rosas amarelas ao fundo da cama. De sopetão e apesar de os olhos lutarem contra a claridade levanta-se e vê a nota “Cara linda espero-te na praia!”. Sem preocupações de moda pega nas primeiras roupas que encontra. Uma hawaiana de cada cor e um camisolão que lhe pertence apenas por afinidade são as peças gritantes do conjunto. Desconhece o caminho mas o chilrear das gaivotas e a brisa de mar que acaba de acordar encaminham-na na direcção certa. O brilho no olhar intensifica-se a cada passo mais próxima da praia. Um veleiro na baía chama-lhe a atenção mas é o bote parado na praia que mais a atrai. Vem a passo confuso, ora lento ora acelerado, reticente quanto a apressar a surpresa ou atrasá-la para melhor a saborear. Os últimos metros denunciam-na e é em passo de corrida que chega à beira-mar.

“Parabéns Princesa!” Apesar da fantasia de lobo de mar reconheceu a voz meiga. Abraçou-me como era seu desejo há muito. Não chegámos até ao veleiro. Outros príncipes e princesas haviam requisitado os seus préstimos. Ali ficámos sentados na areia encostados ao velho bote na letargia da paixão. Ao lado uma toalha de piquenique decorada com cerejas e morangos vermelhões de volúpia, sumo de laranja doce de ternura e pão com queijo e marmelada...
Viajei sem sair do meu quarto, sem sair da cidade que me acolhe. Sem respeito pelo tempo, troquei datas e tornei possível a combinação de acontecimentos desencontrados no tempo. Hoje fico-me pelos sonhos pois em nenhuma agência encontrei viagem tão perfeita. Alucinação criativa, dirão. A intensidade emocional desmente. Realidade ou devaneio ficou gravada na memória como viagem...

Sexta-feira, Maio 23, 2008

Genealogia

Nunca senti a necessidade de traçar a minha árvore genealógica. Recorrer àquelas bases de dados virtuais que nos dizem se iremos receber algum quinhão caso aconteça alguma coisa aos parentes mais próximos do Belmiro. A família que conheço chega-me para completar o meu círculo sanguíneo e os restantes adiciono-os pelo reconhecimento e admiração e não pela ditadura genealógica. Ainda assim fico intrigado, terei algum marroquino ou cigano na família? Não sou xenófobo e acredito ser pouco dado a estereótipos, mas as autoridades parecem atribuir-me sempre o paradigma de vida que revêem nestas minorias. Por isso me questiono quais serão os meus antepassados? Seja pela terra, por mar ou pelo ar não há posto de fronteira ou operação de controlo policial onde não seja barrado com atendimento personalizado. Chegados a Lanzarote na modorra de fim de dia, enternecidos pelo sol em queda e o céu alaranjado, uma farda escura de policial surgiu para quebrar o ambiente. Interrogatório sobre hábitos consumistas (não entendi se estava preocupado que eu fosse viciado em shoppings), afinidade com pedras (sempre detestei geologia) e, para meu espanto, hábitos feirantes (ainda que não seja uma possibilidade a descartar nunca me vi revi na posição de apregoador de mezinhas). Após vistoria entre pernas, chassis do carro, estofos, bagagens, pneus e até pupilas lá acreditaram na minha boa vontade como ser humano. “Carrego carga preciosa mas respira, não é negociável e vem de livre vontade” - disse em tom de brincadeira. Ainda a tempo do relato final da bola laranja em declínio, movemos bagagens para a reserva protegida de Playa Blanca. Uma dúzia de quilómetros em terra batida pelos socalcos finais das encostas suaves de algumas crateras que servem de cenário no horizonte. Ao longo da costa praias de areia branca, mar cristalino em tons rebuscados de azul e uma luminosidade apaziguadora. Do outro lado La Isla de Lobos e Fuerteventura esvaneciam-se debaixo da neblina oceânica e mistura de ventos arenosos provenientes de África. Mais civilizada significa também mais patrulhada e com o campismo fechado por ter sido reservado para penitência das almas penadas no mês que antecede a semana santa, acabámos por ter a nossa primeira noite de hostal. Local catita e tal como dizia o guia com vista para o pátio interior. O quarto era bom e o hostal bem localizado, já o pátio interior era uma espécie de chaminé de luz triangular com pouco mais de um metro quadrado. Abrir a janela era um privilégio vetado pela parede da frente… Tempo de recarregar baterias orgânicas e tecnológicas e de dar descanso por uma noite aos papões nocturnos.

Segunda-feira, Maio 19, 2008

Ainda há esperança...

Estar numa ilha não significar estar-se isolado e no caso norte de Fuerteventura nem oceano a perder de vista é garantido. Carreiras diárias de postais humanos fazem a travessia entre Fuerteventura e a outra ponta de terra solta do mundo que se avista no horizonte, a ilha de Lanzarote. Pelo caminho um rochedo, esse sim solitário. Privado da companhia humana, foi deixado aos lobos… Exercício imaginativo momentâneo, calculo ser esta uma boa justificação para o nome de Ilhéu dos Lobos, pois nenhuma alcateia que se conheça alguma vez pisou terra. Apareceu à superfície da crosta como terreno inerte fruto das convulsões internas do planeta e hoje é paraíso de aves migratórias e vegetação espontânea. Levado pelo espírito hoteleiro magnânimo já imagino um belo Mélia na costa da ilha com terraço ampliado para caça ao pato. Alucinações espero… Aconchegadas pela proximidade geográfica, nem por isso Lanzarote e Fuerteventura são minimamente parecidas. Adoptando uma visão humanizada poder-se-ia mesmo dizer que se trata do filho pródigo e do bastardo. Como nome de família guardam a génese de nascença. Ambas ilhas vulcânicas são autênticos paraísos das paisagens que entrava há anos atrás nas aulas de CTV.
Ao desleixo e construção de patos bravos encontrada em Fuerteventura, Lanzarote contrapõe uma organização turística exemplar. É a ilha mais cara do arquipélago mas justificável pelo que oferece e pelo cuidado como oferece. Na génese desta cultura um homem, César Manrique. Artista e arquitecto por afinidade numa incursão inconclusiva na Universidade de La Laguna, revolucionou por completo a mentalidade dos habitantes da ilha. Apesar de desviado nas ideias politicas pelas afinidades fortes por Franco, mostrou-se um defensor da cultura local e da natureza abençoada da ilha que o viu nascer. Nem sempre a ditadura é cinto castrador. Neste caso pelas leis urbanistas ditatoriais que conseguiu implantar na ilha conseguiu criar um verdadeiro jardim à beira mar plantado. Seja nas cidades ou nas aldeias mais isoladas a sensação de estar a passear num parque cuidado não se esvanece. Os hábitos são contagiantes e quem vagueia pela ilha usufruindo das paisagens sente-se na obrigação de preservar o espaço que pisa. Ainda há esperança…

Segunda-feira, Maio 12, 2008

Sahara Canário

Rochedo gigante sepultado à tona da água, Fuerteventura é uma ilha habitada por simples capricho humano. Uma prova de fogo em que o Homem se empenhou há séculos de forma a mostrar a sua adaptabilidade a qualquer cenário. Sem fontes de água naturais, toda a água corrente na ilha é importada do continente. Um giro pela ilha revela a fraca produtividade de tudo o que possa ser comestível.A paisagem é apenas povoada por montes, pequenas crateras, também elas resignadas ao marasmo, praias de areia preta, provas inertes da erosão recente dos gigantes vulcânicos e praias de areia branca fina como açúcar. A coincidência é isso mesmo, a existência simultânea de dois ou mais fenómenos, e encontramo-lo aqui na palavra Nordeste. Tal como as praias exóticas do Nordeste Brasileiro também Fuerteventura tem o seu pequeno paraíso balnear a nordeste. No sopé dos montes a nordeste Fuerteventura parece um espelho da costa do Sahara. O Parque Natural do Corralejo é uma pequena faixa litoral de praias de areal branco, mar translúcido e dunas enormes a simularem um deserto de miniatura. Debaixo de protecção do símbolo de Parque Natural escapou quase ilesa ao avanço imobiliário. Para atravessar o pequeno deserto canário uma estreita língua de alcatrão sobranceiro ao mar. O cenário é de sonho…

Sábado, Maio 10, 2008

Campismo selvagem

Herança genética de um progenitor com visão para os prazeres da vida, desde pequeno que tenho uma panca, fazer campismo selvagem. Não me refiro a montar tenda num local não designado para o efeito e sem condições. Falo de acampar no meio do nada. Fuerteventura foi o meu local de baptismo. Foi com bastante incerteza que decidimos acampar no meio do que suspeitava ser a Praia de Cofete. Como companhia dois carros de hippies modernos que giravam pedras de alegria efémera. “Tranquilo, isto é tudo malta cool!” Não fiquei tranquilo mas enfrentar aquela estrada de montanha imiscuído no breu pareceu-me carta fora do baralho e passado algum tempo os nossos amigos seguiram caminho rumo a outras estrelas. Assustados pelo desconhecido, pelos roncares de moto-quatro que se escondiam na escuridão ou nos encadeavam na passada, acordamos estremunhados a meio da noite. Lá fora uma parafernália de movimentos suspeitos. Já mais descansados pelo conforto mútuo foi com um aperto que senti a tenda levantar-se nas pontas. Debaixo da minha cabeça uma mão amparou-me o sono e ergueu-me junto com a tenda. Pensei em voz baixa para não assustar ainda mais a multidão: “danou-se, vamos ser assaltados com uma pinta do caraças…” Saí cá fora mais pela inevitabilidade do que por valentia. A palpitação sossegou. Por capricho da natureza, o vento soprava forte e levantou a tenda com subtileza humana no exacto momento em que os faróis de uma moto-quatro cruzaram a nossa tenda. Lá fora a companhia da noite escura e de uma paisagem que apenas conhecia de livros. Não fossem aquelas duas motas dir-se-ia que estávamos sós no mundo. Rendidos às evidências acampámos dentro do carro. Foi sossegados e aquecidos pelo calor da noite que acordámos com o nascer da aurora e o bater das ondas na praia deserta. As informações estavam correctas. Cofete fica no meio do nada. Uma costa rodeada por montanhas vulcânicas e povoadas pelos poucos senhores da terra de ninguém. Uma pequena aldeia no sopé da montanha, sem luz e água canalizada esconde o melhor restaurante da costa norte. Um cafofo de garagem provavelmente abandonado há anos que alguém mais optimista decidiu incluir no roteiro gastronómico. Ficámo-nos pelos sabores visuais de uma paisagem que esmaga pela aridez e liberdade solitária… Apesar de recorrente, em especial nas épocas baixas, o campismo selvagem em Fuerteventura é proibido. Fosse pela economia do sistema, pela pré-disposição ou simples capricho, na segunda noite e apesar do susto da noite anterior fizemos nova investida. Na costa norte, mas desta feita da ilha no seu todo, foi perto de El Cotillo que assentamos arraiais.
A noite escura chegou uma vez mais antes do que seria desejado mas as luzes das cidades próximas das quais se avistava apenas o céu de néon e a soberania de um farol do outro lado da baía substituíram como puderam o sol. Caído do nada um spot à beira mar com protecção contra o vento, aparentemente tranquilo, suficientemente escondido da possível policia marítima e com uma vista soberba sobre a baía de mar luminescente nocturno. Deixei os monstros à porta e dormi tranquilo debaixo de um tecto de estrelas. Noites destas não são simuladas em hotel algum…

Sexta-feira, Maio 09, 2008

Paisagem protegida

Longe da selva de turismo empacotado, de hotéis e infra-estruturas feitas pela medida da tradição local comum a todos os parques exóticos espalhados pelo mundo, do Oriente a Ocidente, do Hemisfério Norte ao Hemisfério Sul, foi longe desses parque chapa cinco que descobri a beleza das ilhas. El Morro del Jable, local turístico, capa de revistas da especialidade e pólo de atracção de viajantes do Mundo poderia ser um local fabuloso. Desértico, com praias extensas, adamastores de areia branca nas encostas e o mar azul celeste irradiando a serenidade divina.
(Gruas de apoio ao próximo hotel no cimo da falésia)
Cara virada para o mar e permitindo-me apenas uma ligeira rotação para o interior este é o cenário que os meus olhos enxergam. Tento esqueço por momentos os hotéis acocorados no fundo dos vales ou pior os complexos de betão gabarolas empoleirados no alto de ravinas, onde a paisagem deveria pertencer aos caminhantes afiliados da natureza e da virgindade paisagista. Guiados pela estandardização global desrespeitam a patente de tradição e cultura local. A grande maioria feia e completamente descontextualizados crescem como erva daninha para albergar turistas do mundo moderno sedentos de exotismo de postal igual em todo o lado do mundo. Para ligar os hotéis longas avenidas cheias de palmeiras, símbolo do exotismo brasileiro exportado para todo o mundo, e lojas de chineses os artesãos do planeta. Pedia-se apenas um pouco de bom senso e respeito pela identidade local.
Desconheço se apenas adiado ao avanço dos empreiteiros ou sabiamente resguardado como tesouro para quem preza a conservação, a costa norte do Morro del Jable é local praticamente virgem. A estrada termina onde o último Hotel anuncia uma estadia de sonho. Daí para a frente apenas terra, pó, pedras e ao fundo o mar azul. Curvas e contra-curvas, sem iluminação humana, guiámo-nos pelos trilhos de marcos apagados dos mapas. Como meta a praia de Cofete. Para lá chegar cerca de 30 km de terra batida. Inicialmente docemente ondulada nos vales que correm para o mar, transforma-se depois numa estrada de montanha com declives de respeito e imponência de uma paisagem agreste. Paisagem vulcânica no seu melhor.

Segunda-feira, Maio 05, 2008

Fuerteventura - Ilha Selvagem

Ainda a sofrer de insónias provocadas pelo nevoeiro espanhol foi logo pela manhã que iniciámos a exploração de Fuerteventura. Ser Moleque do mundo não é ser turista de espreguiçadeira. Tanto mundo para palmilhar seria desperdício passá-lo esticado ao sol, olhos fechados para o que cada canto tem para nos oferecer. Ainda assim porque a companhia o exigia, pela falta de tempo e pela liberdade de movimentos nos terrenos áridos da ilha, trocámos o conforto duro dos transportes públicos e pé na estrada pelos estofos fofos de um Opel Astra última geração. A exigência não foi nossa, afinal de contas as empresas de rent-a-car só trabalham com o melhor. Mais do que um meio de transporte o automóvel foi estrela de anúncios publicitários nos dias que se seguiram. Árida, seca, vegetação escassa, casas baixas e feias, a paisagem é em tudo parecida ao cenário com que me deparei no norte de Marrocos. Aliás até a língua e o aspecto dos nativos é igual. Não se fazem à esmola mas a cor de pele bronzeada e o desleixo no traje é similar. Aos poucos o baque duro do primeiro contacto com a aridez insular é substituído pelo fascínio da agressividade da paisagem. Fora das pequenas cidades sujas e desordenadas pelo caos da construção de luas, Fuerteventura ostenta paisagens virgens (tanto quanto é possível) magníficas. Até chegar ao sul um chorrilho de montes despidos de verde e povoados por cabras, o símbolo da ilha. No fundo de encostas, alinhadas com vales e como bandeiras a sinalizar o fim de linhas de água, a costa de Fuerteventura esconde centenas de praias. Areia branca e preta, pejadas de pedregulhos vulcânicos são como refúgios de surfistas e amores discretos, locais de viagens à intimidade singular pela possibilidade de contemplação distante da civilização. Desta vez abandonei as introspecções singulares. Senti-me estranhamente mais atraído pela descoberta mágica do relacionamento a dois. A nudez da paisagem bane barreiras e expõe a sinceridade.

Quinta-feira, Maio 01, 2008

Voltas e voltas

Fosse lá longe no Brasil, mais perto em Marrocos, ou em solo Europeu (este já visto como casa para a minha mãe) a verdade é que nunca fiz uma viagem inteiramente sozinho. Mala às costas, máquina fotográfica no bolso e ao meu lado apenas a sombra enquanto a noite o permitir. Não iria ainda ser esta a primeira vez, apesar de assim se ter entendido no meu seio familiar. Afastei-me da celeuma antes mesmo que perguntas inoportunas sugestionassem respostas para as quais eu próprio não estava certo da resposta. Como dado apenas o facto de ter abdicado de um bilhete pago para Estocolmo por uma viagem incerta aos ilhotes a Oeste do Sahara.
Alguns milhares de metros acima do comum dos mortais e com a cabeça atulhada de vozes íntimas com conselhos díspares, dei comigo a sofrer de alucinações. Ao olhar pela janela (sim a janela do avião) tive um déjà vu. Quase podia apostar que uns minutos atrás tinha passado naquele mesmo local. A insanidade costuma ter causas mais fortes e o jet lag de uma hora não seria suficiente para justificar tamanha paranóia. Mais uns minutos e nova passagem. Debaixo dos meus pés, até onde a vista conseguia alcançar, um amontoado de luzes dispostas numa forma peculiar parecia não querer desgrudar do avião. O avião andava às voltas. Círculos cegos em torno de um epicentro de luz difusa na superfície do planeta. Ao meu lado a grande maioria dos passageiros alheios ao sucedido regurgitavam-se numa sesta ligeira. No entanto, a voz do altifalante atingiu todos por igual. Uma nuvem irrequieta teimava em ver o amanhecer nos céus de Girona. Nada a fazer, o avião teria de ser desviado. Estavam inocentes desta vez os terroristas já que o 11 de Setembro ainda estava longe e por hora não se afiguravam mais poços de petróleo para monitorizar. Sem voto na matéria a escolha foi o aeroporto de Valência. Pelo ar um saltinho mas por terra 5 horas de distância. Postas de parte as 4 horas que dispusera para estender o saco de cama no aeroporto de Girona, começou então a tornar-se mais certa a hipótese de perder o avião do dia seguinte para Fuerteventura. Um dia perdido em viagens e expectativas de um desejado reencontro aparentemente arruinadas. Este era o cenário quando nova voz num espanhol de cão indicou que o avião ia dar mais meia volta e aterrar no aeroporto de Réus. Menos mal, afinal de contas fica apenas a 2 horas e meia de Girona. Uma pergunta ecoou-me então, “Réus tem aeroporto?”.

O nevoeiro era tal que só ao sentir as rodas roçarem o solo me apercebi da existência de um aeroporto. No chão mais 8 aviões de portes diversos enchiam o pequeno aeroporto aparentemente ainda em obras. Sem chá nem bolinhos, o comité de boas vindas tinha apenas como oferta de consolo uma notícia ainda mais desagradável. O microclima daquela noite tinha obrigado ao desvio de cerca de uma dúzia de aviões. Sem logística assegurada para breve os passageiros lutavam agora por um lugar num dos autocarros que iria fazer a trasfega da carne humana até Girona. Correrias, empurrões, encontrões e trocas de impressões em alta voz, a confusão era tal que por momentos julguei-me no meio da feira do Norton de Matos em plena Espanha. Habituado a multidões senti-me nas minhas sete quintas e foi com relativa facilidade e sem perder pele pelo caminho que surripiei um lugar no autocarro.

Descansado e a caminho de Girona foi então que fui informado que as confusões estavam agora ainda no inicio. De espírito rebelde como uma ovelha negra, o meu autocarro tinha-se perdido do rebanho e estava agora em parte incerta. Como anjo salvador uma trabalhadora da noite que entre uma e outra proposta indecorosa indicou ao motorista o caminho para o abençoado aeroporto de Girona. À chegada a única notícia boa da noite. Em 15 voos marcados para descolarem apenas dois não haviam sido cancelados. Um deles era o meu…As dificuldades não arrefeceram palpitações e derrubadas as barreiras de hesitação estava por fim no País das Maravilhas...

Terça-feira, Abril 29, 2008

Decisões

Tento encontrar uma justificação lógica para o rumo dos acontecimentos. Um indício de racionalidade em todo o percurso tortuoso que me trouxe até este preciso instante. Demito-me dessa função antes de chegar a qualquer conclusão. A vida é afinal feita de escolhas. No gabinete procuro a solução óptima de todos os problemas. Esqueço que as escolhas que faço na vida são movidas pela racionalidade circunstancial, pela sensibilidade momentânea. Não são óptimas, são apenas as escolhas mais acertadas no milésimo de segundo em que as tomamos. Por hoje fico reconfortado, aconchegado no meu bom senso passado. Se todas as decisões tomadas me trouxeram até este pequeno País das Maravilhas do momento então terão sido as decisões mais acertada. Durante dois meses guardei na gaveta das minhas memórias a história de onze dias da minha vida. Na verdade onze dias mágicos. O adjectivo conduz para o campo do imaginário e surreal mas bem vistas as coisas essa será a forma mais fidedigna de caracterizar a minha estadia nas Canárias. Território desconhecido, o Arquipélago das Canárias figurava no meu mapa apenas como uns pontos áridos na costa africana e como lar do Nobel Português. A insularidade tem no entanto uma aura mágica. Um magnetismo estranho que fez com que até ao momento todos os contactos que tenha tido com tais territórios me tenham dado alegrias normalmente pouco atreitas aos territórios continentais.
Nas Canárias as dúvidas dissiparam-se e os receios foram esmagados pelo futuro risonho que se acercou. Para a história ficam os relatos censurados de uma Lua Mel pressagiada.

Domingo, Abril 27, 2008

Queda livre

Roda vida de emoções, qual trapézio do circo Chen, os últimos meses da minha vida têm sido isso mesmo, uma catapulta de sentimentos opostos. Alegria genuína e tristeza pela ausência, assim tem oscilado o coração. Sem mais a que me agarrar e sem esperanças depositadas no Cruzeiro do Sul, açambarcado sem vergonha alguma pelas religiões mundanas, decidi atirar-me do abismo. Pensei numa ponte mas com os acidentes que para aí andam ainda levava com um carro antes mesmo de ter sentido a liberdade do ar. O cimo de um prédio para além de muito batido é sempre uma incógnita; nunca se sabe quando é que alguém vai sacudir um tapete. O choque eléctrico seria uma possibilidade fora de questão, ainda para mais ao preço a que está a electricidade. Num rasgo de modernidade e porque era sonho de menino a sensação de voar sem asas optei pela queda livre prolongada. Como em qualquer movimento de histeria em massa apelei ao “mal senso” dos meus amigos, mas poucos foram os que se mostraram disponíveis para abraçar a causa. Hoje em dia o porta-moedas não permite estes desvarios, nem na hora da confissão final. Como companheiro confirmadíssimo desde a primeira hora o meu Pai. Alguém inocente e obviamente até então privado da sua companhia disse, fazendo jus ao bom senso que normalmente impera nos ascendentes mais próximos, “se fosse perigoso certamente o teu Pai não iria nem te deixaria ir!” Nada mais erróneo… Afastados os cobardolas e os que por demais razões não puderam comparecer, a tropa de elite foi composta pelo Pai Repolho, a filha Repolho, eu (o mentor diabólico do esquema segundo a sabedoria maternal), a Luisinha, o Nuno e a Maria João. Não foi segunda-feira mas pelos vistos o passar dos anos homogeneíza a escala semanal pelo que temos de melhor. Talvez pela probabilidade ainda que remota de fim estreitam-se laços e reabrem-se capítulos de histórias deixadas ao abandono pela imaturidade juvenil. Ganhamos todos! Como transporte uma lata saída dos filmes. Um biplano minúsculo onde uma dezena de humanos descontentes com a sua condição não voadora são enfiados. As parecenças com os concursos de sardinhas nos twingos só terminam 4500 metros mais acima quando um a um são lançados ao abandono no espaço aéreo. Primeiro às cambalhotas imbuído no caldo azul, depois com perfeito controle do corpo num movimento de rodopio e foguete, a sensação de liberdade e pequenez durante a queda livre é electrizante. Do alto da terra, para onde até os habitantes da Serra da Estrela teriam de olhar para cima, faz-se um zoom in a 250 km/h sobre um mapa Google Earth real. Para os últimos 1500 metros fica reservado o pára-quedas. É como que uma sessão de yoga depois de exercício extenuante. Pairando como pássaro que teima em fazer valer as asas concedidas pelo criador darwiniano levei mais 15 minutos a pousar de novo os pés no chão. Sossegaram os corações que palpitavam olhos postos no ar e outros, lá longe perto do deserto, no visor do telemóvel.
Não fosse o custo exagerado diria que seria experiência para repetir. Mais um capítulo cumprido e menos um item a adicionar à lista de coisas que gostava de ter feito…

Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

Karneval in dem Reich

Recorrendo a eufemismos para não evidenciar o entusiasmo remanescente da excursão ao Carnaval Alemão e poupando-me a acusações de querer fomentar inveja descrevo a experiência carnavalesca por terras das salsichas Frankfurt como uma deleitosa surpresa.Usufruindo de promoções imperdíveis da Ryanair esta foi a segunda de uma série de três expedições europeias agendadas antes de embarcar na aventura americana. Turim, cidade berço da Fiat, foi cumprida em Dezembro com uma recepção calorosa do Paixão. Para início do novo ano, uma ansiada visita ao elemento estrangeiro da família 968, Filip de seu nome, Alemão de nascimento, Brasileiro de adopção, Português amantizado.
Longe vão os tempos das correrias de rua, armados de balões de água até aos dentes, pistolas de fulminantes fumegantes e mente desprendida de obrigações e responsabilidades profissionais. Ainda assim e usufruindo da liberdade de fim-de-semana, concedida pelo flexibilidade horária, foi-nos possível, a mim e ao Kiko, uma visita relâmpago ao que se afigurou como um dos melhores carnavais do velho continente.
Na bagagem uma fantasia homemade de escocês. Saia pregada, num xadrez típico das montanhas insulares, camisa branca engalanada por uma gravata preta assinalando a carga histórica do traje, meias brancas até ao joelho com a bandeira padrão hasteada no cimo, sapatos pretos (pelo menos no primeiro dia) de cordões enrolados como serpentes pelas pernas e faixa aristocrática segura pelo cinto com o símbolo de família. À cintura a inevitável pochette indispensável a qualquer pessoa que se mova de saia… A loucura e paixão despertada pelo carnaval alemão só encontram, a meu ver, paralelo no Brasil. Uma semana de férias agendadas nas empresas, emigrantes em rota de retorno ao país de origem e a sensação de que por momentos a velha e fria racionalidade metódica de produtividade alemã encarnou a bagunça brasileira. Assim é a aura exalada nas ruas das cidades de Mainz e Colonia. Nos arredores, bailes de aldeia organizados ao pormenor recebem centenas de foliões vestidos a rigor. Nas cidades os bares em cada esquina dão o mote festivo. Princesas, piratas, monstros mitológicos, oficiais da marinha, polícias à paisana, damas inglesas e até rameiras, a festas estão povoadas de personagens de fantasia. Jovens de idade ou de mentalidade, a verdade é que são raras as pessoas que saem à rua com indumentárias rotineiras. Domingo e Segunda são os dias reservados ao carnaval de rua. Centenas de milhares de pessoas debaixo de chuva persistente e frio doloroso festejam euforicamente a passagem dos carros alegóricos transportando mensagens sociais e políticas ao mesmo tempo que distribuem caixas inteiras de chocolates e guloseimas. É a versão adulta do Halloween americano. Contrariando tendências de globalização de hábitos e costumes o carnaval alemão segue ainda os preceitos tradicionais rejeitando a musicalidade carnavalesca importada do Brasil e as meninas de bunda à mostra e maminha de fora desfilando nas ruas. Apesar de originário de Munchen constata-se a disseminação dos princípios do festival da cerveja a outras cidades. Louras grandes e altas, versões inanimadas das congéneres humanas que desfilam pelos bares com olhares assanhados e emanando volúpia em cada gesto, passaram-nos pelas mãos às dezenas em 5 dias. Amizades por afinidade, conhecidos de ocasião ou apenas transeuntes noctívagos partilharam o mesmo capricho pela diversão inebriante da cevada, musicada por hits tradicionais da música ligeira alemã. Apesar de ser um zero à esquerda em língua germânica a verdade é que ao fim das primeiras horas já era capaz de trautear uns quantos versos e melodias mais insistentes. Por entre empurrões e tangentes itinerantes, no meio de uma multidão de gigantes nórdicos as gafes musicais passaram aparentemente despercebidas.
Como balanço final a sensação de dever cumprido por ter perpetuado o mito que rodeia o interior das saias escocesas…



Quarta-feira, Dezembro 12, 2007

Funciona?

Como remate desta cruzada no relato das minhas aventuras em Cuba a resposta à pergunta que se impôe.

Funciona?

A meu ver não funciona, mas também eu peco na minha apreciação pela sobranceria económica que o meu berço consentiu. Ainda assim, mil vezes ser pobre em Cuba do que nos vizinhos Estados Unidos. Em Cuba estaria subjugado à lei do Estado, Mãe tirana mas protectora.

Teria comida, racionada mas suficiente;
Teria casa, vítimas das bombas temporais mas um tecto;
Teria trabalho, jornadas de 12 horas consecutivas dia sim, dia não mas útil à sociedade;
Teria educação, orientada pelas ideologias impostas mas construtora;
Teria cuidados de saúde, não preventiva mas providencial para apertos sérios.

Para mim e muitos outros é pouco, é um atestado de renúncia a sonhos e ambições futuras. "Eu queria perceber os pássaros, voar como o jardel sobre os centrais, saber porque dão seda os casulos mas isso já eram sonhos a mais!"
Aos olhos dos verdadeiros desprotegidos da sorte não é pouco, é tão-somente a resposta a todas as preces diárias. Pelas palavras de Gabriel O Pensador “Eu queria morar numa favela…"

Terça-feira, Dezembro 11, 2007

Areal branco

Terminado o périplo possível pela realidade cubana, ficaram os últimos dois dias reservados para a letargia hoteleira de Varadero. Dois dias de praia e repouso. A primeira noite em Varadero foi marcada pelo fogo-de-artifício de relâmpagos naturais, orquestrada pela batida dos trovões que ribombavam nos céus. Um cenário fabuloso de raios e coriscos a riscar os céus em direcção às montanhas ou naufragados no mar. Fado meteorológico para os ateístas, ou manifestação da indignação da Natureza perante tamanho fosso nas condições de vida, o espectáculo não podia estar mais de acordo com o estado de espírito dominante no final da viagem. Terminada a noite parece também o mundo ter esquecido a realidade deixada para lá da cancela que separa a península de Varadero. Um dia de sol estupidamente quente onde a própria brisa cortava a respiração. Um dia de lassidão debaixo dos chapéus de chopo, comida farta a todas as refeições e mordomias hoteleiras. Entende-se facilmente a atractividade destes locais como destinos de viagens de finalistas. Finalistas do secundário, da licenciatura ou mesmo das preocupações que nos rodeiam… Desde pequeno que sofro de hiper-actividade. Acordado ou a dormir não consigo estar parado. Sinto que a vida me foge quando a preencho com espaços de remanso físico ou cognitivo. Ao fim do primeiro dia já tinha experimentado quase todas as actividades lúdicas oferecidas pelo hotel. De lado ficaram os jogos de colectividade anunciados incessantemente nos microfones espalhados pelo complexo. Um grupo de animadores, semelhante ao esquadrão gay da SIC versão desportiva, alicia todos os clientes para competições entre nacionalidades. Uma espécie de campo de férias do Big Brother com tarefas agendadas para todos os residentes do hotel e prémio de bom comportamento. Última noite nas Caraíbas, céu estrelado e um bafo quente apelam à festa. Foi assim sem surpresa que o grupo de portugueses se juntou a uma festa de jogos de areia. Desvirtuámos o concurso e conseguimos pôr toda a gente a rir como crianças felizes. Para final de festa e em jeito de comemoração o sketch pornográfico da noite. Perdemos os jogos sem fronteiras para os Argentinos mas ganhámos nas comemorações. Em trajes menores ou mesmo pelados dos 16 aos 61 todos foram ao banho na maré da meia-noite.
Mesmo debaixo de protecção lunar e os astros aparentemente alinhados numa conjugação favorável os pecados terrenos não passam despercebidos aos olhos da mãe natureza. Como resultado um novo mapa estampado nas costas. Exactamente 74 picadas de mosquitos. O tesouro? Esse ficou guardado no segredo dos Deuses…

Domingo, Dezembro 09, 2007

Pombal Humano

Pensava ser a base de Guantanamo a única área territorialmente cubana vedada aos locais mas enganei-me. Varadero, destino de eleição de milhares de turistas de todo o mundo é provavelmente a região menos cubana da ilha. Com cancela à porta os 60 km de península e areais fotográficos são local non grato para os cubanos. Em Guantanamo poderão entrar como prisioneiros, em Varadero entram apenas como trabalhadores e desde que estritamente necessários (não vá ficarem ofuscados e infectados pela opulência do estilo de vida dos turistas). Distribuídos ao longo dos 60 km de areal branco e mar azulão, as jóias dos grandes grupos hoteleiros agrupam-se por número de estrelas. Do 0 ao 60 um crescente de visibilidade térrea acentua o brilho estelar dos hotéis. Fora da península, na costa oculta dos mapas internacionais, o brilho é cimeiro. Milhares de estrelas crepitam sobre a penumbra dos areais, por hora cubanos. Sem paredões vidrados, piscinas de cloro ou manjares reais reina a paz de quem vê os areais molhados pelas águas celestes como barreira do mundo ocidental.
São pulseiras douradas ou prateadas de plástico reles, mas açulam a felicidade dos visitantes. À chegada cada um recebe a sua anilha, a dádiva de liberdade para acesso gratuito a tudo aquilo que foi já pago antecipadamente. Como pombas vidradas vagueiam pela área do hotel usufruindo de tudo o que este possa oferecer. Às refeições a balbúrdia semelhante ao lançamento de milho no banco de jardim. Esquecendo os modos que praticam em casa correm para os restaurantes, refeitórios comuns engalanados pela decoração garbosa que imprime ares de sultania, comendo como se não houvesse amanhã. Compreende-se aqui o porquê da impossibilidade da gratuitidade como padrão. Aparentemente ela envilece a postura do homem e ao contrário do que seria de esperar acentua o egoísmo.
Bronzeados e relaxados conhecem de Cuba os camareros, o mar azul e quente, a meteorologia abençoada e a gama completa de misturas alcoólicas locais. Férias de sonho iguais a tantas outras possíveis em todas as unidades hoteleiras do género espalhadas por todos os países exoticamente pobres...

Sábado, Dezembro 08, 2007

Che, Ícone Revolucionário

Mausoléu de Ernesto Guevara em Santa Clara

Figura soberbamente exaltada, é incontornável passar por Cuba e permanecer alheio à efígie de Ernesto Guevara. Odiado ou amado, só a indiferença não parece ser sentimento presente ao olhar de frente o retrato do jovem guerrilheiro. Aclamado como figura central da revolução cubana e associado ao socialismo mundial, fica hoje clara a sua demarcação do politiquismo sectário. O epíteto comunista do Estado surgiu após a revolução pelo que associar Che somente ao movimento comunista é reduzi-lo aos combatentes de causas políticas e elites ideológicas distantes portanto da defesa do povo pelo povo, como era sua intenção. Afastando o romantismo e fantasia que envolve a personagem ficam também os relatos de acções inumanas e por vezes mesmo brutais contra todos aqueles que se ergueram no caminho das suas convicções. Pichado nas paredes, impresso em cartazes, estampado nas camisolas, à venda nas livrarias, representado em esculturas de ferro, esculpido em estátuas, a figura de Che Guevara tem certamente mais aparições que a do menino Jesus. Aliás, não é de hoje a comparação entre a imagem bíblica do Cristo ocidental de barbas e olhar distante e a foto capturada por Korda, em 1960, do Comandante Che Guevara. Pelo distanciamento que me é permitido atrevo-me a afirmar que os intentos originários do cristianismo e os princípios ideológicos defendidos pelo Comandante são afinal bastante similares. Ambos se batem pelo humanismo, pela defesa dos desprotegidos da sorte, pela fraternidade e igualdade entre os Homens. São chavões de boas intenções mas estou convencido da sua real importância e credibilidade na génese do movimento celeste pela cruz de Deus e mais recentemente térreo pelas mãos de Che.
A diferença é, porém, clara num ponto fulcral. A religião alheia-se de responsabilidades e põe nas mãos de um ser divino ficcionado a tarefa de estabelecer os limites de fraternidade e humanismo. Todos que o seguem são assim ilibados de responsabilidade pelo facto de responderem apenas diante de quem jamais se poderá apresentar na Terra. Os utópicos acreditam no poder das suas acções e na capacidade individual de mudar o mundo. É, portanto, uma posição mais corajosa mas também mais responsabilizadora dos actos individuais. Ambas são, porém, irrealizáveis pois batem-se com a própria essência humana. Muitas vezes cruel e desumana é também responsável pela insatisfação e curiosidade que nos fazem avançar.
Em Cuba um herói da revolução, na Bolívia a criação do mártir, na Argentina um filho amado, para os revolucionários um modelo de vida, para todos os inconformados um ídolo, para a Humanidade o maior Revolucionário dos tempos modernos, um Homem incorruptível e leal às suas convicções na defesa dos fracos e oprimidos custe o que custasse...

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Quinta-feira, Dezembro 06, 2007

Lagosta Suada

Camisolão felpudo enfiado pelo tronco, calças arregaçadas com desvelo para não ferir a harmonia da fardamenta e os tornozelos desnudos dando seguimento aos pés descalços que se enterram por entre milhares de grãos de areia lavados pelo mar e pela chuva de Inverno. Passear na praia em pleno Inverno é uma delícia. A praia deserta, o mar revolto e a neblina que nos embioca congregam um ambiente de serenidade prazenteira. Esta é uma experiência impossível para os Cubanos. Por um lado o clima equatorial. Apesar da existência de uma estação do ano apelidada de Inverno, trata-se apenas de uma colagem às designações dos povos que descobriram a ilha. Na verdade o clima varia entre o Verão escaldante e a Primavera amena, entremeado de tempos a tempos por alguns visitantes ventosos com nome de mulher. Por outro lado a lei estatal. Causa incredulidade, mas a verdade é ir à praia no Inverno é proibido nas zonas turísticas. Do cimo da minha ingenuidade calculo que seja para prevenir os surtos de gripe, afogamentos e indigestões… Não que seja frequente ver cubanos a gozar férias de papo virado para o ar, mas as praias junto aos hotéis são escritórios de actividades muito lucrativas. Para ter acesso à fonte uma caminhada longa. As praias são públicas mas os acessos não tanto; há que contornar os loteamentos hoteleiros que formam autênticas muralhas entre o interior e o mar aberto. Terminada a visita à cidade museu fui interpelado por uma moça mãe de filhas. Simpática e ousada pretendia que lhe oferecesse uma mochila da agência de turismo. Para mim a mochila seria mais um mono a juntar às tantas que guardo em casa à espera da melhor ocasião para as despachar, mas para aquela mulher era uma prenda de natal antecipada. Sem hesitar disponibilizei-me logo para lha dar. Um problema porém, a minha mochila estava a repousar no hotel. “Non te preocupes. Cerca de las 4 me espera junto a la playa!” O inusitado da situação e aparente impossibilidade causaram-me espanto.À hora marcada, 10 quilómetros a sudeste lá estava a rapariga. Vi-me então num filme de espionagem e contrabando. A moça não voltou a falar comigo. A comunicação foi feita através de intermediários e por entre mergulhos nas águas cálidas. Como correio bombista pousei a encomenda no meio da praia na terra de ninguém. Minutos mais tarde a encomenda encontrou o seu destinatário. Um sorriso sincero e agradecimento distante foram as retribuições face à insignificância do meu gesto. Minto, ainda que inesperadamente recebi também umas marocas handmade, também elas cuidadosamente abandonadas. O cenário entende-se perfeitamente se se souber que a mendicância é uma actividade ilícita e punida se apanhado em flagrante delito.Na costa sul de Cuba a água é infernalmente quente, salgada e de cor pouco nítida. Mergulhos refrescantes só são possíveis entre as 6 e as 8 da manhã. São mergulhos de escuridão pois as pálpebras só descerram depois de escorrida toda a salga. A abertura da praia à povoação na altura do Verão corresponde também à abertura da estação da caça; da caça ao turista. Homens habituados ao clima equatorial, muito cubanos aproveitam esta época para fazer da praia o seu escritório de negócios. Por momentos retrocedo 3 anos até ao meu Interrail pela Europa. Um pouco mais novo e com o cabelo cheio de tranças (um rasta de aspecto lavado) era interpelado a cada 5 minutos para comprar todo o tipo de alucinogénicos. Homens de aspecto misterioso e gabardina comprida mostravam-me sem pudor todo o mostruário de artigos de viagens do subconsciente. Mergulhar nas Caraíbas difere apenas pela indumentária. No mar, de 10 em 10 metros, um trabalhador do comércio. Pele escurecida, cabelo à escovinha e óculos escuros, os contrabandistas vestem a sunga para irem para o trabalho. Não oferecem droga mas sim rum, charutos e lagosta. Em Cuba não há produção ilegal nem tão pouco produtos de imitação, tudo é genuíno.
Escapar ao controlo omnipresente do estado em todas as transacções comerciais é a forma de sobrevivência de grande parte da população. Os produtos são desviados dos armazéns do estado para o comércio paralelo, ou como se chama noutros países mercado negro.
António, um mulato sorridente e óculos Armani, providenciou a aventura da noite. Por dez 10 euros um jantar de lagosta num “restaurante caseiro” numa povoação próxima. O transporte em Cadillac compunha o ramalhete. Reunido o grupo ao crepúsculo, aguardámos com ansiedade a chegada das peças de antiguidade. O Cadillac era afinal uma carrinha de hotel fretada à má fila entre um expediente e o seguinte. Amontoados no interior, uns no acolchoado, outros no chão seguimos por estradas secundárias até uma espécie de favela rasteira. Duas ruas de casas arejadas pela privação de janelas, sujas pela poeira, estradas de terra abatida, e como em qualquer bairro pobre um monte de crianças pé descalços a correr na rua. Bem vistas as coisas o jantar foi um sucesso. Lagosta grelhada suculenta com molho picante, frutas tropicais e uma aura conspirativa a modelar o ambiente. Para trás ficam a possibilidade de jejum depois de um bate face com o chefe de cozinha e da ameaça séria de sermos apeados ao nosso destino no meio da povoação. Tudo não passa afinal de estabelecer limites. Eles conhecem os deles e nós apalpamos os nossos. Algumas cedências de parte a parte e finca-pé nas posições defendidas restabelecem o equilíbrio…

Terça-feira, Dezembro 04, 2007

Propaganda

Sem grandes marcas internacionais e variedade de escolha reduzida ou nula, em Cuba os cursos de publicidade e marketing seriam rampas para o desemprego na certa. Já a propaganda política encontra-se bem enraizada e aparentemente com margem de progressão. Não contribui directamente para a produtividade do país mas certamente dá uma ajuda indispensável na condução do rebanho e rememoração dos princípios básicos das Caraíbas Cubanas.Nas cidades ou no campo os outdoors não publicitam o design inovador do último Seat Leon ou as potencialidades da última geração de portáteis da Sony. Sem preocupações com a velhice, que aparenta ser epidemia do Homem do velho continente, os cosméticos encabeçados pela Laeticia Casta foram também eles Castrados. Exaltando os heróis da revolução, os dias marcantes de libertação do povo, os mártires reais e os recentemente ficcionados na luta contra o capitalismo sanguinário ou apontando o dedo às falsas democracias, os cartazes de propaganda estão disseminados pelo território cubano.“De pequenino é que se torce o pepino”, ditado popular com materialização escrupulosa em Cuba. Algures no meio do território central de Cuba passámos por uma escola primária. A tenra idade é altura propícia para estimular as ideias socialistas nas mentes dos jovens cidadãos ainda na linha de montagem. Espalhados pelo recreio, para além dos habituais equipamentos de divertimento juvenil, um conjunto de tabuletas com dizeres revolucionários. A analogia poderá parecer estranha mas a imagem que me veio à cabeça foi a de um parque de condução. As regras de civismo rodoviário substituídas pelas leis de comportamento do estado socialista, numa pista onde o trilho marcado não deixa muita margem para a invencionice ou auto-recriação. Para bem do senhor de barbas espera-se neste caso que o povo cubano seja mais cumpridor do código das estradas que o congénere português…

Sexta-feira, Novembro 16, 2007

Trindade - cidade museu

Umas centenas de quilómetros a sudeste de Havana, queixada caída na fronteira sul, olhar posto no Atlântico surge a cidade de Trindade. Pelo meio uma paisagem tropical viridente, salpicada aqui e acolá por povoados e atravessada por uma autopista de 8 vias. Engana-se quem pensa que se trata de ostentação ou da marca asfaltada de outras épocas. Na verdade trata-se apenas e só de uma pista de emergência para aterragem de aviões caso o belicismo infecte o país. Ainda que o fluxo de carros seja diminuto estranha-se conduzir numa estrada destas dimensões sem separador central e com as linhas de marcação há muito descoloradas pelo sol diário. As bermas sem protecções fazem-se notar pelo cordão humano, que se alonga por quilómetros sem fim, à espera da boleia caridosa.Noutros tempos uma cidade piscatória Trindade enveredou mais tarde pelo glamour dos fazendeiros da cana de açúcar. Dos tempos em que Cuba era dos maiores produtores mundiais de cana de açúcar ficaram as fazendas e os palácios senhoriais. Engalanadas a rigor, as construções de Trindade fazem esquecer o aspecto decadente da cidade de Havana. O ar quente sufocante, a estrada vermelha da cor da terra e as cores garridas das casas teletransportam-me por momentos para o Alentejo interior.Seja de pesca ou de açúcar os tempos da cana são chão que deu uvas. Hoje Trindade vive do turismo. Dir-se-ia mesmo que Trindade é como uma aldeia museu com habitantes reais encenando o teatro da vida como peça de apresentação para aqueles que mais afortunadamente têm a possibilidade de mudar de ares de quando em vez. Caras sorridentes, botecos de esquina, espectáculos de dança, crianças franzinas a cruzarem as ruas com o destino errante próprio da meninagem e os sons cubanos como clave de sol transformam Trindade numa cidade alegre e emissora de boas ondas.O reverso da medalha é dado pela abordagem constante dos transeuntes locais pedinchando por qualquer coisa. Seja homem ou mulher, criança ou idoso, cocho ou saudável, qualquer autocarro de turistas é avistado como uma gazela por um leopardo. Paparazzis da pobreza expôem a sua própria vida procurando quebrar a barreira de insensibilidade que nos faria avançar a direito sem olhar para o lado. Os flashes substituídos pelos sorrisos resplandecentes são disparados sucessivamente ganhando pela simpatia a empatia de rostos em trânsito. Canetas, t-shirts, mochilas ou quaisquer outras ninharias para qualquer um de nós são para eles pequenos tesouros.
Repugna-me o espiríto caritativo sazonal como forma de expurgar pesos conscienciosos diversos ou como forma de aliviar a alienação culposa em relação às desigualdades existentes. Sermos rodeados por quem pouco tem e encontra numa caneta a felicidade de um dia não nos faz sentir maiores ou benfeitores sociais. Desencadeia antes uma reacção de revolta pela aparente impossibilidade de mudar o mundo. Será que somos mesmo assim tão impotentes?

Domingo, Novembro 04, 2007

Embargo selectivo

Em Cuba o embargo não é só mental, é também material. Queixas e lamentos difundidos na comunidade internacional acerca dos malefícios que o embargo imposto pela super potência americana causa na sobrevivência dos cubanos são afinal verdadeiros. Sem produção interna e os parceiros comerciais quase inexistentes a população não tem sequer acesso a alimentos básicos como leite ou produtos de higiene como o velhinho sabonete.
Curioso é o facto dos cubanos não serem aparentemente capazes de produzir sequer produtos alimentares primários, mas terem agilidade e desenvoltura para criar refrigerantes iguais à Coca-Cola ou à Fanta. Muda o rótulo mas o sabor é igual. Conseguem aquilo que dezenas de marcas em todo o mundo tentam há anos sem resultados. A motivação é diferente, afinal de contas nestes casos trata-se de mostrar que são capazes de competir com alguns dos símbolos dourados do capitalismo americano.Lembro-me de conversas antigas sobre a capacidade têxtil portuguesa quando os tecidos asiáticos ainda ficavam a meio caminho de Portugal. Afinal o isolamento não é necessariamente negativo para todos… Pelo clima acalorado, que apela ao passeio em tronco desnudo, ou pela inércia produtiva própria dos mandriões, as agulhas cubanas repousam e os tecidos escasseiam. Comprar uma camisa ou um par de sapatos, é um luxo asiático que implica pelo menos o salário de um mês. A decisão não é complicada, entre passar 31 dias a pão e água ou andar feito maltrapilho pelas ruas a escolha recai obviamente pela adesão à moda negligé de trapos esfarrapados tão em voga na Europa. Um olhar atento às vestimentas dos transeuntes locais revela a origem dos panos que lhes cobrem os corpos. Por entre manchas com lugar cativo, a que antiguidade assiste, e buracos ventiladores espreitam dizeres que denotam a vida passada dos trapos em lugares longínquos e distintos do globo.Seja na rua ou nas melhores lojas do downtown o comércio cubano é uma venda de retalhos. As montras envidraçadas ou os panos estendidos na via exibem uma miscelânea de artigos antigos. Sem pudicícia pela idade avantajada e aparência gasta, nas bancas misturam-se máquinas fotográficas, tubagens, trapos, livros e tudo e tudo… (Já parecia o Mário Viegas na Declaração Anti Dantas) A apresentação cuidada e legalidade de todos os negócios obumbram o parentesco com a feira da ladra, mas na sua essência corre o mesmo sangue.

Paradoxo, palavra comum mas de explicação confusa. Em Cuba os exemplos de paradoxos são aos mil. Privados de todos os bens possíveis e imaginários os Cubanos vêem os seus visitantes serem presenteados com tudo o que há de melhor. Serão os hotéis e complexos hoteleiros como principados, autênticas ilhas fiscais de recepção de produtos importados? A resposta poderia ser complicada, porém as justificações por detrás destas constatações ferem pela simplicidade e carácter desumano da raça dita humana. Todos os dias grandes empresas estrangeiras, incluindo das moralistas norte-americanas entram no porto de Havana e despejam os seus produtos. Como? Simplesmente pagando a multa por quebrar o embargo. Nos hotéis os preços a que são vendidos os produtos superam a taxa de multa e ainda proporcionam lucro suficiente para todos os intermediários. Já ao povão não chega nada pois não tem sequer capital para justificar o pagamento da multa da imoralidade. Num hotel uma Coca-Cola custa 2 pesos, o equivalente a um quinto do salário médio dos Cubanos. Em Cuba entupir um cano fica caro…

Não fosse o desconforto sincero pela pobreza omnipresente que enleou os meus sentidos diria sem nenhuma restrição que viajei sempre confortável em autopullmans de luxo. Pelo óculo da vidraça vi os poucos autocarros citadinos que se arrastavam como caixas de latão a carpir os seus pecados pelo arrojar pesado no asfalto dilacerado. Como explicar o paradoxo? Mais uma vez a simplicidade toma o pulso da razão. Numa atitude de solidariedade que demonstra a união da América Latina o governo de Lula agraciou a ilha de Fidel com uma remessa de autocarros de luxo da empresa Marco Pólo. Ablução de imagem ou altruísmo franco, a verdade é que os ditos autocarros foram entregues como um donativo e portanto livres de taxas de quebra de embargo. Curioso é saber que quando estes presentes derem o berro também os turistas vão ter de andar à boleia. Uns para o trabalho, outros de mala às costas, todos alinhados nas estradas pelas pinturas do embargo…

Quarta-feira, Outubro 10, 2007

Declínio Ideológico

Em nome do povo e pelo povo 1959 foi a data da única revolução feita pelos próprios Cubanos. Até há uns tempos atrás não entendia a ideologia de um amigo meu. Esquerdista inato contesta ainda assim a maioria dos grupos de esquerda.

A sociedade perfeita surgirá pela revolução, não um motim sectário e imposto, mas antes um movimento global fruto da insatisfação interior e impossibilidade de continuar a pactuar com as injustiças impostas.

Confesso a minha ignorância e pouca disponibilidade de raciocínio para atingir a profundidade do pensamento. Assim era até ter pisado solo cubano. Ainda que longe da presciência descrita, em 1959 o que ocorreu em Cuba parece-me ter sido algo semelhante, a gota excedente de um vaso sem fundo há séculos. Um momento raro de união da maioria silenciosa em torno das desgraças vividas, das arbitrariedades impostas e das iniquidades sentidas, prontamente mobilizada por um grupo de combatentes para entregar à população a carta do seu destino.

Encerrar o colonialismo (verdadeiro ou dissimulado) e sanar todas as feridas e injustiças por ele geradas é prioridade número um em qualquer revolução popular. A nacionalização de empresas, propriedades e bens privados foi a primeira consequência desse saneamento justo. Danos colaterais claro que os houve e a prová-lo a primeira debandada de cubanos para a costa dos estados unidos. Em boa verdade e apesar das injustiças pontuais, eram, na sua maioria, os beneficiários directos ou herdeiros dos privilégios concedidos pelo poder cessante. A comparação pode parecer extrema mas diria ser um exemplo "caribenho" da fuga dos portugueses das colónias do estado aquando da declaração da sua independência. Cada caso isolado um drama de família, mas compreensível em nome da causa do novo país e da equidade popular.

Como todas as ideologias e movimentos, por mais genuínos e justos que sejam na sua génese, após se afirmarem degeneram. Destronada a utopia remanesce o carácter humano, falível e oportunista.
O declínio ideológico é hoje bem visível no choque geracional de mentalidades. Socialistas arreigados, os cubanos da revolução continuam a defender e acreditar na praticabilidade do sonho encabeçado por Fidel. Os filhos da revolução por seu lado, alheados do passado e da pesada herança que receberam, desligaram-se dos valores de colectividade imprescindíveis para a aplicação do socialismo. Por mais racionais que sejamos, seremos sempre na essência um ser animal, produto da evolução darwiniana onde a lei do mais forte vigora. Como compatibilizar a selecção natural com um sistema que tenta igualar todos os homens?

O sistema utópico idealizado por Fidel e Ernesto Guevara começa hoje a ruir internamente pela descrença e falta de motivação do povo que um dia acreditou ser possível a criação de uma sociedade justa e igual. A nova classe politica emergente apesar de isolada do estrangeiro parece ter propensão inata para assimilar os vícios dos políticos ocidentais. Sem grandes condições e desalentados pelas baixas expectativas os cubanos são um povo amorfo.

Ao contrário da primeira debandada, nas últimas décadas assistimos a fugas diárias em pirogas de papel de pessoas que nada têm para além da sobrevivência diária e ambição humana censurada.

A procura de igualdade e manutenção de condições de vida humanas para todas as almas é a nota 10 desta utopia, mas porquê nivelar todo o mundo por baixo? Será uma barbaridade tão grande e impossível de realizar o nivelamento pela mediania?

Domingo, Outubro 07, 2007

Embargo mental

Escudada pelo papão do embargo como justificação para o subdesenvolvimento persistente, Cuba é inexplicavelmente um país de ataraxia latente. Um país parado no tempo e sem intenções de querer vislumbrar o futuro. Poderia ser inércia pura, e assim o é no caso dos dirigentes, mas quanto à população será antes um prolongar de hábitos de submissão esclavagista centenários. Não fosse o dramatismo que fere a dignidade humana diria em tom "gozão" que os cubanos são como as Marias vão com todos.
A descobertas das Caraíbas pela frota de Colombo abriu o paraíso balnear aos olhos do mundo, mas assinalou também o último dia de verdadeira independência dos Cubanos (sejam eles quem forem). Chacinados ou vergados pelo peso do trabalho e das enfermidades que desconheciam, em Cuba como de resto nos restantes países da América, os Índios foram os primeiros a sucumbir. Iniciou-se o reinado castelhano e com ele a criação do povo cubano. Uma moxinifada de índios, colonos espanhóis e escravos negros do coração da humanidade, os verdadeiros colonizadores genéticos do novo continente. No final do XIX século chegaram os novos amigos de Peniche. Olho ávido pelas terras doces de Cuba, foram os Norte-Americanos que deram a ajuda decisiva para a libertação do opressor ibérico. A lufada de ar fresco depressa se revelou brisa ligeira. Usando presidentes fantoches para disfarçar o poderio, os Estados Unidos tornaram-se os novos senhores da ilha do caimão, continuando o povo agrilhoado às inclinações dos governadores.
Números de circo encenados repetidamente enevoaram intenções revolucionárias pontuais, substituindo marionetas gastas por outras aparentemente patrióticas e imaculadas aos olhos inocentes do cubano esperançado. O carrossel continuou a girar de feição para os norte-americanos até 1959.
1959 poderia ter sido a data de descolagem do povo cubano, mas infelizmente assim não sucedeu. A nacionalização dos bens e negócios “legalmente” usurpados pelos norte-americanos levou ao corte de relações. Não se tratou de retaliação por violações de direitos humanos mas somente pela perda dos negócios milionários da cana-de-açúcar em solo cubano. Sem apoios externos nas áreas circundantes cederam à tentação soviética. Ainda que diferente, assistimos até à queda da união soviética do colonialismo dos tempos modernos. Em troca de apoio à causa soviética, os cubanos passaram a receber produtos vetados pelo embargo. Em todo este processo subsistiu sempre um erro crasso, nunca em Cuba se desenvolveu agricultura, indústria ou comércio dignos de tal nome. A queda da União Soviética foi assim mais uma machadada no projecto socialista de Fidel.
O embargo económico decretado há cerca de 50 anos poderia ter funcionado como estímulo à economia interna. Sem concorrência exterior seria de esperar que a produção cubana prosperasse. Assim não aconteceu. Como indústria pouco mais têm para oferecer do que rum e charutos e a agricultura é inexistente. É revoltante atravessar um país de prados verdes e terra rica com pouco mais do que meia dúzia de campos plantados. Como compreender que a maioria da população não tenha leite com tanta terra para criar gado? É o socialismo do faire rien.A escravatura foi oficialmente abolida do território cubano em 1880 mas permanecem inculcadas na mentalidade cubana as marcas de submissão tatuadas durante séculos.

Quinta-feira, Setembro 27, 2007

Museu Automóvel

Símbolo de poder de compra e nível de desenvolvimento, o parque automóvel retrata em poucos segundos aquilo que pinturas e enfeites tentam disfarçar. Sem vergonha pela idade avançada, rugas vincadas na chapa colorida de ferrugem, manetas de espelhos e vidros, catarro exuberante pela intoxicação decenária, os automóveis cubanos são o orgulho dos seus donos. Chevrolets, Cadillacs e outras banheiras de imersão percorrem o asfalto gasto de Cuba há mais de 50 anos. Poderia ser forma de expressão, ou exagero verbal, mas o número 50 é real. 50 anos de reparações amadoras, em oficinas caseiras improvisadas, peças adaptadas ou mesmo inventadas, transformaram as estrelas automobilísticas dos anos cinquenta em carrinhos de remendos que se arrastam. Mais, esta é, na melhor das hipóteses, a idade mínima destes automóveis. Muitos deles terão mesmo ultrapassado os 65 anos de reforma há muitos anos!Os proprietários dos chaços que hoje vemos circular são os mesmo que há 50 anos exibiam as últimas novidades do mercado automobilístico internacional. Quem tinha carro conservou-o, os restantes saltitam de carroçaria em carroçaria numa dança diária de boleias.
A culpa é do embargo, que fechou portas aos modelos turbinados do mundo ocidental, e do estado que actua como patriarca severo proibindo que os filhos, cidadãos de Cuba, atinjam a independência pela aquisição de carro próprio. Celebrado o pacto de difusão dos ideais marxistas nos mares das Caraíbas os únicos carros que entram em solo Cubano são os Lada Soviéticos. A faixa etária mais recente é ainda assim dissimulada pelo aspecto envelhecido destas máquinas, transparecendo mesmo a ideia de epidemia de velhice precoce.
Rejeitando os princípios difundidos pela Benetton a diferenciação faz-se pela cor. Não da carroçaria pois essa é tutifruti da cor dos remendos, mas sim das placas de matrícula. Para os velhinhos norte-americanos ficou guardado o amarelo; táxis e transportes públicos citadinos são pincelados de azul; estrangeiros que dão o seu contributo ao país são marcados a laranja; ao estado, como não poderia deixar de ser, o vermelho do partido. Incompreensivelmente e apesar do embargo vêem-se aqui e acolá modelos automóveis recentes (consegui mesmo vislumbrar, como se se tratasse de um cavalo alado, um BMW de 2007). Obviamente que são pertença do estado ou dos estrangeiros mercenários.O povo sem possibilidade de romper o embargo ou permissão para adquirir um Lada dispõe-se pelas ruas da capital ou ao longo da auto-estrada à espera de boleia. É como se as estradas fossem uma paragem contínua de autocarros. A jornada de trabalho começa com várias horas de antecedência pois só a sorte dita quando aparece um carro ou camião com vaga para mais uma cabeça.Fora das cidades a áurea rural acentua-se sendo a redução de automóveis em circulação assinalável. Os gases tóxicos emitidos pelas latas são então substituídos pelo odor animal das carruagens de cavalos. Tal como noutros países a falta de locomoção motorizada é ainda compensada pela abundância de bicicletas. Sempre prontas e amigas do ambiente, em países como Cuba os dias sem carros repetem-se todos os dias do ano. É a sustentabilidade forçada.Ao olhar resignado dos cubanos contrapõe-se o brilho nos olhos de alguns caçadores de desgraças alheias. Altruístas e beneméritos, alguns grupos privados internacionais começam hoje a olhar para as relíquias de museu como investimento. Tal como os programas ocidentais de troca de carros velhos, a ideia é receber os carros cinquentenários e dar à troca um Lada novinho em folha. Cantiga do vigário claro está. Os cubanos ganham carrinhos de linhas enquanto os seus bólides são vendidos a preços astronómicos entre os coleccionadores internacionais.

Assim vai o mundo…

Quinta-feira, Setembro 20, 2007

Ballet da Putaria – parte II

Prostituição, o tema é recorrente mas aparentemente também o é a disponibilidade humana quando se trata de alimentar o estômago ou os vícios. Cuba não foge à regra, até ver sem excepção…
Pela proximidade e clima a comparação com as “bailarinas” brasileiras é inevitável, não pela repetição dos passos indecorosos frente aos hotéis de Copacabana mas antes pela escolha de coreografias estudadas. Graciosas e cobertas por tecidos vistosos, as cubanas que se pavoneiam nos hotéis têm traços distintos da prostituição banal dos países subdesenvolvidos. O passo mais acertado, os movimentos discretos ao mesmo tempo que insinuam a imaginação, olhar expressivo e pundonor inabalável conferem ao ballet da putaria cubana um carácter sublime. Alapadas nos sofás da recepção cruzando olhares, mais expeditas de mãos dadas com hóspedes carenciados, atléticas na piscina ou matadoras na discoteca do hotel, a movimentação destas mulheres passaria despercebido não fosse a cor da pele e semblante bravio. Não se trata de racismo mas da constatação que o poder económico, motor do turismo, está ainda maioritariamente nas mãos dos brancos. Afinal não só de praia e rumba se faz o turismo em Cuba…
A postura é diferente e a prová-lo o desprezo que mostram pelo rótulo estereotipado de prostituta. Na sua maioria mulheres com estudos, utilizam a beleza estonteante das suas curvas corporais para se auto-proclamarem como acompanhantes de luxo. De forma generalizada e com as devidas diferenças serão o que no Brasil se chama de Garotas de Programa.
Intercâmbio linguístico terminado, corpos nus e suados entrelaçados em lençóis impessoais, movendo-se ritmadamente segundo sons guturais de libertação prazenteira, compõem um cenário que me faz duvidar da essência da actividade. Suavizado pela melodia licenciada e trejeitos educados, o fim anuncia-se sempre com o coito e o pagamento de serviços prestados.
Distanciado e preocupado com o bem-estar económico do estado ocorre-me agora uma questão que julgo pertinente. Do director de banco ao arrumador de carros todas as profissões são controladas pelo estado. Será o governo de Fidel o chulo que se acobarda nos becos à espera do lucro orgástico das belas criações da natureza?

Segunda-feira, Setembro 17, 2007

Tropicana, Broadway das Caraíbas

Tropical como o clima, sensual como as cubanas, ritmado como as rumbas, a Tropicana é uma montra de luxo das capacidades artísticas do povo cubano. Construída na década de 30 nos arredores de Havana, esta casa de espectáculos sobreviveu às mudanças de regime, mantendo ainda hoje o título de maior cabaret do mar das Caraíbas. Debaixo de céu estrelado, rodeado por palmeiras, o público é colocado em meio circulo ao redor do palco, ao estilo dos anfiteatros gregos.
Apesar da denominação e contrariando a prática ainda vigente nos cabarets de Paris o espectáculo não incluía seios desnudos ou movimentos eróticos (uma pena…). No palco sucederam-se danças e cantares cubanos, exercícios de ginástica olímpica e pequenas encenações teatrais. Apesar de distanciada das evoluções culturais dos países ocidentais, a Tropicana exibe um show digno das melhores casas de espectáculo do género existentes por esse mundo fora.

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Com mais de mil lugares a Tropicana é uma fábrica de fazer dinheiro. Para ter direito ao ingresso dourado tive de abdicar dos corsários, da regata e das hawaianas. Fossem só as restrições modistas e seria tranquilo, mas a exigência de pagamento de 80 pesos (2000 pesos cubanos, 64 euros) com direito a 5 azeitonas, 3 cubos de queijo, 2 tiras de fiambre, 1 copo de champagne e ¼ de garrafa de rum, é um autêntico roubo. O espectáculo foi 5 estrelas, mas não nos podemos esquecer do local onde tomou lugar. Umas contas de algibeira apressadas fazem-me chegar à quantia de 80 000 pesos de lucro diário! Sendo o salário médio cubano cerca de 10 pesos, a quantia amealhada por esta mina daria para alimentar 240 000 cubanos por mês.

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Mais do que um monte de papeis burocráticos a serem explorados e revistos ao sabor das necessidades pessoais de cada um, em Cuba as leis são levadas a sério. Dia 30 de Julho, dia dos mártires da revolução é dia de reflexão e de eternização dos heróis que tornaram possível o sonho socialista. As festas e celebrações tomam lugar dia 26 enquanto o 30 é reservado para dia Zen. Assim sendo, toda e qualquer festa tem trancas à porta durante 24 horas. Foi assim com alguma surpresa que os cerca de 1000 clientes da Tropicana viram o palco encerrar à meia-noite em ponto.
Saindo pelo portão da mansão, todo o glamour esvanece-se novamente. A realidade interina da Tropicana é como uma ilha descontextualizada da pobreza circundante. Separado pelos muros de tijolo e pelo mural da capacidade económica, este é um local proibitivo para os Cubanos. Júlio o taxista do Lada que nos levou de volta ao hotel frequenta todas as noites a Tropicana, mas apenas do lado de fora…

Quarta-feira, Setembro 12, 2007

Coco Race

Terminado mais um dia de visitas guiadas pela cidade de Havana trocámos o marasmo solarengo da piscina no terraço do hotel pelo rebuliço citadino. Como destino os mojitos do empedrado 207 em Havana a Velha.Sem autocarro da cubanacan disponível o jeito foi recorrer aos transportes públicos. A panóplia de opções é um catálogo de veículos requintados, com o selo de garantia do ferro velho. Táxis dos gangs norte-americanos, carros de espionagem soviéticos, autocarros escolares americanos dos anos 50 e o velho rasteirinho, localmente conhecido como “Camelo”. Apesar das bossas metálicas, o aspecto nada altivo faz com que o famoso autocarro urbano de Havana se afigure mais com uma anaconda do que com um dromedário. Esquecendo o aspecto e focando apenas a carga humana transportada entende-se a designação de camelo. Em Portugal poderia muito bem ser apelidado de Burro de Carga…Pelos apertos previstos e calor infernal a opção recaiu sobre uma estirpe de veículos desconhecida. Amarelos da cor da banana, redondos como as laranjas, os “Coco Táxis” fazem furor entre a “criançada”. Sem rivalidades excessivas e plenos de espírito desportivo organizámos uma verdadeira street race pela capital cubana. 4 cocós transportando 10 tugas em competição pela chegada à Bodeguita del Médio.Três rodas, uma aerodinâmica tampão e instabilidade assombrosa, quase valeram um beijo no chão das curvas apertadas. Valeu a experiência da nossa condutora, uma cubana bem parecida, mãe de família e alegre por natureza com uma panca descomunal. Desde corta-mato a transgressão de sentidos proibidos tudo fizemos para obter a pole position, mas o peso da “carga” não ajudou.
Sem vencidos e poucos vencedores o prémio foi distribuído equitativamente em copos de vidro decorados de relva do prado e com trilha sonora habanera. Local eternizado pela clientela famosa que recebeu, a Bodeguita del Médio é o bar-restaurante mais famoso de Havana. As paredes espichadas de alto a baixo são testemunhas mudas dos milhares de clientes do bar, exibindo sem pudor as mensagens crivadas.

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De regresso ao hotel não fomos apanhados pelos radares de velocidade mas sim pelos fiscais dos transportes. Descrentes do socialismo do povo, todas as profissões são fiscalizadas para garantir que não há fugas aos rendimentos comunitários. Com um polícia por cada 6 habitantes é fácil entender porque é que Cuba é um dos locais mais seguros do Mundo. Seguro e vigiado…

Terça-feira, Setembro 11, 2007

Guardador de rebanhos

Podia ser o parágrafo oculto do texto anterior, mas a mudança de protagonista justifica uma nova entrada com a ênfase devida.
A oferta turística algo rudimentar é procurada por uma multidão aparentemente pouco exigente. Oferta e procura distanciadas na evolução, encontram-se em simbiose na junção final. Verdade seja dita que a possibilidade de sair fora dos trilhos traçados pelas mãos “idóneas” das agências turísticas não é grande. Ainda que noutra dimensão, também os passos dos observadores estrangeiros são guiados pelo estado omnipresente visto as agências turísticas serem pertença do aparelho estatal.
O estado encarnando a imagem de Alberto Caeiro, numa versão que contrapõe ao bucolismo genuíno a gestão económica das atracções locais, é o guardador de rebanhos estrangeiros encarregado de os encarreirar para os pastos “culturais” pretendidos.

Originais e genuínas, as fábricas de charutos e rum são a Meca de visita a Havana. Sem possibilidade de poderem exportar os seus produtos, apostam no consumo interno como forma de escoar a produção. O brieffing inicial de apresentação dos meios de produção, inexoravelmente manuais, é sucedido por uma sessão de degustação profunda e comércio ligeiro.

Ser turista em Cuba implica o sacrifício de iniciar hostilidades alcoólicas logo pela manhã. Pelas lembranças juvenis de experiências negativas com o néctar cubano apaguei-o da minha carta de líquidos, mas confesso que conquistou novamente lugar cativo. De manhã à noite, frio ou quente, misturado ou simples o Rum Cubano faz concorrência ao governo em questão de omnipresença.

Fora das grandes cidades o padrão é constante. Para além das praias bordejantes da ilha, a visita às vilas consiste maioritariamente pelo conhecimento do “trabalho manual”. Fábricas artesanais de mil e um produtos, alguns genuínos, outros imitações mundanas encontradas em qualquer país, são o destino dos autocarros turísticos. Fugir ao massacre peditório é quase impossível sendo apenas atenuado se nos distanciarmos do grupo e imiscuirmos nas artérias das redondezas. São momentos breves e ainda assim confinados a um raio de acção pequeno mas que conferem alguma autenticidade no contacto local.

Saídos de Havana em direcção a Cienfuegos fiz a visita mais inusitada desta viagem, uma reserva de jacarés. Da mesma forma que as visitas a igrejas ficaram comprometidas depois da minha ida a Itália, também o contacto com reservas artificiais de animais selvagens ficou manchado depois da estadia no Pantanal. Desconhecido das populações locais, a reserva é ponto de visita obrigatório em qualquer circuito turístico da região central da ilha. Meia dúzia de gaiolas de ferro, umas dezenas de jacarés amestrados e um espectáculo decadente de crocodilo dundee foram as atracções da manhã.

Para terminar com chave de latão um passeio de barco até uma ilha transformada em museu de uma tribo de índios dizimada. Tudo isto seria plausível não fosse o pormenor de se desconhecer se os índios alguma vez passaram naquela zona, ou o facto de os jacarés não existirem naquela região. A comparação é forçada, mas imagine-se uma exposição de ursos polares e esquimós na Holanda…

Não rejeito por completo o recurso a viagens de agência como forma de conhecer o Mundo. Afinal de contas têm a vantagem clara de permitir o conhecimento de uma realidade distinta num espaço de tempo mais reduzido. Importa porém questionar a fiabilidade dessa realidade vendida. Mochila às costas, livro de notas na bolsa, máquina na mão e abertura de espírito parece-me ainda assim o meio mais fidedigno de palmilhar o planeta azulzinho. Perdem-se horas de sono, ganham-se confusões casuais, mas abrimos portas a uma enormidade de situações inesperadas (algumas boas, outras menos agradáveis) e acima de tudo um contacto muito mais próximo com as comunidades locais, quanto mais não seja pela necessidade egoísta de resolver os nossos problemas momentâneos.

Domingo, Setembro 09, 2007

Turismo primário

A actividade terciária do turismo encontra-se em Cuba paradoxalmente primária.
Beleza natural nula, obras arquitectónicas pobres e desgastadas pelo tempo, museus e monumentos uma amostra minimalista e sensabor, em Havana, mais do que em qualquer outro local, o turismo faz-se valer da vivência com a população e observação da realidade diária cubana. Como cartão de visita o apelo ao contacto próximo com o mito de uma das últimas sociedades anti-americanas e resistente à cavalgada triunfal do capitalismo.Não obstante a importância como suporte das finanças nacionais, o turismo em Cuba é ainda uma arte mal explorada. Apanhados de cuecas pela invasão repentina dos conquistadores do século XXI, a grande maioria dos locais turísticos apresenta-se segundo modelos antiquados e insensíveis à harmonia estética.
Parcial e propagandista, no Museu da Revolução a história recente do país é narrada pelos vencedores em folhas de papel cavalinho enriquecidas na máquina de escrever, recortadas à mão e coladas em cartolinas de papelaria. Enaltecem-se os feitos descura-se a arte de transmissão.
Onde os Portugueses teriam erguido um padrão dos Descobrimentos, os Americanos erigiram um Capitólio de soberba. Majestoso e central em Cuba, a réplica cubana do Capitólio de Washington remonta ao início do século, altura dos espectáculos de marionetas presidenciais patrocinadas pelo Tio Sam. Pela tentativa utópica de decalque modelo americano, o ponto zero das auto-estradas cubanas (é verdade, elas existem) é precisamente no centro da cúpula do Capitólio sob vigilância estática da terceira maior estátua indoor do mundo. Os guardiães da entrada petrificaram pela demora no regresso do dono, mas tornam claro a impossibilidade de prolongar indefinidamente o corte de domínio do vizinho do Norte. Fatalidades…